quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O INDOMÁVEL - ASSIM É MINHA VDA

NOTA 7,5

Com uma história simples e
mensagem atemporal,
longa ainda cativa com suas
atuações vigorosas
Os cinéfilos das novas gerações e antenados com a História do Oscar provavelmente já ouviram falar de Paul Newman e Jessica Tandy, duas das maiores estrelas que o cinema americano já abrigou e que se dedicaram a sétima arte praticamente até o final de suas vidas, mas você já assistiu algum filme deles? Uma boa opção para tanto é o drama O Indomável – Assim é Minha Vida, que além de reunir os dois astros, também é uma produção que causou frisson na temporada de prêmios 1994/95, embora hoje praticamente se encontre quase no ostracismo absoluto. Porém, vale resgatar a obra do diretor e roteirista Robert Benton que então já havia conquistado duas estatuetas da Academia de Cinema pelos roteiros dos dramas Kramer VS. Kramer e Um Lugar no Coração. O cineasta tem uma eclética filmografia, mas atingiu seus maiores sucessos quando demonstrou apreço pelos temas que envolvem as relações humanas, sejam elas de amizades ou familiares. Baseado no romance de Richard Russo "Nobody´s Fool", a história se passa na fictícia North Bath, em Nova York, uma cidade pequena e sem muitas perspectivas que vive coberta de neve e imersa em um clima melancólico. Lá vive Donald "Sully" Sullivan (Newman), um sessentão que está sempre em guerra com seu patrão Carl Roebuck (Bruce Willis), um sovina empresário do ramo da construção civil que quer lucrar com o trabalho dos outros, mas sem ter que colocar a mão no bolso. As discussões entre eles em geral se deve ao fato de existir uma pendência financeira por causa de um acidente de trabalho, mas as brigas se estendem para o campo de suas vidas pessoais visto que Sully não se conforma com a situação da esposa traída do dono da construtora, a infeliz Toby (Melanie Griffith). Os habitantes da região acreditam que o idoso não tem sorte sob nenhum aspecto, pois desde que abandonou a mulher e o filho ele vive sem objetivos e tomando decisões equivocadas, além de viver em dificuldades financeiras e não conseguindo mais se acertar com as mulheres, vivendo de amores platônicos. Tandy vive a sua única companhia feminina constante, Miss Beryl, que um dia já foi sua professora e agora ele é seu inquilino. Mesmo não levando a vida que desejava, este homem vive bem-humorado e guarda para si os seus lamentos. A chegada do filho Peter (Dylan Walsh), junto com a esposa e seus filhos pequenos, faz com que Sully repense sua vida e a relação que tem com sua família. Ele percebe, tardiamente, que não fez nada de significativo em sua vida, mas que enquanto se está vivo sempre há tempo para tentar fazer algo novo ou corrigir os erros do passado, basta abrir seu coração.

Este é o tipo de filme cuja premissa aparentemente parece simples e descartável, mas acaba se revelando uma grande surpresa, principalmente porque a história ganha corpo graças a interpretações vigorosas. Não é a toa que foi considerado um dos melhores filmes de 1994, inclusive o título figurou em diversas categorias na festa do Oscar no ano seguinte considerada uma das mais justas safras de produções selecionadas para o evento até hoje. Grande parte do apelo popular e junto a crítica do título se deve a presença dos finados Newman e Tandy no elenco. Na época o ator comemorava quatro décadas de dedicação ao cinema interpretando com muita naturalidade um homem que era completamente o seu oposto, um fracassado, enquanto o intérprete construiu uma carreira invejável e ainda conquistando bons papéis mesmo quando estava com a idade mais avançada, já na casa dos setenta anos, período em que a maioria dos veteranos deseja descansar ou simplesmente se aposentam por falta de convites de trabalho. Sua posição na ocasião era de destaque também por se dedicar a atividades filantrópicas através dos lucros obtidos de uma linha de produtos alimentícios que levava seu nome. Pelo papel de Sully, Newman concorreu ao Oscar e foi premiado no Festival de Berlim quando provavelmente no máximo esperava por um prêmio honorário pela carreira. Curiosamente, a veterana Jessica também vivia o melhor momento de sua carreira na idade em que outros atores estão aposentados, participando de projetos de grande repercussão e conquistando a crítica, mas infelizmente acabou falecendo no mesmo ano em que concluiu as filmagens. De qualquer forma, as histórias de vida pública destes dois intérpretes provam que o bom ator nunca morre, não importe o quanto a idade avance ou quanto tempo faz que faleceram. Mas voltando a falar do longa em questão, Benton só não faturou mais uns cobiçados prêmios neste caso porque concorria com pesos pesados naquela temporada. Sem apelar para firulas visuais ou reviravoltas surpreendentes na trama, o cineasta investiu em um filme legitimamente de atores, ou seja, uma produção cujo sucesso depende quase que exclusivamente do talento de seu elenco em transformar em realidade tipos fictícios cujos dramas e experiências de vida sejam capazes de envolver o espectador a ponto de torcer a favor ou contra tais tipos dependendo de suas atitudes e caráter. Não são apenas os diálogos verbais importantes, mas um pequeno gesto ou olhar pode significar muito à história que, diga-se de passagem, é de fácil identificação e porque não atemporal, afinal temas como solidão, busca por objetivos de vida e consertar o passado nunca saem de moda.

Apesar de na época do lançamento a imprensa divulgar como o grande mote da produção a história de amor que liga o personagem de Newman com o de Melanie Griffith, uma atriz que sempre viveu momentos conturbados na vida pessoal e que se refletiram em sua carreira negativamente com o passar dos anos, a grande lembrança desta produção são as relações afetivas que o protagonista tem com seu filho e netos e também com sua velha amiga e companheira com quem divide a casa, reforçando o talento do cineasta em contar histórias em que as relações humanas estão em primeiro lugar. Não seria errado comparar este trabalho aos saudosos dramas familiares produzidos principalmente entre as décadas de 1940 e 1950, tendo o diretor Frank Capra como grande popularizador de tal vertente em uma época historicamente marcada por conflitos terríveis e violentas crises financeiras, sendo que o cinema servia como uma fuga momentânea aos problemas lembrando que sempre há uma esperança quando parece que atingimos o fundo do poço, uma mensagem bem semelhante a propagadas pelos filmes natalinos. Hoje em dia, em tempos de críticos tão descrentes na emoção e adeptos de produções fast-food tanto quanto o público, é claro que dificilmente você encontrará alguém para exaltar as qualidades deste filme. Podem até dizer que a produção é boa, mas para os padrões de sua época de lançamento não se encaixando ao mercado atual. Bem, realmente se o O Indomável - Assim é Minha Vida chegasse aos cinemas agora ou até mesmo uma refilmagem sua fatalmente seria rotulado como uma produção alternativa com possibilidades de passar em brancas nuvens. Mas não se deixe enganar pela aparente simplicidade da obra. Assisti-la pela primeira vez ou revê-la pode ser uma agradável viagem no tempo a uma época não tão distante numericamente falando, mas longe o suficiente para justificar o porquê de atualmente vivermos a mercê de produções vazias de conteúdo e sustentadas pelo emprego de tecnologia. Aliás, a imagem levemente envelhecida que o longa acabou adquirindo só favorece a sensação de estarmos vendo cinema de qualidade. Aos mais desatentos pode até parecer que este é um filme contemporâneo fora do circuito Hollywood, embora seu elenco denuncie que o tempo passou, mas foi carinhoso com a produção.

Drama - 111 min - 1994 - Dê sua opinião abaixo.

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