sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

WALLACE E GROMIT - A BATALHA DOS VEGETAIS

NOTA 10,0

Com visual chamativo e retrô,
animação prende a atenção com
história divertida e inteligente,
além de personagens carismáticos
Já faz algum tempo que a animação se transformou em um dos gêneros mais rentáveis do cinema graças as técnicas avançadas de computação gráfica que permitem desenhos mais perfeitos, o que chama muito a atenção dos adultos que não usam mais as desculpas de ter que levar os filhos ao cinema ou alugar tais filmes para eles. Desenho animado virou coisa de gente grande também, tanto é que já existem até longas totalmente animados com temáticas adultas, mas ainda são as produções do tipo família que conquistam melhores resultados. Claro que além de uma excelente qualidade de imagem, também é preciso um bom roteiro para captar a atenção dos baixinhos e dos grandinhos e visando tal responsabilidade os estúdios têm caprichado nesse quesito cada vez mais. Mas será que em meio aos produtos de animação digital ainda há espaço para obras em estilo mais tradicional, como a simpática técnica do stop-motion, aquela que anima bonecos de massinhas? A resposta é sim e o estúdio inglês Aardman prova isso com Wallace e Gromit - A Batalha dos Vegetais, um trabalho com um colorido vivo, detalhista, criativo, ingênuo, divertido, enfim são muitos os adjetivos que podem ser empregados para classificar esta deliciosa animação que preserva em seu visual um irresistível tom nostálgico, mas aplica no texto conceitos que regem os modernos desenhos, como a sátira. Criados por Nick Park, os personagens principais, diga-se de passagem, extremamente carismáticos, já existiam antes do longa-metragem co-dirigido por Steve Box e protagonizaram uma série de curtas premiados, inclusive dois deles conquistaram o Oscar da categoria. Porém, antes de ganharem as telas grandes, o estúdio já havia surpreendido com o excepcional A Fuga das Galinhas que aliava com perfeição técnicas antigas e alguns retoques por computação para movimentar os personagens, um casamento perfeito que permite a produção ter vida em tempos em que muitas animações digitais naufragam justamente por parecerem trabalhos mortos, ainda que envoltos em esmerados cuidados com a parte visual, todavia, sem alma. 

A história roteirizada pelos próprios diretores em parceria com Mark Burton e Bob Baker gira em torno da dupla que dá título ao filme. Wallace é um excêntrico inventor que junto com seu fiel parceiro, o esperto cãozinho Gromit, gerencia uma empresa especializada em exterminar pragas. Em determinada época do ano eles têm muito serviço devido a um tradicional concurso de legumes gigantes que agita a cidade onde vivem. Para proteger as plantações de insetos e outros animais, cada um as protege como pode, mas para ajudar Wallace cria um equipamento que captura os bichos sem machucá-los. O grande alvo da temporada são os coelhos que parecem se multiplicar quando o evento se aproxima. A máquina consegue capturá-los, porém, outro problema surge. De um dia para o outro uma fera vegetariana aparece do nada para assombrar a todos e nenhum esquema de proteção a impede de saciar sua fome de legumes e agora a dupla de exterminadores precisa mostrar serviço e dar um jeito nesse coelhão não só para manter a honra, mas, principalmente, evitar que o arrogante Victor Quartermaine, que está de olho na fortuna de Lady Tottington, a organizadora da festa, consiga fazer isso antes e assim conquistar a confiança da moça. Apesar da aparente ingenuidade, o roteiro tem ótimas piadas e até referências a outros filmes, principalmente quando o "coelhosomem" entra em cena. Os mais atentos com certeza devem perceber as inspirações dos criadores nos filmes de monstros clássicos do cinema e sobra inclusive uma alusão ao famoso King Kong no clímax da narrativa. Até a atmosfera de tensão típica de produções de suspense ou terror é reproduzido, por exemplo, em uma cena que Gromit fica no carro sozinho e acaba tendo uma desagradável surpresa. São dos pequenos detalhes que surge o humor do enredo, aliás, grande parte da ironia está impressa na caracterização e nas personalidades dos personagens. Muito extravagantes, Lady Tottington e Victor Quartemaine, por exemplo,  respectivamente a  mocinha e o vilão, são dotados de características visuais e vocais muito peculiares e que provocam riso fácil. O exagero é proposital. Também vale destacar o excelente trabalho para a composição do esperto Gromit que mesmo sem dizer uma só palavra consegue divertir o espectador se expressando através de olhares, gestos e expressões faciais, conseguindo até mesmo demonstrar mais inteligência que seu amigo Wallace, um sujeito Franzino e pacato que apesar de criativo é um tanto atrapalhado e avoado. Foi preciso criatividade e árduo trabalho da equipe de animadores para dar vida ao simpático cachorrinho, mas o objetivo foi concretizado com perfeição, inclusive sendo compreensíveis até mesmo seus pensamentos.

Com os prêmios garantidos com os curtas e a credibilidade que a aventura no galinheiro rendeu, já era hora dos personagens Wallace e Gromit, muito famosos em terras britânicas, ganharem seu próprio longa metragem.  O grande desafio de todo o pessoal envolvido nesta produção na realidade era criar algo que agradasse adultos e crianças sem ser muito infantilizado e tampouco incompreensível para os baixinhos. Em tempos em que as animações digitais já eram supervalorizadas e arrecadavam verdadeiras fortunas nas bilheterias (isso porque o 3D ainda não estava na jogada de forma pesada), não se podia brincar em serviço. O resultado final sem dúvida satisfaz a todas as idades com um apuro invejável em termos de narrativa e visual. Até mesmo os coelhos que são capturados pelos protagonistas e que também não falam nada, são praticamente figurantes, parecem ter tido um cuidado todo especial da equipe na hora de ganharem vida dando realmente a impressão de serem seres endiabrados que tiram o sono dos zelosos fazendeiros amadores que deixam latente que o importante para eles não é competir na tal feira de vegetais, mas sim sagrarem-se vencedores para massagearem seus egos, uma alfinetada do texto ao comportamento humano que vem a calhar. É uma pena que as bilheterias não corresponderam às expectativas. O uso de um estilo retrô de fazer animação tão elogiado neste texto sem dúvida ajudou a dar um identidade, uma cara própria a este trabalho e fugir da mesmice, mas por outro lado pode ter passado uma ideia equivocada ao público de que esta era uma obra que exclusivamente agradaria as platéias mais jovens e ingênuas. Quem já conhecia o histórico da Aardman, por sua vez, aguardava ansioso por Wallace e Gromit – A Batalha dos Vegetais, mais uma prova de que uma boa ideia é essencial para se fazer um bom filme e que nem sempre a tecnologia de ponta é necessária para se atingir bons resultados, claro que romanticamente falando deixando a busca por lucros de lado. Aliás, como os criadores dos personagens são avessos ao consumismo exagerado e se negam a ter seus trabalhos vinculados a tal imagem, uma continuação nunca existiu, apenas alguns curtas foram lançados em forma de coletânea para locadoras e venda direta ao consumidor posteriormente. São maneiras européias de pensar sobre o cinema, bem diferentes ao sistema hollywoodiano, mas totalmente válidas. Com cara de animação feita para canais educativos e com um humor britânico afiadíssimo, esta é uma excelente opção para toda a família com uma excepcional mistura de nostalgia e modernidade reconhecida até pela Academia de Cinema que se rendeu ao seu irresistível charme.

Vencedor do Oscar de filme de animação

Animação - 84 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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