quinta-feira, 1 de março de 2012

MATINÉE - UMA SESSÃO MUITO LOUCA

NOTA 8,0

Comédia homenageia os
filmes trashs e o espírito
nostálgico da obra ajuda a
cativar os espectadores
Quem nunca se divertiu algum dia na vida com um filme trash, aqueles cuja produção é precária e as interpretações amadoras ou canastronas, que atire a primeira pedra. Obras do tipo, por mais que hoje possam ser criticadas, certamente marcaram a infância ou a adolescência de muitas gerações, inclusive a turminha que se divertia em casa nos tempos áureos da “Sessão da Tarde”. Aparentemente tolos, é preciso ressaltar que trabalhos do tipo tiveram seu período de importância na História da sétima arte. Durante as décadas de 1950 e 1960, a população de todo o mundo respirava um pouco mais aliviada com o fim do pesadelo que foi a Segunda Guerra Mundial, embora alguns focos conflituosos ainda existiam em diversos países e a Guerra Fria já dava sinais de vida. Mesmo assim, a época parecia propícia para mudanças e assim muita coisa foi modificada no cotidiano de milhares de pessoas e os modismos americanos se espalharam por todos os cantos do mundo, incluindo o modelo de produções representantes de um cinema escapista que visava atender aos anseios de platéias que desejavam esquecer as tristezas e se divertir sem culpa alguma, afinal de contas não se sabia se no outro dia estaria vivo. Subgênero que há décadas faz sucesso, os populares trash movies antigamente eram os responsáveis por lotar salas de exibição com adolescentes querendo se assustar, dar risadas ou simplesmente ter uma desculpa para namorar. Eram os tempos da liberação feminina e da rebeldia dos jovens e um programinha que para os adultos poderia ser considerado maldito para os adolescentes era um respiro, a maneira que encontravam para extravasar a ansiedade e matar curiosidades. Apesar de parecerem super datadas, as produções B continuam vez ou outra dando as caras, principalmente no mercado de locação, onde ganhou sobrevida nas duas últimas décadas do século 20 com a popularização das fitas VHS. Mesmo hoje em dia, ainda há filmes trash pipocando por aí protagonizados por monstros nojentos, trazendo ao público situações bizarras ou com títulos e enredos engraçados, assim perpetuando a arte de fazer cinema com poucos recursos, simplesmente por amor ao ofício ou para fazer a alegria do público. É justamente este entusiasmo que sentimos na interpretação de John Goodman em Matinée – Uma Sessão Muito Louca, uma divertida comédia com apelo nostálgico. Ele dá vida a um excêntrico cineasta que, apesar de pensar muito nos lucros, deixa transparecer em suas falas e gestos a emoção de se fazer cinema e levar entretenimento a tantas pessoas.

A trama roteirizada por Charlie Haas se passa na cidade de Key West localizada na Flórida há poucos quilômetros de Cuba. O local está passando por um momento conturbado em 1962 com a crise dos mísseis instalados pela União Soviética na ilha, o medo toma conta da pacata região e todos os habitantes temem a possibilidade de um ataque nuclear. Gene Loomis (Simon Fenton) também está preocupado, pois seu pai é oficial da Marinha e foi convocado para atuar nas ações desenvolvidas pelo governo norte-americano para evitar uma verdadeira guerra, mas isso não o impede de frequentar o cinema e se divertir por umas duas horas com os filmes do produtor Lawrence Woolsey (Goodman), famoso por seus filmes trashs. O adolescente está ansioso para a pré-estréia de "Mant, O Homem-Formiga" sobre um sujeito que durante a realização de um tratamento dentário é picado por uma formiga que foi exposta a radiação e acaba se transformando em uma criatura metade formiga e a outra parte humana. O produtor, acompanhado da atriz Ruth Corday (Cathy Moriart), vai pessoalmente à Key West para cuidar dos preparativos do evento de lançamento e prepara uma série de truques especiais para acompanhar a sessão, como a aparição de um rapaz vestido como o monstro que intitula o filme fictício, tudo com a intenção de chamar a atenção do Sr. Spector (Jesse White), dono de uma grande rede de salas de exibição que poderia se interessar por seu filme e levá-lo para outras cidade e estados, assim aumentando os lucros do produtor nas bilheterias. Porém, Gene, Dennis (Jesse lee), seu irmão mais novo, e seus amigos Stan (Omri Katz), Sherry (Kellie Martin) e Sandra (Lisa Jakub), assim como os demais espectadores, provavelmente não esperavam o que poderia vir a acontecer em uma inocente matine de cinema. Enquanto o conflito entre americanos e russos esquenta do lado de fora, dentro da sala de exibição o clima também está pegando fogo e a molecada vibra com o Homem-Formiga. E Woolsey se entusiasma vendo que finalmente conseguiu fazer sua platéia gritar e suar de medo quando mais nada parecia assustar no mundo do entretenimento perante as atrocidades que se via fora do escurinho do cinema na vida real.

Um dos pupilos de Steven Spielberg, o diretor Joe Dante, especialista em produções tipo B e responsável por produtos marcantes da década de 1980 como Grito de Horror e Gremlins, sempre gostou da união de elementos de terror e de humor e usou todo seu repertório cultural do assunto para realizar esta comédia, uma divertida homenagem a cultura de massa oriunda da metade do século passado, sua matéria-prima predileta. O personagem de Goodman é inspirado em William Castle, famoso produtor e diretor de fitas trash do passado que também usava truques para promover suas criações, como campainhas embaixo das poltronas para soarem em momentos estratégicos ou até um esqueleto atravessando a sala de projeção para provocar a histeria do público. Porém, o produtor do filme de dentro do filme não é tão anárquico, é até muito comportado, mas nada que destrua o clima de confusão no cinema. Recheado de citações a sucessos fantasiosos, o próprio longa fictício é inspirado em A Mosca da Cabeça Branca, que por sua vez foi refilmado sob o título A Mosca. Dante conseguiu neste trabalho captar com perfeição o clima e a expectativa gerada por uma simples ida ao cinema e proporcionar ao espectador uma agradável viagem no tempo que serve para conhecer uma importante vertente da História da sétima arte. Vale ressaltar também o efeito que causam as imagens com ares de produção antiga. Elas podem ter sido propositalmente criadas para dar um toque especial ao longa ou acabaram ficando assim devido a ação do tempo, mas seja qual for o motivo sem dúvidas acentua o aspecto nostálgico irresistível da obra. Opção para curtir munido de pipoca e refrigerante para entrar no clima, Matinée – Uma Sessão Muito Louca deveria ser um programa obrigatório para todos, mesmo após tantos anos de seu lançamento. Em tempos que assistir filmes para muitos se tornou um ato solitário, frio, consumista e sempre dependendo das tais velocidades de conexão da internet, vale a pena olhar para o passado e quem sabe se entusiasmar novamente a frequentar as salas de exibição ou se sentar no sofá da sala com amigos e familiares em torno da TV, ambas situações que são um excelente exercício de sociabilidade e que caíram em desuso. Tem coisas que no passado eram muito melhores. Assistir filmes é uma delas.

Comédia - 98 min - 1993 - Dê sua opinião abaixo.

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