segunda-feira, 4 de junho de 2012

REC

NOTA 8,0

Terror espanhol aposta no
realismo para causar bons
sustos e sem precisar
revelar todos seus mistérios
O gênero de terror sobreviveu durante algum tempo graças aos lucros de monstros clássicos como vampiros, lobisomens e múmias. Depois foi a vez dos fantasmas gerarem renda, sejam eles aparições repentinas ou almas endiabradas que se apossam de corpos vivos. Já os anos 80 foram marcados pelas produções trashs e psicopatas mascarados e a década seguinte misturou todos esses ingredientes em um caldeirão de sustos e gritos, havendo espaço e público para todos os tipos de horrores, tendência que se estende aos primeiros anos do novo milênio, embora as assombrações orientais sejam o grande símbolo do gênero nesse período. Entre fantasminhas de olhos puxados, monstros nojentos, jogos sádicos e crianças literalmente com o demônio no corpo, poucos títulos passam ilesos pelo crivo dos críticos. Porém, é curioso observar um fenômeno ainda pequeno, mas aparentemente bem avaliado: os filmes que assustam apostando no realismo e amadorismo. Se máscaras de borrachas, líquidos pigmentados de vermelho e corpos falsos esquartejados já não assustam mais como antes o jeito é recorrer à realidade que, diga-se de passagem, atualmente é mais assustadora que qualquer coisa que o cinema já criou para meter medo. Não que os sustos destas produções sejam livres das amarras do gênero, afinal eles recorrem a temas corriqueiros, mas a novidade fica por conta de mostrar como as pessoas comuns reagem quando ameaçadas. Em 1999, A Bruxa de Blair se tornou um fenômeno graças a uma excepcional campanha de marketing e aterrorizou o mundo com a atmosfera que propiciou, mas jamais mostrando o que realmente assustava os atores da fita vendida como uma compilação de imagens documentais reais. Anos mais tarde, um animal gigantesco e desconhecido aterrorizou uma cidade em Cloverfield e também gerou burburinho, ainda que pouco o vemos em cena. Por fim, até o cultuado George Romero, especialista em ressuscitar defuntos, embarcou na onda de filmagens mais cruas e sem retoques no pouco visto Diário dos Mortos. Todos eles têm em comum sua estética de vídeo caseiro e as ações sendo registradas sob o ponto de vista das câmeras manuseadas pelos próprios personagens, obviamente situações plausíveis aos roteiros, e é justamente este o estilo de Rec, um fenômeno do cinema espanhol que se espalhado pelo mundo rapidamente.

O segredo do espantoso sucesso está em apostar em uma fórmula que faça com que os espectadores participem ativamente do filme. O recurso da metalinguagem, a filmagem dentro do filme, faz as vezes da ótica do público praticamente. É algo arriscado, mas parece que está agradando justamente por não jogar as responsabilidades de assustar no “vilão” e sim deixando o pavor tomar conta de quem assiste graças as reações dos personagens diante do perigo eminente. No caso do trabalho assinado por Jaume Balagueró e Paco Plaza, as tensas imagens que acompanhamos são feitas por Pablo (Pablo Rosso), um cinegrafista cujo rosto jamais vemos. Ele está acompanhando Ángela Vidal (Manuela Velasco) para mais uma gravação de uma matéria para um programa sensacionalista de TV que registra acontecimentos noturnos, principalmente acidentes e ocorrências policiais. Tentando dar ao seu trabalho toques de cultura, a repórter desta vez quer acompanhar a rotina do corpo de bombeiros durante a madrugada. De uma hora para a outra a calmaria se transforma em um tremendo corre-corre. Chamados para socorrer uma senhora de idade em um antigo edifício, os bombeiros se deparam com algo que jamais viram. A idosa está toda ensanguentada e com ataques de fúria e não demora a atacar demais moradores e policiais que também foram ajudar. Pouco a pouco o pânico toma conta de todos naquele local e a dupla de repórteres está vivenciando a mais apavorante matéria que fizeram até então. E a noite promete ser bem longa, embora o filme tenha uma reduzidíssima duração, aproximadamente uma hora e quinze minutos. Os cineastas optaram por criar uma história cujo início é insosso, mas não demora em o caos se instalar e perdurar até o último minuto. É comum nos filmes de terror o nível de tensão diminuir consideravelmente quando descobrimos os segredos por trás das ameaças e mistérios, mas neste caso continuamos com a pulga atrás da orelha mesmo quando sobem os créditos finais. A ambientação claustrofóbica e os eficientes efeitos de câmera como se fosse uma gravação amadora contribuem para o contínuo envolvimento do espectador, chegando a causar insegurança e desconforto em alguns momentos. Ficamos a todo instante se perguntando o que há de estranho naquele prédio e o que está alterando o comportamento das pessoas. Um vírus? Algo a ver com espíritos ou com demônios?

Embora curto e de certa forma com uma narrativa bem ágil, resultado de uma eficiente e precisa edição de cenas que coloca em partes ordem no caos, esta é uma produção que muitos a primeira vista podem tachar como horrível, tola e por ai vai, mas vale a pena assistir mais de uma vez prestando mais atenção. A rapidez, o corre-corre e a gritaria certamente nos distraem e tiram nosso foco da história, dessa forma podemos perder explicações importantes sobre como a tal maldição é espalhada e até mesmo a revelação do mistério (ou parte dele). É interessante também observar que há certa atenção por parte do roteiro em criar personagens críveis e com algo a dizer, coisa pouco comum atualmente em produções de horror. A protagonista, por exemplo, começa o filme como uma pessoa que parece só pensar em realizar a matéria de sua vida e mostra-se corajosa e bisbilhoteira, mas a cada novo elemento surpresa que surge sua bravura vai diminuindo dando espaço para sua fragilidade aflorar. Entre os moradores do tal edifício nem todos estão sem entender o que está acontecendo, mas sim fingindo o medo pra protegerem-se. Balagueró e Plaza conseguiram arrancar interpretações inspiradas de seu elenco desconhecido graças a um velho truque que Steven Spielberg já utilizava nos anos 80, ainda que em uma ou outra cena. Se a intenção é deixar as platéias boquiabertas, nada melhor que testar as reações com os próprios envolvidos no projeto, assim os atores atuaram seguindo um pré-roteiro, ou seja, sabiam em partes o que era planejado, mas não ficaram livres de algumas surpresas de última hora no estúdio. Todavia, em meio a tantos acertos atirando literalmente no escuro, os diretores não proporcionaram um final dos melhores, ainda que os últimos minutos sejam de roer as unhas. A estratégia de deixar no ar questões a serem resolvidas é proposital, pois já havia o projeto de ao menos mais uma sequência e há indícios de que os planos não paravam na parte dois, porém, o segundo longa já não causou o frisson esperado e o remake americado intitulado Quarentena tratou de resquentar a fórmula com o prato ainda muito quente, esgotando assim as possibilidades de surpreender o espectador. De qualquer forma o primeiro Rec cumpre bem seu papel e tem garantido seu nome em um capítulo da história do cinema. Agora ficamos no aguardo do próximo terrorzão que nos supreenderá. Pode surgir ainda este ano, no próximo, daqui uma década...

Terror - 75 min  2007 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Rafael W. disse...

Um dos filmes de terror mais aterrorizantes da década.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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