quarta-feira, 11 de abril de 2012

O BANHEIRO DO PAPA

NOTA 9,0

Enredo mescla drama e
comédia com perfeição
acerca de um fato real que
mexeu com os uruguaios
Muita gente escolhe o filme que deseja assistir a partir do seu título que deveria deixar bem claro sobre o que o conteúdo da produção trata, mas nem sempre isso fica bem identificado em poucas palavras. Os longas estrangeiros costumam ter títulos curiosos e até engraçados que também nem sempre vendem bem o peixe. Temos desde expressões refinadas do tipo Como Água Para Chocolate até frases que deixam o espectador com um ponto de interrogação na cabeça como A Teta Assustada. Igualmente engraçado e atrativo, O Banheiro do Papa cai como uma luva para a história de um homem simples que viu a chance de melhorar de vida com a visita ao seu país de um dos maiores ícones da Igreja Católica do século 20. Em 1988, a cidade de Melo, na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, está agitada com a notícia de que o Papa João Paulo II em breve estará por lá. A população do local é muito carente e se empolga acreditando que a chegada do religioso abrirá as portas para um novo tempo em que a prosperidade reinará. Na expectativa de que muitas pessoas de toda a América do Sul irão até lá para ver tal santidade, os moradores se animam e começam a fazer planos para lucrar com a venda de bebidas, comidas e lembrancinhas. Beto (César Trancoso), um homem que vive de levar na sua bicicleta bugigangas e produtos de contrabando para abastecer pequenos comércios, decide inovar e cria em seu quintal o “Banheiro do Papa”, um lugar para as pessoas fazerem suas necessidades durante o evento. Para tanto, ele precisa se arriscar em viagens de trabalho, enfrentar a esposa Carmem (Virginia Mendez) e o descontentamento da filha Silvia (Virginia Ruiz). Porém, o mais difícil para concretizar a idéia é conseguir o vaso sanitário, mas este sonhador empreendedor amador fará de tudo para consegui-lo nem que seja no último minuto.

Independente de gostar ou não de filmes oriundos de países que não tem uma tradição cinematográfica, com certeza essa obra tem chances de agradar um público amplo, pois apresenta uma visão bem realista e próxima das pequenas cidades dos vários países da América do Sul partindo de um argumento bem interessante. A certa altura ficamos tão íntimos daquela gente simples e esperançosa que é tão semelhante a grande maioria da população brasileira que é perfeitamente aceitável pensar que estamos vendo um episódio ocorrido em nossa terrinha, afinal de contas o Papa João Paulo II chegou a visitar o Brasil causando comoção e certamente muitos procuraram ganhar alguma coisa em cima do evento. Não há relatos de que algum brasileiro tenha tido a idéia do banheiro, mas, como os créditos iniciais já avisam, esta história é verídica em solo uruguaio. Co-produzido entre Brasil, Uruguai e França, a narrativa basicamente é um drama, mas ao mesmo tempo carrega uma deliciosa dose de humor inocente e involuntário. Recheado de bons e marcantes momentos é impossível, por exemplo, esconder um sorriso no rosto ao ver a empolgação do pai de família ao ter uma grande idéia para lucrar com o episódio ou quando ele está ensaiando com a esposa e a filha como atender bem os fregueses de seu negócio. Enquanto elas vêem com pouco ânimo a idéia do banheiro, Beto é puro entusiasmo e luta até o último minuto para realizar seu sonho de comprar uma moto para melhorar seu trabalho e dar uma vida melhor aos familiares. Também não há como sofrer com estes personagens e os demais que fazem figuração quando a decepção se abate sobre eles. Não é surpresa o final, é até bastante previsível e hoje em dia resenhas e críticas estão espalhadas por aí revelando a conclusão, mas o sentimento de serem enganados é compartilhado pelo espectador. Sentimos juntos o balde de água fria e a tristeza daqueles que se desfizeram até mesmo de suas casas para se abastecerem de carnes, pães e tudo o mais que podiam vender para alimentar ou oferecer como lembranças aos romeiros esperados. Muitos chegaram a ir, mas a ausência do astro do evento deixou a todos cabisbaixos. A fé exagerada acabou se transformando em uma maldição que, segundo dizem, jamais chegou aos ouvidos do então Sumo Pontífice que faleceu sem saber o mal que causou sem querer obviamente.

Esta envolvente saga de populares que envolve discussões a respeito do poder do catolicismo, a sedução do dinheiro fácil, o poder da mídia e a manipulação da sociedade é contada de forma bastante agradável e todos esses pontos são abordados de forma natural, sem forçar a barra para se transformar em um estudo de sociologia ou afins. Tamanha sensibilidade para lidar com um tema que poderia se transformar em um dramalhão se deve ao talento dos diretores uruguaios Enrique Fernandez e Cesar Charlone, este radicado no Brasil e cujo trabalho passou a ser reconhecido pela elogiada fotografia de Cidade de Deus. Não é a toa que as locações escolhidas e o uso da iluminação são excepcionais realçando as características simplórias da cidade retratada. Para quem vive em regiões interioranas, a paisagem e até as situações que envolvem a solidariedade e a amizade entre vizinhos devem ser muito familiares, mais um ponto a favor para fisgar a atenção do espectador. Do início ao fim encontramos elementos que mexem com o emocional de qualquer um que não viva em um pedestal acima de tudo e todos. Basta ter um pouco de humanidade para se entregar completamente a narrativa. Ainda para os brasileiros, a famosa música da década de 1980 "O Papa é Pop" deve ser resgatada da memória imediatamente, pois este filme é uma versão cinematográfica de sua mensagem. O Banheiro do Papa é uma produção brilhante e super premiada em diversos festivais, mas que o Oscar esnobou, diga-se de passagem. Vale a pena ser conferido principalmente por todos aqueles que gostam de um cinema de qualidade e reflexivo, embora seu conteúdo seja exposto de forma tão convidativa e ingênua que qualquer um pode se entreter . Uma boa pedida também para quem acha que está no fundo do poço. A mensagem do longa é bem clara: se cair é preciso levantar e seguir em frente. Perder a esperança jamais.
Alternativos - 97 min - 2007 min - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

renatocinema disse...

Adorei esse filme. Ótima mistura de sofrimento com bom humor.

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