sexta-feira, 8 de junho de 2012

CASAMENTO GREGO

NOTA 8,0

Tirando sarro de uma
patriota família grega,
longa conquista com seu
humor simples e leve 
Para um filme ser um estrondoso sucesso e levar sua fama para todos os cantos do mundo é necessário que ele tenha um roteiro inteligente e complexo, um elenco estrelar, efeitos especiais de ponta ou, melhor ainda, a mistura de todos esses ingredientes. Graças a Deus vez ou outra uma produção extremamente simples e bobinha, no melhor sentido da expressão, surge para nos lembrar que cinema de verdade deve tocar no emocional do espectador e não se resumir a um show pirotécnico ou a uma história que pouca gente entende, mas que mesmo assim enche a boca para falar que adorou só para se passar por esperto. Casamento Grego foi um sucesso espetacular por todos os cantos onde passou isso porque já chegou com uma bela campanha publicitária destacando o número gigantesco de espectadores que conquistou em solo americano. É considerado um feito e tanto por ser uma produção extremamente simples, sem nada de extraordinário no visual e tampouco contando com um elenco famoso, mas que conseguiu chamar a atenção do grande público talvez justamente pela sua falta de brilhantismo ou novidades em sua confecção, algo que causou a fúria dos críticos que desceram a lenha no filme dirigido por Joel Zwick, veterano de programas de TV. Os entendidos de cinema não se conformaram, e provavelmente até hoje não, que um produto estilo sessão da tarde tenha se tornado um fenômeno mundial. Na realidade devem ter se sentido menosprezados já que o público preferiu confiar nas indicações boca-a-boca do que nos textos rebuscados deles (justiça seja feita, alguns críticos até foram bonzinhos com a fita). A obra em si não tem mesmo nada demais, porém, é bem realizado, tem uma história agradável e com boas situações cômicas, os ingredientes básicos de qualquer comédia, embora estejam em falta em diversas produções do tipo contemporâneas. A trama gira em torno de Toula Portokalos (Nia Vardalos), uma mulher grega que já está na casa dos trinta anos e vive com sua enorme, animada e pitoresca família em solo americano. Ela gerencia o restaurante dos pais de comida típica da sua terra natal, mas na realidade ela faz de tudo naquele lugar e não tem tempo para viver uma vida normal e quando o tem se sente um peixe fora d’água em qualquer lugar que vá. Como seus familiares são muito rígidos quando o assunto é manter as tradições do povo grego, a moça cresceu se sentindo uma estranha nos EUA e talvez por isso enterrou sua vida no trabalho.

Cansada da vida sem graça, Toula deseja dar uma guinada em seu pacato cotidiano e está certa que o primeiro passo é modernizar seu trabalho e aparência. Por que ficar limpando mesas e servindo cafés se podia muito mais? E para que se esconder atrás de um obsoleto par de óculos, roupas simplórias e cabelos lambidos? Após uma transformação em seu visual, ela começa um curso de informática e logo é transferida de emprego e vai ajudar outros parentes em uma agência de viagens. É lá que ela se aproxima de Ian Miller (John Corbett), um rapaz também solteirão, mas por opção. Na realidade eles já tinham se visto quando ela trabalhava no restaurante, mas Toula era extremamente envergonhada e desengonçada e não conseguia sequer dizer uma simples saudação sem gaguejar ou falar bobagens sem sentido. Eles começam a namorar em segredo, mas logo o clã grego descobre o relacionamento, estranham, mas se esforçam para aceitar esse casal que foge a regra para eles, porém, Miller terá que se adequar as tradições e esquisitices da família da namorada. Seguindo a fórmula de tantas outras comédias românticas, logo que os protagonistas se encontram já se sabe como tudo vai acabar, mas o recheio da trama é que conquista o espectador comum explorando situações corriqueiras. A grande família grega apresentada, com suas confusões, falatórios e tradições próprias, faz um contraponto com a timidez do noivo da protagonista, mas pode não ser tão excêntrica quanto pareça e muita gente se identificou com ela, apesar de ser retratada de forma um tanto exagerada. Parentes e mais parentes com nomes iguais, um bando de tias e primas enlouquecidas para ajudar a noiva se arrumar e uma bandeira da Grécia adornando a porta da garagem podem parecer demais, mas as piadinhas, costumes e os “causos” fora de hora, além do constrangedor encontro entre os pais dos noivos, são situações que literalmente acontecem nas melhores famílias. Lembrando o estilo falastrão e alegre dos italianos, o clã criado é de fácil identificação em diversas partes do mundo, o que explica a rápida adesão do público brasileiro conhecido por sua alegria contagiante e influências a “la mamma mia”. Conta também para o sucesso a atuação da atriz principal, de origem grega, que além de conquistar a atenção com sua simpatia também é a responsável pelo roteiro indicado ao Oscar que antes já era encenado nos palcos de teatro por ela mesma. Baseado em fatos autobiográficos, Nia foi encorajada por amigos a escrever um monólogo reunindo as divertidas características, hábitos e situações que vivenciou com sua família, portanto, criar os demais personagens para o filme não foi difícil.

A idéia de levar aos cinemas esta crônica alegórica de uma família estrangeira tradicional e patriota tentando se adaptar ao acelerado e desregrado estilo de vida americano foi de Tom Hanks e sua esposa Rita Wilson após verem a encenação teatral, mas talvez não imaginassem que o longa desbancasse muitas superproduções americanas de 2002. Enquanto elas caiam vertiginosamente de posição no ranking dos mais vistos, esta comédia se segurou na segunda posição por mais de vinte semanas, um feito e tanto considerando que semanalmente pelo menos três filmes são lançados em cinema. Em resumo, Casamento Grego é divertido, previsível, não machuca ninguém e acerta em cheio ao focar as ações na adaptação de um homem americano ao núcleo familiar grego, mas é certo que o roteiro poderia explorar mais o início do relacionamento do casal Ian e Toula, assim como o próprio desenrolar da adaptação do rapaz a este mundo “paralelo”. Pelo menos fomos poupados do clichê do pai controlador tentando buscar o melhor noivo para a filha ou tal estereótipo tenha sofrido bem-vindas modificações. Michael Constantine, intérprete de Gus o pai de Toula, não tenta forjar encontros entre a filha e candidatos gregos legítimos, mas a todo momento faz questão de deixar claro que não aceita totalmente a escolha dela e faz isso de forma bastante escandalosa. Aliás, o ator é responsável por algumas das melhores piadas e sem precisar constranger o público. Desde o início da década de 2000, as comédias apostam em piadas escatológicas e erotismo para causar riso fácil. Com essas últimas palavras fica claro o porquê do sucesso da produção e sua boa recepção até hoje, tornando-se um programa familiar excepcional, perfeito para várias reprises a tarde e sem efeitos colaterais, exceto aos alérgicos a sacarose. Ao subirem os créditos finais ficamos com a sensação de que participamos de uma verdadeira festa de família com todas as alegrias e micos possíveis, afinal quem não tem parentes esquisitos? E o que seria de nós se eles não existissem para nos deixar momentos inesquecíveis? De longe todos são normais, mas de perto...
Comédia - 95 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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