terça-feira, 18 de setembro de 2012

ANTES DO ANOITECER

NOTA 8,5

Cinebiografia de poeta cubano
que sofreu com autoritarismo do
governo de Fidel Castro é aula
de história e de cinema cultural
Existe um grande número de pessoas no mundo todo que fazem ou fizeram a diferença através de seus atos, sejam eles voluntários, de rebeldia ou através de suas manifestações artísticas, mas poucas dessas histórias ficam conhecidas fora de seu país de origem. Ainda bem que tem o cinema para enaltecer os nomes delas, por outro lado, é uma pena que muitas vezes tais homenagens só despertem a atenção de um seleto grupo de espectadores, até por que geralmente elas já chegam até nós brasileiros rotuladas como produções elitizadas. É fato que a maioria das cinebiografias feitas fora dos padrões hollywoodianos (aquelas que tentam escamotear o máximo possível o sofrimento dos protagonistas e caprichar nas conclusões edificantes) realmente não são de fácil compreensão e as vezes até mesmo de difícil digestão como é o caso de Antes do Anoitecer, drama que sintetiza em pouco mais de duas horas a história de vida, profissional e de batalhas contra preconceitos do poeta e escritor cubano Reinaldo Arenas (Javier Barden) que sentiu na pele e no coração as dificuldades impostas por um regime governamental autoritário que proibia as pessoas de viverem da maneira que achavam mais adequado e também fiscalizava as manifestações culturais. Ele foi um homem que viveu exilado boa parte de sua curta existência, de certa forma mesmo quando estava em liberdade, e amando profundamente suas raízes, sua terra, sua gente e seus ideais. Desde a infância sofrida em região campestre, nos anos 40, já se mostrava sensível e que tinha intimidade com as palavras, o que causou repulsa em seus familiares e o levou a fugir de casa para se unir aos rebeldes do período pré-revolucionário de Cuba. No entanto, seus planos acabam frustrados e ele é obrigado a amadurecer diante das dificuldades que a vida lhe impõe no caminho. Na juventude despertava olhares atentos de meninas e meninos, o que para ele era algo natural e pouco relutou quanto a esses desejos assumindo sua homossexualidade publicamente, decisão que só veio a agregar negativamente a seu perfil perante a sociedade, já que os intelectuais eram vistos como seres desvirtuados que através dos seus trabalhos tentavam desviar a atenção dos populares do caminho correto, ou seja, as regras impostas pelo governo comunista de Fidel Castro que vigiava ferrenhamente os passos dos desencaminhados. 

Embora bem resolvido para si mesmo, Arenas precisou lutar para conseguir a aceitação de sua condição sexual pela sociedade e também para que seu talento como escritor fosse reconhecido. Apesar de driblar diversas vezes as perseguições oficiais, não escapou de passar pela prisão. Mesmo assim, seus manuscritos foram levados para fora do presídio com o auxílio do travesti Bon Bon (Johnny Depp), o que lhe trouxe outras complicações. Barden, um ator espanhol que deu certo em Hollywood, é quem encarna o poeta em sua fase jovem e adulta, do rapaz rebelde e idealista, passando pelo homem amargurado até o doente terminal precoce. Após ser libertado da prisão, mas ainda assim não podendo viver livremente em Cuba, sua vida não foi fácil e o destino lhe aplicou um duro golpe. Depois de conseguir a licença para emigrar para os EUA, já combalido tanto física quanto psicologicamente, Arenas ainda assim manteve sua vida sexual relativamente intensa e com diversos parceiros casuais, características que preservava desde a juventude, e assim ele foi mais uma vítima da Aids quando a doença ainda era uma grande incógnita e sinônimo de morte iminente. Na época ele estava com 47 anos de idade e vivendo em Nova York, solitário e sem dinheiro, ainda que seus livros já fossem considerados best-sellers em alguns países. Quando ainda estava em seu país-natal, o seu talento como escritor já começava a ser notado, mas o ápice ocorreu quando seu livro “El Mundo Delirante” venceu um prêmio na França em 1969 de Melhor Obra Estrangeira. Infelizmente, ao mesmo tempo em que sua fama crescia seus problemas com o governo aumentavam em proporções semelhantes, até porque o poeta provocava o quanto podia e descobriu que o sexo era uma poderosa arma de afronta a Fidel Castro e companhia bela, assim não hesitava em fazer reuniões em sua casa com numerosos convidados quando pela lei os grupos com mais de três pessoas não podiam se reunir em ambiente privado para evitar conchavos e atitudes contraditórias. Como o tal livro premiado havia sido levado clandestinamente para o exterior e sem a autorização do sindicato responsável, Arenas foi enclausurado em uma cela solitária localizada em uma espécie de campo de concentração exclusivo para intelectuais gays e por lá ficou por mais de uma década.

O cineasta Julian Schnabel, do premiado O Escafandro e a Borboleta, conseguiu construir um contundente relato da vida do escritor desde a sua infância pobre, passando pelos seus momentos de dificuldades na juventude até seu triste fim exilado em território norte-americano. As partes que retratam os períodos de ápice do conflito entre Arenas e as forças comunistas e sua temporada como prisioneiro destacam-se pelas cenas que não poupam o estômago do espectador e diálogos afiados e repletos de conteúdo histórico e de detalhes que ajudam a compreender o perfil emocional e psicológico do protagonista. Nestas sequências o mil faces Johnny Depp se divide em dois papéis. Além de viver o já citado travesti Bon Bon que vai à prisão entreter os detentos, ele também interpreta o oficial linha dura Victor que trava com o poeta uma discussão onde o medo de tal figura fardada e o desejo sexual do rapaz se misturam. O diretor brasileiro Hector Babenco, de Carandiru, também é ator e aparece aqui na pele de Virgilio Pinera, outro intelectual gay perseguido na mesma época. O roteiro escrito pelo próprio Schnabel em parceria com Cunningham O’Keefe, segue um estilo de narrativa clássico respeitando a linha do tempo na vida de Arenas e procura condensar os principais fatos da vida do poeta, o que justifica a grande quantidade de personagens secundários que surgem em rápidas participações. Já em questões visuais o diretor optou por uma estética realista, quase documental, aproximando o espectador da trama inserindo também uma linguagem jornalística. Fidel Castro, além das várias citações a seu nome nos diálogos, é inserido na trama a partir de cenas reais gravadas de seus discursos oriundas de documentários para TV e cinema. Antes do Anoitecer também é o título de um dos últimos manuscritos de Arenas que não chegou a completar meio século de vida, mas conseguiu deixar sua passagem por este mundo registrada através de seu dom para a escrita e de seus atos contra o regime que controlava as manifestações do povo e condenava o homossexualismo. A obra homônima baseada nas memórias do poeta, como se fosse uma carta de adeus à vida, foi publicada três anos após a sua morte por seu melhor amigo, Lázaro Gómez Carilles (também co-autor do roteiro), papel de Olivier Martinez no filme. Em suma, esta é uma excelente opção para quem gosta de histórias reais e de pessoas que fizeram a diferença, mas o clima melancólico deve ser uma grande barreira aos apenas curiosos. Em tempo: o filme privilegia o idioma inglês, mas abriu espaço para que Bardem recitasse em espanhol alguns poemas do homenageado. A entrega do ator ao personagem colocou seu nome no mapa cinematográfico, conferindo-lhe uma indicação ao Oscar e a consagração como Melhor Ator no Festival de Veneza.

Drama - 133 min - 2000 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

marcosp disse...

bem, eu pude ler o livro antes do filme ser lançado, Barden está explêndido (esplêndido) na sua atuação, vale a pena ver um pouco da biografia deste autor...é uma vida bem sofrida...

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