terça-feira, 8 de maio de 2012

CHÁ COM MUSSOLINI

NOTA 8,5

A partir de memórias do
diretor e registros de
época, longa traz uma nova
visão da Segunda Guerra
Alguns filmes chamam a atenção por seus títulos que expressam suavidade e doçura, o tipo de programa perfeito para assistir com toda a família, porém, muitos deles enganam como é o caso de Chá com Mussolini, uma obra agridoce do famoso cineasta italiano Franco Zeffirelli que retornava ao cinema após um hiato de vários anos. O filme traz um belo e contundente retrato da Florença, na Itália, durante as décadas de 1930 e 1940 através de um roteiro baseado em recordações do próprio diretor, memórias mais especificamente de sua infância e adolescência, aliadas as experiências que ele acumulou dirigindo diversos épicos para cinema e teatro. A ligação entre tais lembranças e os fatos históricos acerca do ápice do fascismo é manifestada na figura de Luca Innocenti, vivido por Charlie Lucas na infância e por Baird Wallace na adolescência, um garoto concebido por uma relação extraconjugal de seu pai, este que não o assumiu oficialmente. Ele luta por sua sobrevivência e para achar uma forma de desenvolver seus dotes para as artes, o que chama a atenção das “Scorpioni”, como é conhecido um grupo de senhoras inglesas que resolveu se mudar para as terras italianas e são famosas pelo humor ácido, inclusive para alfinetar umas as outras. A secretária Mary (Joan Plowright), que adota o menino, a pintora Arabella (Judi Dench) e a viúva Lady Hester (Maggie Smith) ganham a companhia das americanas Elsa (Cher), uma colecionadora de arte e que adora namorar homens bem mais jovens, e de Georgie (Lily Tomlin), uma arqueóloga lésbica. Elas passam o tempo debatendo sobre a situação política do país em plena Era Mussolini e se sentem protegidas pelo político. Benito Mussolini (Claudio Spadaro) aceitou um convite para um chá com as damas que estavam apreensivas com os avanços fascistas e foram pedir proteção a ele já que italianos e ingleses estavam em lados opostos do conflito, porém, não cumpriu a promessa. Anos mais tarde, com o estouro da Segunda Guerra Mundial, elas são levadas à força para um confinamento no interior quando a Itália declara guerra à Inglaterra e assim o mundo de belezas e riquezas em que viviam desmorona. É neste momento que Luca, já crescido, tem a chance de agradecer a tudo que as senhoras fizeram por ele engajando na luta contra o fascismo.
Em meio a este conturbado cenário Zeffirelli encontrou o palco perfeito para fazer o filme dos seus sonhos, um projeto que estava em banho-maria há décadas. Ele rascunhou uma história nestes moldes no início da década de 1950 focando a rivalidade entre as senhoras inglesas e americanas que habitavam Florença naquela época, um fato verídico. Além deste conflito, já existia também a idéia de trabalhar com o viés do garoto rejeitado pelo pai buscando seu espaço no mundo castigado pela guerra. Todavia, o projeto não foi adiante sem explicações plausíveis. A vontade foi retomada no final dos anos 80 quando o próprio cineasta escreveu sua biografia. Nas primeiras páginas estavam contidas um excelente material para um filme e de forma resumida as memórias de sua juventude. O garoto Luca do filme na realidade é a representação do próprio Zeffirelli, o seu alter ego. Ele também era filho ilegítimo, foi ajudado por senhoras bondosas e amantes da arte e sofreu as conseqüências de uma guerra da qual a maioria nem sabia o motivo de sua existência. Com o filme o diretor não tinha pretensões de alcançar sucesso mundial, o que de fato não aconteceu, mas sim homenagear suas tutoras e, principalmente, levar um pouco da própria História italiana para os italianos. Mussolini tinha um grande poder de persuasão que seduzia a maior parte do povo que aceitava suas decisões sem questionar ou ao menos compreender. As senhoras retratadas no filme são a prova disso. Levavam uma vida confortável, respiravam a arte o quanto podiam e se sentiam seguras acreditando na palavra de uma pessoa tida como confiável e respeitável. Enfim, por trás do verniz de produção romântica e bobinha, o longa na realidade é mais um registro histórico sobre um período triste pelo qual a humanidade passou, lembrando que cada país vivenciou a época da Segunda Guerra Mundial de uma maneira distinta. Aqui temos mais uma visão específica do conflito.
O roteiro é do inglês John Mortimer que aproveitou o material cedido por Zeffirelli, mas retirou o episódio que dá título ao filme de um livro de memórias da intelectual inglesa Violet Trefusis. Tal cena serve como metáfora para o mundo ilusório do qual os ingleses pareciam pertencer totalmente alheios às relações estremecidas entre Inglaterra e Itália. Enquanto no campo político um conflito estava sendo fomentado, no social as pessoas viviam como se nada acontecesse, então qual o problema de apreciar um chá em um espaço repleto de arte, dois dos grandes prazeres dos ingleses? Com tal pano de fundo histórico, o enredo mistura realidade, ficção, drama, romance e humor, um texto primoroso e perfeito para que suas intérpretes brilhem. Elas são veteranas do cinema, quase todas com uma estatueta do Oscar em casa e cada uma tem seu momento de mostrar seu talento. O grupo das senhoras parece bem entrosado, mas é claro que chama a atenção a presença da cantora e atriz Cher, uma figura rara de se ver atuando, mesmo em seus tempos áureos na função nos anos 80. Para quem está acostumado com a imagem exuberante e exagerada que geralmente exibe em público, deve se surpreender com a sua interpretação contida, embora seu figurino chamativo, porém, com classe, colabore para que ela se destaque. Bem, não é só a imagem de Cher que chama atenção. Acostumado e apreciador de filmes no melhor estilo clássico ou épico, Zeffirelli contou com o capricho de sua equipe de apoio para construir cenários belíssimos e riquíssimos de detalhes, assim como os figurinos. A iluminação e a fotografia ressaltam o luxo e o bom gosto. Parece que cada cena foi minuciosamente estudada para dar às imagens um aspecto de foto antiga ou até mesmo de pintura. Se os protagonistas exaltam a arte nada melhor que toda a obra deixar transparecer essa atmosfera.  Chá com Mussolini é vendido por sua distribuidora como uma comédia, embora seja bem mais puxado para o drama, mas é uma obra difícil de classificar. Filme de arte seria sua melhor denominação e como tal é um presente para cinéfilos e amantes de História que encontrarão aqui um novo ponto de vista sobre a Segunda Guerra Mundial. Todavia, também um excelente programa para o público feminino que deve apreciar as roupas e objetos decorativos. Você é homem e se interessou? Não se sinta envergonhado, afinal a arte é universal. Ou pelo menos deveria ser.
Drama - 117 min - 1999 - Dê sua opinião abaixo.

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