terça-feira, 5 de junho de 2012

JOHNNY E JUNE

NOTA 10,0

Cinebiografia de casal de
cantores famosos dosa bem
a exploração de suas vidas
dentro e fora dos palcos
Um jovem que sonha em viver da sua música, se desliga da família e de sua região rural rumo a solidão e ao corre-corre da cidade grande, passa a ganhar alguns trocados fazendo uns bicos até que o sucesso bate em sua porta trazendo fama, dinheiro, mulheres, mas também tristezas e vícios. Esta é a história de vida que muitos cantores escrevem, que o diga os calouros de nossos programas de auditório que surgem do nada, experimentam o sucesso repentino e logo caem nas armadilhas das drogas, bebidas e do consumo desmedido chegando até um fatídico fim. Felizmente algumas personalidades conseguem fugir desta triste trajetória, com muita força de vontade e a ajuda de um ombro amigo. Já diz o ditado que por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher e é isso que nos mostra Johnny e June, a cinebiografia dos músicos Johnny Cash e June Carter que formaram uma dupla que marcou a música americana, principalmente o estilo country entre os anos 60 e 70, mas cujas carreiras seguiram caminhos sinuosos antes do definitivo encontro entre o amor e a música que os ligava. Baseado em dois livros de autoria do próprio Cash, "Man in Black" e "Cash: The Autobiography", o longa não traz inovações, é um tanto convencional, mas as interpretações vivas e sinceras de Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon nos papéis-título compensam qualquer falta de ousadia, ou melhor, só o fato de ambos evitarem a dublagem e encararem o desafio de regravar as canções que compõe a trilha sonora já é o bastante para que o filme seja lembrado com destaque. A idéia era manter o foco na vida do cantor que ficou conhecido como “O Homem de Preto”, devido a seus trajes de trabalho sempre escuros, e isso fica evidente pelos primeiros minutos do filme que enfocam sua vida desde a infância sob os cuidados do severo pai Ray (Robert Patrick) até sua complicada juventude quando precisou aceitar qualquer trabalho para sustentar a família que formou com Vivian (Ginnifer Goodwin). Apesar da dedicação aos filhos e à esposa, o rapaz nunca foi um marido fiel, assim ele caiu de amores quando conheceu June durante uma apresentação. Não ficamos conhecendo em detalhes o passado da moça, apenas que ela já tinha uma má reputação devido a seus vários relacionamentos amorosos fracassados, porém, a personagem era tão importante na vida do Cash da vida real que foi impossível mantê-la como uma coadjuvante na ficção e assim ela teve sua participação ampliada e em várias partes do mundo passou a ter destaque na campanha de divulgação do longa. O título original “Walk the Line” é o nome de uma das famosas canções do músico e cria uma ironia afinal andar na linha nunca foi do feitio de Cash. Já no Brasil, por exemplo, optou-se por destacar o casal, inclusive mudando a arte do material publicitário, provando que sem o papel feminino não haveria história. A idéia funciona, ainda vende perfeitamente o filme, mas também pode induzir o espectador a confundir com uma comédia romântica bem água com açúcar. De qualquer forma é um drama relativamente leve.

Voltando ao enredo, Cash era um bom chefe de família, mas devido a sua desilusão profissional ele se entregava a uma vida desregrada e boêmia. As coisas pioram após sua aproximação de June. Os dois passam a cantar juntos e a fazer muito sucesso, mas a jovem deixa claro que não quer se envolver amorosamente com ele, o que o deixa ainda mais perturbado e propício aos vícios, ainda mais porque ele sofre a pressão do ciúme da esposa e o relacionamento difícil com seu pai. Enquanto isso, June tenta reconstruir sua vida com casamentos que sempre fracassam, mas sem abandonar o companheiro de palcos, isso até que ela perde a paciência e decide virar as costas de vez. Assim, o cantor mergulha na depressão, perde a família e o dinheiro que juntou, porém, não desiste do seu amor pela cantora e tenta reconstruir sua vida para poder reconquistá-la. Em aproximadamente duas horas são condensados de forma cronológica os principais momentos da vida destes dois artistas da música, tanto fora quanto dentro dos palcos, mas é curioso observar que somente a vida pessoal de Cash é esmiuçada em detalhes enquanto a de June é contada através de passagens que a ligam ao músico, reforçando a idéia de que ele era o principal centro das atenções do roteiro assinado por Gill Dennis e também pelo diretor James Mangold, de Garota Interrompida e Kate Leopold. A história e as interpretações fluem de maneira muito agradável e crível principalmente porque quando o projeto começou a ganhar forma os homenageados estavam ainda vivos e concederam algumas entrevistas e consultorias à equipe, embora por poucos meses. O amor deles era tão forte que após a morte de June em maio de 2003 Cash só conseguiu viver por mais quatro meses. Isso prova o quanto o destino do casal estava ligado mesmo com todas as divergências. Apesar de dosar bem o profissional e o particular, muitos críticos questionam a opção de Mangold em privilegiar as passagens amorosas e dramáticas, pois consideram que a importância de Cash no cenário musical é muito maior do que foi mostrado no longa. Todavia, a produção conseguiu um equilíbrio perfeito fugindo das armadilhas do dramalhão sobressaindo a obra do homenageado, lugar comum da maior parte das cinebiografias.

A produção tem uma vibração e uma autenticidade tão fortes que é difícil para aqueles que não conheceram os músicos não imaginarem que os intérpretes são as reais reencarnações deles. A dupla se esforçou para conseguir passar o máximo de detalhes da relação conturbada que eles tiveram e como suas atitudes influenciaram negativamente na condução das carreiras musicais afinal a imprensa já naquela época deitava e rolava em cima dos problemas das celebridades. Phoenix tem naturalmente uma expressão mais séria e contida que é essencial nesta história, já que Cash era um homem tímido, apesar do temperamento explosivo, e que ao subir no palco adorava fazer o tipo rebelde. Já Reese, até então se aperfeiçoando em comédias, capta a essência e o atrevimento de sua personagem com perfeição e consegue fazer bem a transição do humor da juventude para a seriedade da maturidade, fase denunciada pela mudança de figurinos e penteados. Apesar de certo estranhamento dos atores no início das filmagens, a dupla tem uma química em cena que é raríssima e ajuda a elevar a produção do status de banal, já que muitas cinebiografias são feitas todos os anos, mas a maioria fica afundada em um limbo. Histórias sobre superação de dificuldades o mundo da música está cheio e várias delas já foram contadas no cinema e isso colabora para que dificilmente projetos futuros do tipo surpreendam, mas Johnny e June conta com predicados suficientes para lhe garantir uma longa vida útil e permanecer na memória do público. E mesmo quem nunca ouviu falar nos músicos certamente ao subir os créditos finais deverá se sentir tão íntimo deles e da atmosfera de décadas passadas que até se arrependerá de ter que voltar à atualidade, isso graças a excepcional parte técnica que nos faz um convite a regressar ao passado, como nas sequências que envolvem o primeiro encontro de Cash e June ocorrido nos bastidores de um show que reunia vários dos futuros astros da música sessentista como Elvis Presley. Aliás, para quem fica em pânico quando sabe que existem números musicais em um longa, fique tranquilo. Aqui ninguém sai do nada para cantarolar ao invés de dialogar. As canções são estrategicamente adicionadas alinhavando o roteiro e são partes importantes para compreendermos a trama que não cai na monotonia mesmo adotando uma linha narrativa linear. Apesar de ser uma história verídica, algo que o Oscar sempre adora premiar, o filme ganhou apenas o troféu de Melhor Atriz, mas merecia também o de Melhor Ator. Chance de reparar o erro talvez não tenha mais porque Phoenix resolveu pouco tempo depois desta atuação, aparentemente, abandonar a carreira de ator mesmo acumulando um elogiado currículo. Já no Globo de Ouro 2006, o longa venceu em três importantes categorias beneficiando-se por ter sido classificado como Musical/ Comédia, mesma estratégia que ajudou um ano antes o filme Ray ganhar fama. Flertando entre o drama e o romance, esta é uma linda história de amor contada com muito mais subsídios que o normal, assim tornando-se uma obra interessante e bem estruturada que curiosamente muita gente até hoje ainda não se deu ao prazer de acompanhá-la. Uma pena.

Vencedor do Oscar de atriz (Reese Witherspoon)

Drama - 135 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

Rafael W. disse...

Ótima cinebiografia, com um Joaquim Phoenix em perfeita forma!

http://cinelupinha.blogspot.com/

Artur Barz disse...

Depois de ver o filme, eu fui ouvir o Johnny Cash original, e eu devo dizer, q eu prefiro a voz do Phoenix e da Witherspoon do que a da June e do Cash...

A voz da Witherspoon é fantastica...Ela conseguiu fazer um bom vocal de country na minha opnião! A melhor atuação dela, concerteza, a melhor atuação de Phoenix tbm...

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