sexta-feira, 4 de maio de 2012

A SOMBRA DO VAMPIRO

NOTA 10,0

Fantasia acerca de lenda
dos bastidores de um
clássico é uma verdadeira
homenagem à sétima arte
Os vampiros são alguns dos personagens mais recorrentes da história cinematográfica. Desde os tempos do cinema mudo as temidas criaturas da noite conquistaram seu espaço sendo Nosferatu a obra do tipo mais marcante deste período. Datado do ano de 1922, este clássico do terror expressionista alemão foi o primeiro filme a ser originado do famoso livro “Drácula” assinado por Bram Stoker, que sete décadas mais tarde ganharia sua versão-coqueluche pelas mãos de Francis Ford Coppola. Neste espaço de tempo, centenas de filmes de vampiros surgiram e em cada um eles se apresentavam com alguma novidade. Sedutores, perversos, divertidos, depressivos, românticos e até versões femininas e infantis tivemos. É óbvio que tudo que é demais enjoa e a maioria das produções de vampirismo lançadas nos últimos tempos automaticamente são tachadas como trashs. Em meio a estagnação da imagem desse mito no final do século 20, o diretor E. Elias Merhige trouxe um sopro de originalidade curiosamente revisitando o clássico mudo de F. W. Murnau. O ator Max Schreck fez uma personificação tão assustadora de um vampiro naquela época, tanto no visual quanto no comportamento, que diversas de suas cenas permanecem até hoje vivas no imaginário coletivo, mesmo sendo uma produção que agrade mais aos cinéfilos que o espectador de fim de semana. Sua imagem excêntrica e curiosa que impressionava a todos no set deu origem a lenda de que ele realmente era um mordedor de pescoços e é justamente esse o gancho trabalhado em A Sombra do Vampiro, um presente aos cinéfilos que encontram aqui subsídios para uma nostálgica, intrigante e ao mesmo tempo agradável viagem no tempo. Terror, suspense, drama, filme de arte ou de humor negro? É até difícil classificar este trabalho único e criativo. Experimental seria a palavra mais adequada. Impedido de filmar a história do Conde Drácula tal qual no romance de Stoker já que a viúva do escritor não cedeu os direitos da adaptação, Murnau (John Malkovich) fez algumas adaptações na história original, como batizar o personagem principal de Conde Orlok, e estava disposto a fazer de seu filme Nosferatu a obra mais autêntica do cinema. Para tanto ele toma uma decisão ousada e excêntrica: contrata um vampiro de verdade para ser o protagonista. A escolha também ajuda o diretor a arrancar atuações mais realistas do restante do elenco que imediatamente fica curioso e intrigado, pois ninguém conhece Schreck (Willem Dafoe) e estranham seu comportamento nos bastidores e em cena. Sempre caracterizado como o personagem, só querendo filmar a noite e apresentando certa agitação nas cenas em que há sangue mesmo de mentirinha, a explicação dada é que este intérprete tem um método rigoroso e metódico de trabalho e nem mesmo nas horas de folga deixa de viver sua criação.
Para conseguir que esta sinistra figura convivesse entre os simples mortais sem causar problemas, foi fechado um acordo. Murnau lhe ofereceu o pescoço da mocinha da fita, Greta Schröder (Catherine McCormack), mas a recompensa viria apenas quando as filmagens fossem concluídas. Porém, conforme o tempo passa fica insustentável segurar os instintos de Schreck, mesmo sob pressão, e as coisas complicam quando, após filmá-lo, o diretor de fotografia Wolfgang Müller (Ronan Vilbert) adoece e existe a desconfiança de que o ator estaria envolvido no caso. Para alguns este enredo pode ganhar tons de sátira, mas na prática ele é bem diferente, mas não chega a ser terror. Conhecendo os fatos reais que originaram esta história, não fica difícil para o espectador se entregar ao espírito do filme. O desenvolvimento da idéia fascinante de imaginar o que poderia ter acontecido durante a sinistra produção ficou a cargo do roteirista Steve Katz que já havia visitado o mundo vampiresco colaborando no roteiro de Entrevista com o Vampiro. Trabalhar com a metalinguagem, no caso um filme dentro de outro, não é uma tarefa fácil, assim como também é difícil se equilibrar entre o suspense e o humor, tomando o cuidado de não transformar a obra em um terror ou num pastelão. As piadas contidas aqui são involuntárias, é como se o espectador esboçasse um sorriso para disfarçar o próprio medo, principalmente porque o roteiro enfatiza bastante a estranheza do protagonista, algo que não representa fidedignamente os fatos reais. Coube ao excelente Dafoe viver tal figura sob uma caprichada maquiagem que acentuava o aspecto estranho e bizarro do Schreck original. Não é a toa que concorreu a alguns prêmios como Melhor Ator Coadjuvante, inclusive o Oscar, embora ele seja a grande atração do longa. É curioso, mas o Conde Orlok dos anos 20 desconhecemos o rosto de seu intérprete, porém, não encontramos vestígios de Dafoe em sua criação, um trabalho excepcional de caracterização e construção de personagem. Deveríamos ter medo ou ódio desta criatura, mas podemos sentir até mesmo pena como na cena em que tece comentários tristes a respeito de sua condição de viver eternamente e dependente do sacrifício dos outros. Certos momentos revelam também seu lado inocente como uma criança deslumbrada com os equipamentos utilizados para as filmagens. Sua ingenuidade fica ainda mais latente ao vermos que ele não percebe que está sendo enrolado pelo diretor da fita obcecado em fazer o projeto mais realista possível. Dessa forma, o Murnau de Malkovich mostra-se ainda mais monstruoso que sua própria descoberta, pois coloca toda a sua equipe em risco em nome de seu reconhecimento como profissional. Sua obsessão pelo perfeccionismo é além do permitido e certamente não corresponde a personalidade de um cineasta que praticamente virou um mito e que conseguiu fazer vários outros projetos após esta louca empreitada. Muitos podem condenar os exageros na construção dos protagonistas, mas neste caso o excesso é benéfico e faz parte do show.
Entre cenas de bastidores e das filmagens do longa, inclusive algumas recriações de sequências do Nosferatu original, o clima de suspense fica no ar graças ao trabalho apurado das equipes técnicas que capricharam nos cenários, edição e principalmente na iluminação e fotografia, áreas que proporcionaram uma coloração em tons sépia para as cenas, o que confere um aura nostálgica irresistível e de quebra demonstrar às novas gerações que não é preciso ter em cena litros de sangue jorrando ou corpos esquartejados para causar a sensação de medo. Do início ao fim é possível sentir algum tipo de calafrio, mas não chega ao ponto de causar pesadelos a noite. Talvez esse seja o motivo do longa ter se tornado sucesso em um nicho de público específico. Os cinéfilos se divertem desbravando os mistérios acerca da famosa produção dos primórdios do cinema caçando referências sutis ao clássico e a própria época. Para quem desconhece a “lenda cinematográfica” e se irrita facilmente com produções de ritmo lento, esta não é uma opção das mais recomendadas. Mesmo assim, A Sombra do Vampiro é uma interessante produção que faz uma homenagem ao cinema e ressuscita com dignidade a imagem do vampiro que, como já dito, já apareceu tantas vezes em telas grandes que certamente tem sua parcela de colaboração para a história da sétima arte. Em uma época em que os vampiros caminham livremente pela luz do dia, lutam contra lobos e se entregam a paixões avassaladoras por humanos, é bom relembrar as raízes desses enigmáticos personagens em um trabalho que, guardada as devidas proporções, homenageia uma época em que o cinema era feito por curiosos e apaixonados por essa arte e não apenas visando lucros. Lembranças que ficaram no passado, mas que de tempos em tempos são recriadas por alguns poucos entusiastas. Curiosidade: se você achou esta obra talhada para fanáticos por cinema alternativo, saiba que o produtor é ninguém menos que Nicolas Cage, o rei dos filmes-pipoca, atualmente mais conhecido como rei dos filmes-fracassos.
Suspense - 92 min - 2000 - Dê sua opinião abaixo.

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