quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PARA SEMPRE CINDERELA

NOTA 8,5

Versão mais pé no chão do
conto da Cinderela já
nasceu para se tornar um
clássico adolesente 
Os contos de fadas sempre foram fontes inesgotáveis para o cinema. Do romance, passando pelo drama e a comédia, chegando até o terror e obviamente servindo de inspiração para animações, as histórias clássicas infantis já sofreram diversas modificações e hoje é até difícil afirmar com certeza quais são as versões originais. Costumamos encarar as antigas produções da Disney como as fiéis transposições dos contos para o formato de película, mas estas talvez sejam as versões mais floreadas e distantes dos textos reais. Sempre o bem tem que triunfar e animais fofinhos e prestativos nunca faltam. Outros estúdios ao longo do tempo investiram em diversas fitas no mesmo estilo, mas também passaram a readaptar velhas fórmulas e textos, o que nem sempre resulta em filmes satisfatórios. Ainda bem que existem exceções. O diretor Andy Tennant resolveu dar uma outra visão da bela e romântica história de Cinderela injetando realismo à fábula e conseguiu ótimos resultados. Provavelmente, Para Sempre Cinderela já nasceu para se tornar um clássico das sessões da tarde e assim o tempo confirmou. O longa mantém o cenário da narrativa em um passado medieval, mas algumas mudanças consideráveis foram feitas para aumentar o interesse do público e aproximar o texto de certa modernidade. As principais modificações foram nos perfis e conflitos dos personagens. Por exemplo, a mocinha é corajosa, enfrenta a vida e vai a busca de seus objetivos sem ajuda de uma fada-madrinha, enquanto o seu príncipe não tem nada de encantado e parece mais preocupado em se manter protegido sob os cuidados da família real. Os dois vivem em mundos diferentes, mas também são contrários na maneira de agir e encarar os desafios. Mesmo assim eles se apaixonam, portanto, a regra dos opostos se atraem é mantida.

A essência da trama é basicamente a mesma da história de Cinderela que costumamos ouvir quando crianças, mas Tennant usa a metalinguagem para criar uma introdução bem original. Os próprios irmãos Grimm, os autores do conto da gata borralheira, aparecem a convite da rainha da França que solicita a presença deles no palácio para fazer um elogio ao seus trabalhos ao mesmo tempo em que denúncia que eles não foram realistas na forma de contar a história da simplória jovem que passou a vida sendo humilhada em casa, mas conseguiu se tornar uma nobre quando conquistou o coração de um príncipe. Assim, ela decide lhes narrar o que realmente aconteceu. Danielle de Barbarac (Drew Barrymore), sua tataravó, ficou muito feliz quando seu pai Auguste (Jeroen Krabbé) se casou novamente, pois assim ela ganhou uma mãe e duas irmãs no mesmo dia. Mas a sonhada felicidade durou pouco. Logo seu pai morreu subitamente e a madrasta, a cruel baronesa Rudmilla (Anjelica Houston), que ela tanto desejou que fosse a mãe que nunca tivera, passa a tratá-la como uma criada. Uma das filhas da baronesa, Jacqueline (Melanie Lynskey), é bondosa e não concorda com várias atitudes da mãe, mas a outra, Marguerite (Megan Dodds), é bastante egoísta e só pensa em se casar com o príncipe herdeiro, o jovem Henry (Dougray Scott). Para isto ela tem total apoio da mãe, que está disposta a conspirar, mentir e fazer o necessário para ver sua filha como a futura rainha. Mas o destino acaba colocando Danielle no caminho do rapaz e os dois se apaixonam imediatamente. Porém, a moça finge ser da realeza e esconde sua identidade, o que pode colocar o romance em risco a qualquer momento.

Apesar de tentar inovar, inclusive envolvendo a protagonista em um relacionamento de amizade com o visionário pintor Leonardo Da Vinci, é óbvio que o final feliz não é deixado de lado, afinal a obra foi criada justamente para fazer o público se sentir bem quando acabar de assistir e não há dúvidas que este objetivo ela consegue com louvor. É quase impossível não querer descobrir o que esta nova versão de Cinderela pode nos trazer e o apuro técnico e visual ajudam a manter o interesse.  Tudo é de encher os olhos. As belas locações e fotografia, cenários e vestimentas medievais de primeira e uma linda trilha sonora dão todo o clima de contos de fadas à produção. O elenco simpático e afiado também ajuda a deixar os espectadores atentos. Drew Barrymore dosa bem o drama e a comédia em sua personagem e não a deixa com ares de sofredora demais. Ela nem precisou de muito esforço para interpretar Danielle, afinal já tinha na época uma boa experiência como a mocinha dos filmes. A única diferença é que trocou as roupas e cenários contemporâneos pelos de séculos atrás. Ela batalha pelo que quer, mesmo tendo que enfrentar o desprezo da madrasta interpretada com perfeição e sem exageros por Anjelica Houston, uma atriz que parece ter um dom especial para dar vida a personagens do mal ou rancorosos, aliás, esta foi sua última grande e memorável atuação. Depois passou a trabalhar como coadjuvante de luxo em produções água com açúcar ou alternativas. Já o príncipe do conto, que não fazia muita diferença nas versões animadas, aqui também é praticamente um figurante, muito por culpa da interpretação insossa de Dougray Scott que até hoje não se aperfeiçoou na profissão. No conjunto, Para Sempre Cinderela funciona muito bem para entreter a família toda e sem a desculpa que é só para matar o tempo. O longa realmente é muito agradável, mas é preciso deixar a imaginação rolar solta para embarcar nessa fantasia recriada para atingir o público adolescente do final da década de 1990, mas que agrada outras faixas etárias  e continua uma excelente opção até hoje.

Romance - 120 min - 1998 - Dê sua opinião abaixo.

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