terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

LISBELA E O PRISIONEIRO

NOTA 9,0

Comédia reúne elementos
típicos da TV, do teatro e
do cinema americano para
um conto brasileiríssimo
Há quem detesta e condena a idéia de que o cinema nacional para fazer sucesso precisa ter sua imagem atrelada à televisão ou no mínimo alguns elementos de fácil identificação pelas platéias populares, o que nos remete automaticamente ao bom e velho televisor. Essa visão do mercado cinematográfico ainda continua, embora algumas produções longe desse modelo atinjam relativo sucesso, mas é no início da primeira década do século 21 que essa idéia criou raízes, muito graças ao empenho do cineasta Guel Arraes, um experiente diretor que fez e ainda faz diversos humorísticos e projetos especiais para a Rede Globo. Ele criou em 1999 e em 2000 duas microsséries para a emissora que pouco mais de um ano após suas exibições foram compiladas para se tornarem alguns dos maiores sucessos da história recente do nosso cinema. Após a boa aceitação dos longas O Auto da Compadecida e Caramuru – A Invenção do Brasil (tudo bem, este segundo não fez tanto barulho quanto o anterior), Arraes decidiu se manter em solo nordestino e emplacou mais uma grande história em uma pequena cidade do interior, mas desta vez um trabalho desenvolvido inteiramente com o foco de chegar primeiro às telas grandes. Lisbela e o Prisioneiro traz uma divertida narrativa que de certa forma faz uma homenagem ao cinema de antigamente, com direito a um toque especial narrativo, e ao mesmo tempo uma leve crítica ao modelo hollywoodiano de produção de filmes. O resultado é uma obra divertida, muito interessante e que evidenciou o quanto é importante o trabalho das equipes de fotografia e edição. Esses dois elementos colaboram e muito para dar o tom satírico dessa produção desde a primeira cena na qual a protagonista narra como é a estrutura clássica de um filme ao mesmo tempo em que seu discurso já interage com as imagens intertextuais presentes a partir dos créditos do elenco. De quebra, a trilha sonora escolhida a dedo e interpretada por grandes nomes da nossa música ajuda o espectador a compreender a personalidade de cada peça do enredo, evidenciando assim o espírito leve e sapeca do protagonista, o romantismo da sonhadora mocinha e o caráter duvidoso do vilão que não sente vergonha de acender uma vela e fazer uma oração para cada alma que manda para o céu ou para o inferno, como se buscasse o perdão pelos seus atos. 

O filme começa nos apresentando à Lisbela (Débora Falabella), uma moça que adora ir ao cinema e vive sonhando com os galãs de Hollywood e com as belas histórias de amor que vê nos filmes, as quais ela sabe direitinho a receita para dar certo e nunca se cansa. Leléu (Selton Mello) é um malandro que vende elixires ditos milagrosos e por onde passa deixa donzelas suspirando e seus homens desconfiados que foram traídos. Em meio a uma de suas muitas aventuras, o rapaz conhece Lisbela e ambos se apaixonam perdidamente, mas a moça é noiva de Douglas (Bruno Garcia), um rapaz metido a galã que insiste em exibir um sotaque carioca exagerado, mas que é um tanto covarde. Irritado por ter sido preterido por um zé ninguém, o noivo procura a ajuda de Frederico Evandro (Marco Nanini), um matador de aluguel, sem saber que ele já está atrás de Leléu, pois o safado também se envolveu com sua esposa Inaura (Virginia Cavendish). Agora, para o casal protagonista ter um final feliz assim como nos filmes que Lisbela tanto aprecia, a mocinha e o mocinho terão de enfrentar diversos obstáculos. A partir daí, um desfile de personagens engraçados toma conta do roteiro e trata de segurar a atenção do espectador com tramas que se intercalam e culminam em um original barraco armado dentro de uma delegacia (aqui a edição brilha). Alguns atores parecem que nasceram para viver papéis de nordestinos, estão muito naturais nesse habitat, como Nanini, mas outros carregam no sotaque e nos gestos propositalmente para causar risos. O elenco principal já tem seu trabalho reconhecido, muito por causa da TV, mas vale destacar também os coadjuvantes, em desempenhos tão bons quanto os astros do primeiro time. Tadeu Mello e Lívia Falcão são responsáveis por sequências engraçadíssimas vivendo um romance tumultuado e sempre interrompido pela poderosa voz e a cara de pau de André Mattos, o chefe do rapaz e pai da protagonista, um homem que faz o possível para manter as tradições e os bons costumes em sua casa e no trabalho na delegacia da cidade.

Grande parte do sucesso desta comédia se deve muito ao seu elenco de peso e nome do diretor por trás, responsável por obras cults da TV, mas o texto conhecido também ajudou na divulgação. Na década de 1990, a obra de Osman Lins foi adaptada para um especial da Globo e depois ganhou uma versão teatral que rodou todo o país. Aliás, o diretor da peça era o próprio Arraes que conseguiu captar as reações da platéia ao vivo e assim construir seu futuro filme de forma mais enxuta e funcional, cortando exageros. Realmente, não querendo procurar pêlo em ovo, a adaptação cinematográfica parece mesmo lapidada com muito cuidado para que tudo tivesse alguma função. Como se diz na gíria, a obra ficou redondinha e com fôlego não só para conquistar o povão, mas também platéias que procuram selecionar o que assistem. É uma pena que ainda existam pessoas com preconceito com o cinema nacional e continuem resistindo a dar uma chance para este filme, uma produção caprichada no visual, com elenco afiado e que alia bem o humor popular com o apelo que a elite tanto busca para fazer um charme e poder dizer que é inteligente. Para alguns faz diferença encher a boca para dizer que assistiu uma obra escrita por Arraes em parceria com o ator Pedro Cardoso e o cineasta Jorge Furtado, com produção de Paula Lavigne e canções nas vozes de Caetano Veloso, Elza Soares e Zé Ramalho. Tudo bem, embora seja uma forma elitizada de ver as coisas, é um caminho para aproximar o público das classes A e B de um cinema que não apreciavam, mas que na realidade nada mais é mais que a estética televisiva do diretor (no caso muito inovadora e virtuosa) transportada para as telas grandes. Com um visual bem colorido e chamativo, trilha sonora com interessantes arranjos musicais e uma grande mistura de ritmos, entre eles forró, metal e canções americanas antigas, Lisbela e o Prisioneiro é um produto que guarda em cada detalhe o DNA brasileiro misturado a bagagem cultural que adquirimos dos produtos oriundos da indústria do entretenimento dos EUA. É quase impossível alguém que já o viu uma vez não ficar tentado a assistir de novo para conseguir absorver todo o conteúdo e referências deste grande filme nacional. O final é previsível, mas, como a mocinha do longa diz, não importa saber o que acontece no fim, a graça é saber como e quando as coisas acontecem.

Comédia - 110 min - 2003 

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2 comentários:

Ana disse...

Oi, Guilherme!
Assisti Lisbela e o Prisioneiro há bastante tempo, logo que saiu em DVD. Lembro que gostei do muito filme, especialmente por destacar o Nordeste(e eu sou dessa região), então me senti bastante familiarizada com os costumes e com humor , muito cômico, sem dúvida.
Porém O Auto da Compadecida me interessou mais. ;)

renatocinema disse...

Era estagiário da Revista de Cinema quando o filme foi lançado. Fui ao evento de lançamento do longa e me encantei com a visão de Selton Mello sobre o cinema e a cultura de uma forma geral.

O filme em si é divertido e muito engraçado. Além de como você mesmo disse fazer uma bela crítica ao padrão americano de fazer cinema.

Uma ótima escolha.

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