sexta-feira, 13 de abril de 2012

A HORA DO ESPANTO (1985)

NOTA 9,0

Filme deu sobrevida aos
vampiros no cinema e o
passar dos anos ajudou a
acentuar o clima de terror
O gênero de terror raramente é visto com bons olhos pelos críticos, mas alguns filmes do tipo acabam alcançando certo respeito com o passar dos anos e para o público que curte permanecem na memória como uma agradável lembrança de uma época. Quem já era uma criança crescidinha ou adolescente na década de 1980 certamente se divertiu a beça com as produções de arrepiar que fizeram fama e fortuna. O boom desse tipo de produção outrora se deve muito a rápida aceitação que as fitas VHS tiveram no mundo todo. Se nos cinemas apenas os maiores de idade podiam curtir um terrorzinho, com as videolocadoras as coisas ficaram mais fáceis. Antigamente esse comércio era basicamente composto por lojas pequenas de bairro, o que facilitava a relação entre cliente e atendente e o que antes era proibido em tela grande tinha boas chances de qualquer guri levar para casa. Não é uma prática correta, mas era um caso bastante comum. Entre os filmes que bombaram na época está A Hora do Espanto, longa que redefiniu a imagem do vampiro que já estava desgastada e ainda ajudou a popularizar as produções com títulos iniciados com “a hora...”. O cardápio é bastante extenso e repleto de filmes trash, além de várias continuações inferiores à própria matriz, mas a obra escrita e dirigida por Tom Holland conseguiu se destacar justamente por causar impacto muito mais por sugestionar o medo do que escancará-lo por completo. Ok, a conclusão já investe mais em sangue e sustos previsíveis, mas de qualquer forma tornou-se o primeiro produto de terror diferenciado a peitar a concorrência dos seriais killers Freddy Krueger, Michael Myers, Jason Voorhees e companhia. Para muitos essas produções hoje em dia podem ser tolas e desprezíveis, mas é inegável que elas tiveram sua importância na história do cinema e felizmente ainda há público novo querendo experimentar o gostinho do horror de antigamente. Pois é justamente sobre experiências que a maior parte dos clássicos juvenis dos anos 80 tratava. Os medos, sonhos, alegrias e tristezas dos adolescentes foram personificados no cinema sempre colocando jovens no centro das histórias que geralmente mesclavam realidade e fantasia. O cotidiano dos teens estava sempre presente adornado por referências da época como neste caso em que Charley Webster (William Ragsdale) tem como programa predileto aquele que também era a primeira opção de nove a cada dez adolescentes da época: assistir um bom filme de terror tarde da noite.

Webster se divertia na companhia da namorada Amy (Amanda Bearse) com os filmes de horror apresentados na TV por Peter Vicent (Roddy McDowall), mas não esperava que sua própria vida se transformasse em um conto de arrepiar. Quando novos e estranhos vizinhos ocupam a casa ao lado ele passa a vigiá-los, pois desconfia de certas atitudes suspeitas e tem certeza de que eles são vampiros. Ninguém acredita nessa história, mas o rapaz insiste e pede ajuda para Vicent, que na realidade engana seu público, pois é covarde, não acredita em monstros e só faz esse trabalho por causa do dinheiro. Sabendo que está sendo perseguido, o vampiro sedutor Jerry Dandrige (Chris Sarandon) começa a cercar a vida do garoto de todas as maneiras. Como uma crença popular diz que essas criaturas só podem entrar em uma casa quando são convidados, Webster acha que está seguro, até que Judy (Dorothy Fielding), sua mãe, é seduzida e acaba permitindo a entrada do galanteador vizinho. A história parece conto de fadas para a atualidade perante o show de carnificina proposto por Jogos Mortais e derivados? Não se engane. Holland estreava na direção de forma surpreendente transformando uma idéia simplória e até certo ponto batida investindo na sonorização e ambientação da produção desde a abertura quando o uivo de um lobo faz qualquer um estremecer e automaticamente entrar no clima nostálgico e de arrepiar. As casas no melhor estilo tradicional americano de classe média, os interiores das residências repletos de detalhes e móveis datados, as referências culturais da época, enfim todas as características do período estão presentes, inclusive uma dose de apelo erótico tão comum nos filmes, mesmo aqueles destinados aos adolescentes. Completando o visual, as equipes de fotografia e iluminação capricharam nos takes noturnos e nas cenas em que o protagonista vigia o vampirão. Vivemos junto com o garoto a sensação de medo e curiosidade que se misturam nesse ato. O texto também acerta ao não enrolar o espectador. Desde a primeira cena já é possível se embriagar da atmosfera de mistério e o principal conflito da narrativa não demora a ser revelado. Ainda bem. Se o melhor da festa é esperar por ela, Holland mostra-se habilidoso servindo pequenos aperitivos que só nos deixam ainda mais curiosos para a hora de partir o bolo. O final é um pouco fantasioso, mas o clima de tensão e sedução da história compensa, inclusive por resgatar as superstições clássicas que envolvem o vampirismo tais como o mito de água benta e crucifixos para espantar as temidas criaturas da noite e que somente os golpes com estacas de madeiras podem exterminá-las. O poder de atração dos vampiros também é bem apresentado e nem o detalhe de que eles não têm reflexo no espelho passa batido. Produção minimalista e caprichada. A trama mistura também humor, algo muito característico do gênero no período, o que traz certo ar de ingenuidade que faz falta hoje em dia. Por exemplo, em meio a caça aos vampiros, Webster também está as voltas com a sua primeira vez e para que a mãe não descubra seus avanços com a namorada, algo totalmente banalizado hoje em dia filmes para os teens que só faltam oferecer seus cônjuges para os pais aprovarem na cama (epa, já tem filme por aí que de variadas maneira tocou ou explicitou tal tema).
 
A construção de um terror quase artesanal, abrindo praticamente mão de efeitos especiais e investindo em uma maquiagem de primeira na reta final, ajudaram na construção da aura de um filme impressionantemente assustador e muita gente passou mal nos cinemas e até em casa quando viram na época em fita cassete. Hoje tais reações são exageradas já que o tempo passou e outras coisas bem mais impactantes surgiram, mas mesmo assim essa publicidade extra colabora para que o título continue em evidência e aguçando novas platéias curiosas e até mesmo saudosistas. No elenco, vale destacar a presença do falecido McDowall que fez com perfeição a transição do covarde oportunista para a figura do herói. O personagem foi batizado de forma a homenagear dois grandes astros que se destacaram fazendo fitas de terror, Peter Cushing e Vicent Price. Também merece destaque Ragsdale, que certamente protagonizou muitos sonhos românticos de fãs e mexeu com o imaginário dos meninos que se imaginavam em seu lugar vivendo esta aventura vampiresca. Já Sarandon também fez um excelente trabalho e conquistou as platéias femininas, mas não conseguiu levar a carreira adiante nas décadas seguintes, principalmente por ter assumido a homossexualidade após terminar um casamento de fachada com Susan Sarandon (ele é o detentor do sobrenome famoso e dizem que o interesse na relação era da atriz que almejava se tornar conhecida). Como Hollywood vive de fases, desde o final da primeira década dos anos 2000, a indústria de cinema americana está procurando sobreviver de refilmagens e do marketing dos efeitos 3D e o longa de Holland ganhou uma versão modernizada e com os tais efeitos tridimensionais em 2011, mas foi um verdadeiro mico de repercussão. Simplesmente é mais um filme de terror que jamais terá a mesma importância que o original teve para a História do cinema. Sim, não é só E O Vento Levou, Casablanca, O Poderoso Chefão ou até mesmo Titanic que podem ser considerados clássicos. A Hora do Espanto também marcou época, trouxe inovações a um gênero e, como já dito, colaborou para a propagação do cinema doméstico. Em uma época em que para os adolescentes parece não haver limites, nada mais espanta e o amadurecimento é precoce, vale a pena resgatar a memória de um tempo em que um jovem tinha conflitos a serem resolvidos a respeito de crenças, credibilidades, responsabilidades, anseios e desejavam ser ouvidos por adultos. Talvez por isso qualquer protagonista juvenil dos anos 80 ainda pareça muito mais interessante e crível que qualquer personagem hoje vivido por Zac Efron, Taylor Lautner e afins, mesmo que o ator de outrora não esteja mais na praça. Sem dúvidas também uma excelente opção para reviver as deliciosas sessões noturnas em casa com os amigos ou sozinho mesmo com luz apagada e muita pipoca e refrigerante... E de preferência longe do computador para manter o gostinho nostálgico. Uma última curiosidade: é citado pelo personagem Vicent, em outras palavras, que os filmes com monstros clássicos já não faziam sucesso porque as plateias estavam preferindo os assassinos mascarados. Olha quanto tempo isso faz e a moda continua rendendo.

Terror - 102 min - 1985 - Dê sua opinião abaixo.

3 comentários:

Ana disse...

Oi, Guilherme :)
Qdo li a parte do post que diz que a mãe do menino deixa o vizinho entrar em casa, lembrei de um filme que assisti, e que acontecia exatamente isso. A mãe do garoto era seduzida e tudo.
Só não sei se é o mesmo filme.
O que eu vi passou na "Sessão da Tarde".
Tem até uma cena com a família na mesa... e o garoto solta uma "indireta" pro vizinho... E a mãe briga com o filho por causa disso.
É esse filme?? *.*
Bjs ;)

Rodrigo Mendes disse...

Oi Guilherme! Sou apaixonado por este filme. O segundo não fez jus, mas o primeiro é um clássico delicioso e sabe assustar. É um espanto!
Ainda não acredito que terá um remake com Colin Farrell, ainda não sei porque fundamento.

Abs. E fique ligado na próxima sessão do CR. Mais um capítulo da série mosntros da Universal. :D

Rodrigo
http://cinemarodrigo.blogspot.com/

Guilherme Z. disse...

Então Ana (e a quem interessar), eu duvido que este filme teha sido exibido na "Sessão da Tarde" porque ele é muito forte para o horário. Existem outros títulos que usaram essa história de convite para o vampiro entrar em casa, mas realmente não sei te dizer especificamente o nome do qual você se refere. "A Hora do Espanto" só deve ter sido exibido a noite. A última vez que vi na TV foi de madrugada na Globo em 2010, mas não cheguei a ver inteiro por causa do horário e aluguei o DVD para fazer este texto. Recomendadíssimo, até para podermos comparar com o remake que vem por ai.

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