quarta-feira, 25 de abril de 2012

DE CORPO E ALMA

NOTA 7,0

Robert Altman documenta
a preparação de um
espetáculo de dança com
olhar distanciado
Anos antes de uma obra em preto-e-branco, francesa e muda ganhar o Oscar de Melhor Filme em pleno século 21 e bem antes também do público mais elitizado se interessar em assistir óperas em sessões especiais em cinemas de shopping que pareciam fadados a sobreviver da demanda em busca de produções com efeitos especiais de última geração, já tinham cineastas interessados em inovar e lançar produtos pouco convencionais. Alguns construíram suas carreiras em cima de projetos alternativos, seja para sacudir o mercado ou puramente para satisfazerem desejos pessoais, mas em ambos os casos a certeza é uma só: prestígio pode ser atrelado à ousadia, mas fortuna é algo bem distante. O cultuado e saudoso Robert Altman já tinha uma carreira consolidada quando resolveu se arriscar a dirigir De Corpo e Alma, uma obra muito difícil de classificar em gênero específico. A bailarina Ry (Neve Campbell) está vivendo intensamente a rotina de ensaios de balé para um grande espetáculo que a companhia de dança a qual pertence está organizando. O ambiente deveria exalar alegria já que o evento é muito aguardado por todos os alunos, mas na realidade o clima é uma mistura de melancolia e ansiedade, isso porque a disputa pelos papéis nas diversas sequências de dança, em geral contemporâneas, está muito acirrada. Os professores exigem o máximo de dedicação dos candidatos e o mínimo deslize pode significar sua ausência no espetáculo ou o mesmo ser relegado a uma participação sem destaque. Todos são observados com muita atenção pelo diretor e líder da companhia, Alberto Antonelli (Malcolm MacDowell), mais conhecido como Sr. A. Querendo muito agradá-lo e ter um grande destaque no espetáculo, Ry se esforça o máximo que pode, mas durante o processo de seleção ela se apaixona por Josh (James Franco), uma distração que pode atrapalhá-la neste momento que pode ser crucial em sua profissão. Pensando no dilema que a protagonista vive, a vida profissional ser mais importante que a pessoal, pode parecer que estamos diante de um pré Cisne Negro. Até que podem ser feitas comparações entre as duas obras, mas certamente a de Altman parecerá bem mais modesta, porém, esta afirmação não deve ser encarada como algo depreciativo. Simplicidade e realismo eram justamente os objetivos do diretor que se cercou de bailarinos de verdade e utilizou sua câmera de forma livre e onipresente para seguir os passos dos dançarinos durante os ensaios e também acompanhar um pouco de suas vidas íntimas, mas as histórias dessas pessoas não chegam a ser desenvolvidas de forma satisfatória. Até os atores mais conhecidos aparecem despercebidos praticamente, quase como figurantes, já que Neve e Franco vivem um relacionamento frio que não consegue envolver o espectador.

Nos últimos anos foi possível verificar um aumento da oferta de filmes que tem como panos de fundos espetáculos e aulas de dança. Depois de sucessos como Dança Comigo? e Vem Dançar, ambos com elenco chamativos, e dos artistas nacionais e internacionais popularizarem os concursos de dança na TV, o público entrou na onda e também começou a se matricular em cursos para aprender os mais diversos ritmos. Mas será que em meio a salsas, valsas, hip hop, entre outros estilos musicais, existe espaço no cinema para o balé, seja ele clássico ou contemporâneo? A resposta talvez seja não de acordo com a forma que o público e até mesmo a crítica trataram este filme quando lançado e até hoje já que ele é praticamente desconhecido. De qualquer forma, o que chama a atenção neste projeto é a reverência à dança, lembrando, é claro, que este é um produto para apreciação por um público seleto ou amante de artes e cultura, isso se derem sorte de achá-lo em alguma loja ou locadora. É triste ver que um cineasta tantas vezes indicado a prêmios tenha chegado ao fim de sua vida e carreira sofrendo rejeição, embora na época em que dirigiu esta mistura de ficção e documentário ele já demonstrava sinais de desgaste físico, o que certamente atrapalha o trabalho, mas longe de estar fatigado mentalmente. É difícil explicar em palavras a sensação de assistir a este trabalho atípico em seu currículo. Aparentemente pode parecer um projeto de filmagem caseira, mas o roteiro de Barbara Turner consegue envolver (ou enganar) os espectadores de forma que sempre ficamos na expectativa de que algo grandioso está para acontecer na próxima cena, mas na realidade precisamos esperar até quase o final quando finalmente vemos o espetáculo “A Cobra Azul” montado. É nessa parte que agradecemos por termos tido paciência de aguentar o imbróglio que o filme se revelou praticamente em toda a sua extensão. A produção ganha belas cores, som estridente e uma iluminação de primeira que contrasta com o clima melancólico e ligeiramente tenso que ocupava a tela retratando um ambiente sem glamour e competitivo. É até um recurso de meta-linguagem. Ao mesmo tempo em que a ambientação de praticamente todo o longa é fria, silenciosa e com emoções praticamente nulas, o filme em si também reflete essas sensações, tornando-se bem mais interessante e envolvente não por acaso em seu clímax.

Altman se envolveu com este projeto quando o mesmo já estava sendo encaminhado pela própria protagonista que também co-produziu e co-escreveu o longa. Neve antes de ser atriz já se dedicava a carreira de bailarina e ansiava pela oportunidade de mostrar essa sua outra vocação (talvez a sua real) no cinema. A idéia de um filme que mistura aulas de danças, ensaios, bastidores e, por fim, a apresentação final, desde sua concepção já denunciava uma obra com caráter artístico e experimental e sem visões lucrativas. Certamente isso influenciou o cineasta a aceitar tocar o projeto e imprimir suas características de trabalho, como as sequências de contemplação e muitas pessoas em cena. Ele optou em apresentar as imagens dos ensaios de forma quase caseira e com diálogos que parecem ter sido captados por câmeras ocultas, reforçando o estilo making of e mantendo o olhar distanciado entre diretor e obra, assim tudo parece muito natural e sem manipulações. Dessa forma ele consegue revelar o clima ora perturbador ora agradável dos bastidores de um espetáculo que tem que resultar encantador para as platéias e é exatamente essas as sensações que o espectador do filme tem. O sentimento incômodo que nos persegue até pouco mais da metade de projeção é substituído por deslumbramento quando os bailarinos estão dando o seu melhor no palco. De Corpo e Alma, em resumo, é uma ótima opção para platéias que tenham sensibilidade suficiente para ver beleza e sentido nas pequenas coisas e momentos da vida que neste caso traz como real protagonista do espetáculo a dança. Os aplausos que acompanham os créditos finais servem para reverenciar este trabalho no mínimo audacioso e curioso na filmografia de Altman, um nome que faz falta no mundo cinematográfico.
Alternativos - 112 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

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