terça-feira, 20 de março de 2012

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO

NOTA 8,5

Busca pela mãe e o contato
com um mundo novo são
os temas de saga de um
personagem diferente
Existem cineastas que preferem seguir uma linha de trabalho metódica e evitam explorar diversos gêneros do cinema, mas alguns conseguem manter algumas características de sua filmografia independente de estar trabalhando com drama, humor ou suspense. O diretor Neil Jordan é um exemplo que se encaixa nessa definição. Dono de um currículo bem diversificado, suas obras tem em comum o apreço por personagens excêntricos ou marginalizados pela sociedade. Com essa fórmula conseguiu fazer fortuna com Entrevista Com o Vampiro, obra que tenta humanizar e dramatizar um pouco o cotidiano de um ser condenado ou presenteado com a vida eterna, e também ela é um dos alicerces de A Premonição, trabalho irregular do diretor que tenta explicar a mente e as atitudes de um psicopata usando o manjado truque dos problemas enraizados na infância. Embora ele tenha trabalhos muito famosos datados da década de 1980, sem dúvida seu ápice profissional foi na década seguinte com o lançamento de Traídos Pelo Desejo, um trabalho muito respeitado pela crítica e que trazia como um dos personagens principais um travesti. O homossexualismo é novamente a fonte de inspiração do cineasta em Café da Manhã em Plutão, projeto repleto de bons atores em pequenas participações e uma parte técnica e artística de primeira, porém, desta vez as premiações e críticos não foram muito generosos com o diretor. O filme praticamente passou em brancas nuvens em quase todo o mundo, mas merece um voto de confiança. Baseado em um livro de Patrick McCabe, aqui a figura escolhida para protagonizar a trama é um jovem travesti em busca de suas raízes durante a década de 1970, momento em que liberação e repressão se fundiam em um mundo conturbado, ou seja, um cenário não muito diferente do que o mundo é hoje. Em 1997, Jordan já havia adaptado outro livro do autor e conquistou o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim por Nó na Garganta.  

Praticamente toda a ação do enredo gira em torno de Patrick “Kitten” Braden (Cillian Murphy), um menino que nasceu em uma pequena cidade conservadora da Irlanda, mas nunca aceitou sua condição sexual e sempre preferiu usar roupas e acessórios femininos e se comportar como mulher. Ele pode ser fruto de um relacionamento do padre Liam (Liam Neeson) com uma mulher misteriosa, provavelmente uma empregada dele, mas foi abandonado ainda bebê e criado por Ma Braden (Ruth McCabe). Quando adulto, Patrick assume o visual feminino de vez e decide ir em busca de sua mãe verdadeira em Londres, onde encontra a liberdade necessária para viver como sempre quis. Nessa fase, o jovem acaba se envolvendo em bizarras situações e conhecendo os mais variados tipos de pessoas como motociclistas, um mágico, prostitutas e até chegou a conviver com integrantes de uma banda de rock. Em suas desventuras, até em conflitos terroristas Patrick se envolve, mas mesmo assim não desiste do sonho de encontrar a mãe que o abandonou. Por se tratar de um tema polêmico, muita gente pode acreditar que esta história é contada de forma visceral e repleta de cenas constrangedoras ou sem nenhum pudor, mas na verdade Jordan surpreende com uma narrativa de certa forma bem leve, quase uma fábula, tom acentuado pelo comportamento do protagonista, por vezes parecendo um ser totalmente deslocado do mundo real, mas longe de ser uma caricatura. Murphy, que parecia fadado a viver psicopatas por causa de suas feições um tanto peculiares e ótimo desempenho em papéis desse tipo, dá um show de interpretação na pele de um ingênuo homossexual otimista até o último fio de cabelo e sua caracterização é perfeita. Ficou bem feminino e em alguns momentos, diga-se de passagem, lembra até um pouco a atriz Uma Thurman. Sem dúvidas uma interpretação digna de elogios e premiações. Bem, os prêmios já não são mais possíveis, mas as críticas positivas sim, até para reparar o erro cometido ao esnobarem esta produção na época de seu lançamento.

O filme tem como um dos vários pontos positivos não apelar para o lado sexual do protagonista, mas sim apenas sugestionar um clima erótico para focar sua vida pessoal. Nas mãos de um diretor qualquer a história corria o risco de virar um circo de horrores e apelação, mas Jordan acabou criando um interessantíssimo painel social dos anos 70 enfocando inclusive questões políticas. Bem interessante também o recurso de dividir o roteiro em vários capítulos acompanhando as várias fases de vida do personagem principal e contar com a narração em off do próprio, o que imprime um tom simples e delicado à história e ajuda a aproximar o espectador a esse mundo fictício em termos, pois há muitas verdades ao longo da trama sobre o contexto da época. O viés do órfão em busca de suas origens já é um tema batido, mas Jordan consegue reciclar o clichê lançando mão de um leque vasto de situações e personagens paralelos que conseguem por alguns instantes desviar a atenção de Patrick de seus reais objetivos. Dessa forma todo o conjunto se beneficia por não ficar dependente de um único eixo. Ao mesmo tempo em que procura a mãe, o jovem também tenta explorar as diversas possibilidades que agora tem em mãos após anos de opressão em uma cidade interiorana e tradicionalista. Tudo o que passa a viver nessa nova fase agrega à sua vida, seja no aspecto intelectual ou emocional, assim os momentos de tristeza, de alegria e até mesmo de insanidade o ajudam a amadurecer e enxergar as coisas com outros olhos. A trilha sonora, recheada de sucessos de artistas famosos da época, ajuda bastante a compor a narrativa e é um presente para os nostálgicos, mas poderia ser menos intensa o que reduziria um pouco a duração do filme com o corte de algumas cenas contemplativas, um dos poucos entraves da produção. Porém, de tão leve que a trama é, embora as raízes do tema não sejam, as pouco mais de duas horas passam rapidamente. Café da Manhã em Plutão é uma obra rara daquelas que dificilmente surgem similares. Diverte, emociona, nos leva à reflexão e agrega muito bem características do cinema comercial com o alternativo, uma tarefa difícil até para o mais genial dos cineastas. Jordan prova mais uma vez que ainda sabe fazer bons filmes. Não se entrega totalmente ao lado do clichê do roteiro, mas também procura não chocar o espectador com o mundo libertino que comumente ligamos aos homossexuais. Simplesmente ele se dispôs a contar a história de um ser humano comum com seus sonhos, anseios e dúvidas em busca de um objetivo na vida. O que o difere dos outros? Talvez seu caráter mil vezes melhor que muitas pessoas que se consideram normais.

Drama - 135 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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