quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SPLICE - A NOVA ESPÉCIE

NOTA 8,0

Com todo jeitão de filme B,
produção consegue ser
intrigante graças a uma
bizarra relação
O gênero ficção científica já teve seus tempos de glória. O contato com seres de outros planetas, as naves espaciais ou criaturas geradas através de experiências genéticas outrora causavam impacto, mas ainda hoje existem aqueles aficionados por tais temas. Deve ser por isso que vez ou outra uma produção do tipo é feita, porém, a maioria lançada diretamente para locadoras e venda ao consumidor. A categoria acabou ganhando características de filme B e causam geralmente mais risos do que espanto ou qualquer coisa do tipo. Neste cenário Splice - A Nova Espécie surpreende, até por ter sido exibido em cinemas, embora rapidamente. Apesar de ser mais um trabalho baseado no velho clichê do monstro se voltando contra seu criador, ele ganha pontos ao não se transformar em um nojento filme de terror ou de pura carnificina. A história envolve a nova experiência de um casal de cientistas, Clive Nicoli (Adrien Brody) e Elsa Kast (Sarah Polley), ambos muito famosos no meio científico por investirem nas pesquisas a respeito da combinação do DNA de diversos animais que resultam em criaturas bizarras. Agora eles querem ir além e revolucionar a ciência combinando o código genético de bichos com o de seres humanos, porém, seus financiadores vetam a idéia, apesar de seu intuito ser para estudos sobre novos medicamentos para graves doenças. Mesmo assim eles levam o projeto adiante em segredo e assim nasce Dren (Delphine Chanéac), um ser humanóide com fortes características de um réptil cujo ciclo de vida é extremamente rápido e a fase adulta é atingida em questão de meses, mas não se pode prever quanto tempo poderá se manter viva. Seus criadores tentam escondê-la no laboratório para estudar seu comportamento e evolução, mas logo precisam transferi-la para um lugar mais seguro, assim Dren passa a ter contato com um mundo novo que desperta nela sentimentos e reações diversas e inesperadas.
Praticamente uma releitura do conto do monstro Frankenstein misturado com discussões contemporâneas a respeito dos avanços das pesquisas sobre genética, aqui é colocada em xeque a situação da criatura quando existe um laço de união com seus criadores. Dren não é completamente racional ou sentimental, mas apresenta traços consideráveis destas características que acabam a desestabilizando ainda mais em um mundo onde não é bem-vinda. Conforme envelhece, os problemas aumentam e acabam refletindo na relação dos cientistas com ela e no próprio relacionamento amoroso do casal. Existe uma inversão de sentimentos. Se quando era tão dócil e brincalhona quanto uma criança seu criador a rejeitava, tentou inclusive matá-la, enquanto a sua esposa a cobria de atenções, em certo ponto as coisas mudam. A criatura surpreendentemente não cria laços afetivos com a cientista, que via nisso tudo sua chance de vivenciar a experiência de ser mãe e ter o controle da cria em suas mãos. Dren acaba se afeiçoando ao rapaz que demonstra até um carinho além do permitido. É justamente nessa parte que a história fica boa, pois o enredo começa a trabalhar questões interessantes e a relação do trio se torna um tanto peculiar. Nicoli acaba dedicando atenção demais ao humanóide e é correspondido de tal maneira que surge uma atração sexual de ambas as partes que é levada aos finalmentes. Misturando as estações, ele já não sabe mais se vê Dren como uma filha ou como uma mulher, de repente até a sua própria esposa que deixou de ser amorosa para viver em uma insanidade repentina, a esta altura o longa coloca em discussão problemas com raízes na infância, conceitos familiares, a situação de uma criança perante os desentendimentos de seus pais e até um possível incesto.   
O diretor Vincenzo Natali, que dirigiu o cultuado suspense Cubo, levou cerca de dez anos para realizar este trabalho aguardando a evolução dos efeitos especiais. Ele queria que Dren fosse perfeita, mesmo sendo uma produção que desde a concepção no papel já era caracterizada como um trash movie. Para alguns tanto cuidados não passa de firula, mas justamente pelo seu jeitão de filme B é que havia tanta preocupação com o visual do humanóide. As pessoas iriam se interessar em assistir a produção justamente pela curiosidade em ver o tal ser e não poderiam se decepcionar. Bem, a criatura quando pequena não chama atenção, a não ser por sua imagem estranha e mal feita, mas quando ela cresce podemos perceber o empenho da equipe de efeitos especiais e maquiagem. Dren é totalmente crível, não passa a impressão de ser um boneco de borracha ou um personagem feito totalmente através de técnicas de computação, e consegue interações visuais bem interessantes com os protagonistas, que o diga Adrien Brody que consegue até uma cena quente. Porém, ao contrário do que muitos propagam, imagem não é tudo. Pode parecer loucura, mas o enredo aparentemente absurdo faz sentido e está longe de ser considerado totalmente ruim. O problema é que da mesma forma que um cientista demora anos e anos para chegar a uma conclusão a respeito de algum experimento, este filme tem muito conteúdo a ser explorado e há pouco tempo disponível, assim ficamos com a sensação de que o roteiro seguiu o caminho mais fácil e culminou em algo digno de produções trashs de terror. Todavia, Splice - A Nova Espécie é um daqueles filmes que você decide ver quando não há nada melhor e te surpreende. Não mudará sua vida, mas certamente tem fôlego para prender a atenção do espectador que lá pela metade da projeção deve estar curioso para ver até onde essa bizarra família ou triângulo amoroso, dependendo do ponto de vista, pode chegar. Aos sádicos um prato cheio, mas até quem é mais crítico, colocando o cérebro para funcionar, deve se entreter e encontrar pontos relevantes, ainda que mal desenvolvidos.
Suspense - 104 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.
 

4 comentários:

renatocinema disse...

Achei uma produção razoável.

Se não chega a ser muito bom, não decepciona.

Leo Carioca disse...

Ainda não assisti esse filme aqui, mas, pelas cenas que eu vi, me pareceu que, quando aparece a cara do mutante em close é uma atriz. E quando aparece de corpo inteiro, é um efeito, não é isso?
Bom, eu gosto de filmes de mutante.
Mas uma coisa que acho que acabou muito com a graça desse gênero é o excesso de efeitos especiais 3D usados nas produções atuais.
Até os anos 80 (mais ou menos até o meio dos 90), os mutantes e demais monstros vistos nos filmes eram atores fantasiados, né? E, por incrível que pareça, eu achava que as cenas ficavam mais realistas daquele jeito. Quando o monstro é SEMPRE um efeito 3D, em TODAS as cenas, fica muito evidente que ele não é real.
Bom, minha opinião.

Guilherme Z. disse...

Concordo que essa mania do 3D é ruim em diversos casos e as coisas ficam falsas. No cado de "Splice", o filme não foi desenvolvido para atender essa demanda. Só foi empregada tecnologia para construir a criação, mas ainda assim uma atriz serviu como modelo. O resultado achei bem satisfatório, mas a criatura quando pequena tem pinta de filme B.

Marcos antonio disse...

O filme me assustou, mas não pelo terror. Splice demonstra uma consequência da famosa história do homem querer brincar de Deus. Isso sempre me assustou e vendo o fato consumado em Splice só trouxe idéias de "e se estiver acontecendo?".
Quanto ao filme, a crítica apontou bem os pontos fortes e fracos, nada a acrescentar.

Regular

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