quinta-feira, 17 de maio de 2012

A FEITICEIRA

NOTA 7,5

Longa surpreende no
início com narrativa
inesperada, mas carrega
em clichês no segundo ato
Um longa-metragem ser encaixado na programação da televisão é perfeitamente possível, mas adaptar um programa da telinha (para a época atual cai melhor o termo telão privado) para a telona do cinema não é fácil. Hollywood sempre tenta fazer essa transição recorrendo a sucessos do passado ou contemporâneos. Sex and The City mesmo após o término da série fez certo barulho nos cinemas e ganhou uma continuação e Agente 86 foi resgatado do túnel do tempo de forma ágil e de fácil assimilação por novas platéias. Já As Panteras pisou fundo na adrenalina e nas referências pop e trombou com um público que apostou na nostalgia e se decepcionou. Esses são exemplos mais recentes, mas existem muitos filmes baseados em seriados que foram lançados na época do boom das fitas VHS e que hoje até os canais abertos os relegaram ao ostracismo. Somando muito mais erros que acertos, parece que a indústria de cinema americana não aprendeu a lição e continua investindo na idéia. Ainda há planos, por exemplo, de uma produção baseada na série “24 Horas” que hoje sobrevive de reprises com audiência capenga. Se a intenção é tão forte, o melhor mesmo é procurar formas alternativas de resgatar a memória do seriado e foi isso que a diretora Nora Ephron fez com A Feiticeira recorrendo ao recurso da metalinguagem, o que certamente decepcionou muita gente que comprou a idéia de ver uma espécie de episódio esticado, mas se deparou com um novo projeto, um remake do programa dentro do filme. É surpreendente o número de críticas negativas que até hoje esta comédia recebe, principalmente do público que acompanhava a série que foi ao ar entre 1964 e 1972 e foi reapresentada a exaustão pelas décadas seguintes. Claro que não é uma obra digna de prêmios e elogios rasgados, mas certamente cumpre bem seu papel de entreter, tanto é que passou pela avaliação das platéias mais jovens que provavelmente nunca assistiram a um episódio do seriado e boa parte dos espectadores do sexo feminino. Mexer com ícones culturais, e neste caso um fenômeno quase mundial, é complicado e merece respeito a opção de ousar em ser até certo ponto original entregando aos espectadores algo que eles não esperavam, mas é aquela velha história, o público reclama da mesmice, porém, quer sempre mais do mesmo. Há muitos anos a idéia de levar o clássico para as telas grandes rodava pelos estúdios e no início dos anos 90 Meryl Streep era a mais cotada para ser a protagonista e parecia animada, mas nem mesmo uma ponta lhe deram quando o longa finalmente saiu do papel.

A história começa bem e já mostrando a que veio, montar uma nova versão do seriado, assim jogando por água abaixo as expectativas de quem esperava ver logo na introdução a tradicional e marcante música da abertura do seriado (ela entra bem mais a frente). Jack Wyatt (Will Ferrell) é um ator egocêntrico que está desesperado por causa dos fiascos que foram seus últimos trabalhos, mas ainda assim ele se sente a cereja do bolo. Sua carreira pode dar um grande salto com o convite para entrar no elenco do remake da clássica série, mas o projeto depende de uma atriz que consiga fazer o movimento de nariz que a protagonista sempre fazia na hora de suas trucagens e nenhuma candidata consegue (cadê os efeitos especiais neste momento?). Wyatt tem a sorte de encontrar uma jovem por acaso mexendo o nariz perfeitamente e o melhor que parece encarnar a personagem sem ao menos saber atuar, tudo o que ele necessitava para virar a verdadeira atração do programa. Apesar de ser protagonizado por uma mulher, Samantha, o ator faz questão que seu personagem Darrin seja a estrela e que sua companheira de trabalho não ofusque seu brilho, porém, o que ele não sabe é que descobriu uma verdadeira feiticeira que com seu carisma e simpatia vai roubar a cena. A tal moça é Isabel Bigelow (Nicole Kidman) que resolve mudar de vida radicalmente abrindo mão de seus poderes e decidindo ir morar sozinha e levar uma vida comum como qualquer ser humano, porém, ela não poderá ficar longe da magia até para as atividades domésticas mais simples. Ao se apaixonar pelo companheiro de trabalho e perceber que ela é quem era a grande estrela do show, Isabel passa a usar seus truques para conseguir o que quer, inclusive o amor de Wyatt que passa de uma hora para a outra demonstrar por ela um amor exagerado e sem controle. Em uma história paralela e pouco desenvolvida temos os veteranos Shirley Maclaine e o “máquina de atuar” Michael Caine, respectivamente Iris Smythson, a intérprete de Endora, a mãe da bruxinha da série, e Nigel Bigelow, o pai da feiticeira de verdade. Ele condena o interesse da filha em viver como uma mortal, mas está sempre por perto para lhe dar conselhos e cortejar Iris. O roteiro se apóia na idéia da vida imitando a arte com toques fantasiosos que tem até a sua metade uma narrativa promissora e de certo modo inovadora, contando obviamente com citações à inspiração original, inclusive recriam a abertura da série de modo bem particular. O caldo entorna quando Ferrell, em um papel que seria de Jim Carrey e que poderia ajudar nas bilheterias e prestígio do filme, começa a cansar com suas declarações de amor e caras e bocas e o roteiro partindo para clichês e um final previsível e açucarado. Todavia, o humor é sustentado pela boa química do casal protagonista que acaba repetindo na vida real os conflitos fictícios das gravações. A graça, ainda que bem inocente, está nas atitudes e falas de Isabel, requentando as piadas do diferente se adaptando ao mundo normal e moderno.
Nora, especialista em tramas românticas açucaradas como Mensagem Para Você, apostou no saudosismo, incluindo a constante música-tema do seriado ao fundo, não perdeu o foco do relacionamento amoroso dos protagonistas, com direito a uma sogra palpiteira e sarcástica, ainda que ela fosse parente somente nas gravações, mas não acertou no tom cômico. Ela tem o mérito de não deixar o roteiro escrito pela própria em parceria com a irmã Delia Ephron descambar para o caminho das piadas idiotas e de gosto duvidoso, algo raro no gênero já a alguns anos, mas os momentos de humor que ela proporciona soam muito ingênuos. Isabel parece inocente demais, quase uma criança descobrindo o mundo. A feiticeira original tinha uma postura mais adulta e inteligente, mas é preciso lembrar que a bruxinha interpretada por Nicole é a atriz que fará o seriado fictício e não a própria e jamais chegou sequer a assistir o programa, pois segundo ela sua família a proibia (uma das boas sacadas). Dessa forma ela não percebe que serve apenas como escada, um termo artístico para colaborador, para Wyatt brilhar. É um pouco confuso distinguir três realidades em um mesmo produto. Temos uma visão do que ocorre acerca das gravações do seriado, outra da trama dos intérpretes fora de cena e ainda outra percepção do filme em si e ainda podemos nos deixar influenciar por aqueles que batem na tecla que a série original protagonizada por Elizabeth Montgomery era bem melhor e diferenciada. De qualquer forma, A Feiticeira não é a tragédia que tantos falam, simplesmente é uma comédia simpática e leve no melhor estilo sessão da tarde, algo que muitos tentam fazer e acabam conseguindo resultados catastróficos diferentemente deste projeto. A crítica especializada e até mesmo alguns espectadores precisam aprender a ser mais condescendentes com as produções criadas para puro escapismo e esquecer os Oscar e demais prêmios que o elenco tenha em casa, algo que no caso pesou na hora das considerações de muitos críticos. Apesar de no final as coisas serem resolvidas rapidamente e tudo ser previsível, em tempos em que é difícil achar uma comédia censura livre com letras maiúsculas um filme como este é um achado para curtir com a família e amigos sem constrangimentos.

Comédia - 102 min - 2005 -Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

Gilberto Carlos disse...

A Feiticeira foi muito criticado quando foi lançado, mas sabe que eu acabei gostando. Claro que não chega aos pés do original, mas acaba sendo uma grande homenagem.

Bússola do Terror disse...

Eu penso exatamente como o Gilberto.

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