quinta-feira, 14 de junho de 2012

EU, MEU IRMÃO E NOSSA NAMORADA

NOTA 9,0

Steve Carell protagoniza
comédia romântica que
respeita a inteligência sem
perder o bom humor
Um dos gêneros mais procurados quando a intenção é divertir toda a família são as comédias, mas hoje em dia é muito raro encontrarmos algum título totalmente livre, ou seja, que não conte alguma cena mais forte ou constrangedora. Até entre os títulos que mesclam humor e romance as coisas andam quente demais, aliás, não é de espantar já que seus enredos são propícios para os troca-trocas de casais. Nos anos 80, Chevy Chase tornou-se símbolo de humor leve e para todas as idades principalmente ao estrelar Férias Frustradas. Jim Carrey na década seguinte ocupou o posto após estourar em O Máskara, mas seu humor nem sempre é o ideal para crianças e até mesmo para idosos. Entre as duas décadas conviveu muito bem Steve Martin interpretando os mais diversos tipos e virando sinônimo de produções no melhor estilo sessão da tarde estrelando, por exemplo, clássicos do humor como Corra Que a Polícia Vem Aí. Surge então nos anos 2000 Steve Carell, figura perfeita para ser o novo rei do riso. Mais conhecido por participar de seriados de TV e já quarentão, ele foi descoberto pelo público e por produtores tardiamente, mas seus filmes dificilmente fazem sucesso nos cinemas, mas quando lançados para locadoras e varejo eles encontram seu espaço e se tornam boas opções para reunir a família e amigos para dar boas gargalhadas. Este é o caso de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, cujo triângulo amoroso pode parecer estranho, mas funciona perfeitamente colocando no chinelo muitos intérpretes que praticamente dedicaram a carreira às comédias românticas. O enredo gira em torno de Dan Burns (Carell), um pai viúvo e escritor de uma coluna de jornal que dá conselhos familiares, mas ele mesmo tem uma vida familiar conturbada com a qual ele lida empurrando com a barriga. Ele insiste na tentativa de colocar ordem na vida de suas três jovens filhas rebeldes enquanto tenta fugir de qualquer coisa inesperada que possa acontecer, porém, as vezes algo novo pode ser muito bem-vindo . Quando viaja para a casa de veraneio de seus pais, por um acaso ele conhece no caminho em uma livraria Marie (Juliette Binoche), se apaixona imediatamente e a recíproca parece positiva também. Dan chega feliz da vida na casa de seus pais e todos desconfiam que o motivo de tanta alegria é um novo amor, que, aliás, é o motivo da tal reunião familiar. Seu irmão mais novo Mitch (Dane Cook) vai apresentar sua nova namorada que, coincidentemente, é a própria Marie. Agora, os envolvidos nesse triângulo amoroso irão conviver durante um final de semana e colocar à prova os seus sentimentos e Dan pela primeira vez ficará na dúvida se coloca a harmonia da família em primeiro lugar em detrimento de sua felicidade.

Parentes apaixonados pela mesma mulher não é novidade alguma no cinema e sabemos que o nome mais famoso do elenco é que deve sair vitorioso no final das contas, mas quando a história possui elementos chamativos em seu recheio pouco importa se sabemos como tudo irá acabar. O diretor Peter Hedges, responsável pelo elogiado roteiro de Um Grande Garoto, comprova que a mistura de romance, drama e comédia é a sua especialidade. Inicialmente a trama escrita pelo próprio cineasta em parceria com Pierce Gardner dá uma enganada no público fazendo-o pensar que esta é mais uma comédia sobre um pai solteiro tendo que se adaptar a vida moderninha e aos costumes de suas filhas adolescentes. Ok, não deixa de ser também, mas o foco é voltado a uma dúvida muito comum: vale a pena abrir mão da própria felicidade para não acabar com a felicidade de uma ou mais pessoas? Equilibrando-se entre a comédia e o drama leve, Carell se sai muito bem na pele de um quarentão conformado com sua vida pacata, mas que deseja mudar isso a partir do momento que sente seu coração bater mais forte pela personagem de Juliette que surpreende no campo do humor, já que sua imagem está muito atrelada aos dramas e longas independentes. Cook ocupa o último vértice deste triângulo amoroso fazendo as vezes do imaturo da relação. Olhando por esse lado, até que seu jeito caricato e exagerado de atuar se encaixa à narrativa, mas ele repete o mesmo papel em outras produções do gênero e isso depõe contra sua carreira, tanto é que após um ano em que emplacou três filmes, contando com este, ele simplesmente sumiu da mídia. No confronto, obviamente é Carell quem se sai melhor por atuar com naturalidade e usar adequadamente as expressões faciais e corporais para causar humor. O ator está impagável, por exemplo, na cena em que Marie lhe serve panquecas queimadas pela manhã após ele se divertir na noite anterior com uma candidata a namorada, uma participação especial da atriz Emily Blunt que ainda aguarda uma boa oportunidade de trabalho desde O Diabo Veste Prada. Embora rápida, sua participação nesta trama é muito importante, afinal ciúmes é um dos ingredientes básicos de qualquer história romântica levada ao cinema.
A familiaridade do enredo e seu poder de identificação junto ao público se deve muito ao fato dos roteiristas terem se inspirado em situações que vivenciaram com seus próprios parentes para criar uma comédia leve, divertida e bem acima da média. É justamente em sua simplicidade que está o segredo de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada que se revela uma grande surpresa a quem lhe der um voto de confiança. As opções de publicidade e o próprio título nacional induzem os espectadores a acreditar que acompanharão a mais um filme de humor pastelão, mas aqui fica confirmado que para causar risos não precisamos de palavrões, gente sem roupa, piadas de duplo sentido e outros elementos que insultam nossa inteligência, além de atestar que os clichês quando bem utilizados valem a pena. Adolescentes podem se decepcionar com a falta de libido do enredo, talvez se identifiquem com o irmão garanhão, podem até achar legal o quarentão, mas certamente irão se perguntar o que há de tão atraente na mocinha da fita para haver uma disputa pelo seu amor. Ela não tem uma beleza estonteante, tampouco um corpo esculpido em academia ou moldado em silicone, mas é carinhosa, tem uma fala doce e mansa, inteligente, enfim, o tipo ideal para se apresentar a família. Não é a toa que o namorador Mitch se decidiu por ela para finalmente sossegar da vida de curtição. No conjunto, esta comédia é um ótimo exemplo de um novo subgênero que tem ganhado força nos últimos anos. Parece que o pessoal que escreve, dirige e produz finalmente abriu os olhos e passou a enxergar que existe uma demanda adulta que deseja gargalhar com produtos de qualidade e não qualquer pastiche. Carell é sem dúvida o grande expoente dessa vertente e a cada novo trabalho demonstra amadurecimento e respeito aos seus fãs. Muitos comediantes americanos que já não são mais garotões deveriam fazer um curso intensivo com ele, que o diga Adam Sandler que se esforça, mas ainda não convence que cresceu mentalmente.

Comédia Romântica - 98 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.

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