quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

VAMPIROS DE JOHN CARPENTER

NOTA 8,5

Sem firulas, mestre do
terror resgata imagem dos
vampiros com sucesso em
longa que assusta e diverte
John Carpenter já foi conhecido como o mestre do terror. Criador do Halloween original na década de 1970, ele já deu belas escorregadelas com alguns de seus trabalhos, mas em compensação fez platéias se arrepiarem com uma neblina misteriosa, um carro com más intenções, crianças medonhas e com poderes sobrenaturais e até abordando um futuro apocalíptico. Usando artifícios criativos para causar medo, é de se estranhar que ele tenha se interessado em trabalhar com criaturas clássicas do cinema de terror. Porém, esqueça tudo o que você sabe sobre vampiros. Uma frase do tipo é dita por James Woods e deve ser encarada como o grande slogan de Vampiros de John Carpenter. O cineasta não quis inovar e sim resgatar o que o tempo deturpou. Os vampiros há anos são personagens muito explorados pelo cinema desde o sinistro Nosferatu, clássico expressionista da década de 1920, passando pelas mais diversas facetas do Conde Drácula, inclusive cômicas, outros trabalhos deram espaço para as vampiras sedutoras brilharem e até os dentuços teens em conflitos românticos já ganharam as telas. Com tantas versões variadas e a maioria romantizando o conto, os temíveis seres da noite foram pouco a pouco perdendo a essência e se descaracterizando. Essas figuras na realidade são malvadas e não pensam duas vezes antes de saciar a sede de sangue. Se apaixonar por suas vítimas nem pensar. É por esse pensamento que Carpenter optou para realizar uma obra que faz uma excelente mistura entre terror e faroeste e que causa arrepios ao mesmo tempo em que faz rir. Sim, o longa tem ótimas tiradas graças aos desbocados personagens de Woods e de Daniel Baldwin, mas nada que o transforme em um legítimo trash movie, pelo contrário, mas certamente ele flerta com o estilo de fazer filmes B com boas intenções.

A história nos apresenta a Jack Crow (Woods), o líder de um grupo de assassinos patrocinado em sigilo pela Igreja Católica que há anos tenta exterminar os vampiros da face da Terra. Em uma região isolada do solo americano, ele e seu bando conseguem a façanha de capturar e dar fim a um grande número de chupadores de sangue em um mesmo local, mas isso acaba atiçando a ira do mestre dos vampiros Jan Valek (Thomas Ian Griffith) que acaba indo atrás dos caçadores e realiza um violento massacre em um motel de beira de estrada onde os heróis comemoravam o bom dia de trabalho. Somente Crow e seu amigo Tony Montoya (Baldwin) sobrevivem além da garota de programa Katrina (Shery Lee) que acaba sendo usada pela dupla como isca para tentar capturar o vampirão. Ela foi mordida por ele e em poucas horas também fará parte do clã das trevas, mas enquanto esse momento não chega ela já consegue ter visões dos passos de seu mestre. Dessa forma e com a ajuda de Adam Guiteau (Tim Guinee), um padre, eles descobrem que Valek está em busca de uma cruz especial que lhe daria o poder e a todos os seus subordinados de vagar livremente sob a luz do sol, ampliando suas chances de espalhar a maldade. O Bem e o Mal tão próximos é uma característica do trabalho de Carpenter que sempre procura desmitificar mitos e desconstruir instituições e valores. Aqui, por exemplo, o padre que acompanha o que sobrou da gangue de caçadores, além de entrar em contato com diálogos de duplo sentido e mostrar coragem e astúcia, também passa a ter dúvidas se tudo que a Igreja lhe ensinou até o momento é real e verdades insolúveis, mas não espere estudos sobre o assunto. O que vale aqui é a diversão e o terror visceral no melhor estilo usado na década de 1980, incluindo a produção com aspecto tosco em certos momentos.

O roteiro não é inovador, apenas é suficiente o bastante para entreter e reavivar o mito. É interessante que em determinado momento o destemido caçador de Woods enumera todas as crendices populares que são apenas enrolação. Não adianta cruz, nem alho e tampouco água benta. Eles não dormem em caixões forrados com tecidos finos e não usam roupas de época. De verídico apenas o fato de não poderem caminhar na luz do dia, justamente o motim do filme: encontrar a solução para esse problema. Fora isso, a produção capricha nos clichês. Gritaria, sangue a torto e a direito, palavrões, a tradicional explicação sobre o surgimento do mestre das trevas e muito vampiro virando torresmo sob o sol. Mesmo assim, o cineasta conseguiu uma atmosfera de arrepiar e capricha nos takes que realçam o clima de filme de bang-bang e flagram com perfeição a paisagem desértica e o calor intenso do local em que tudo se desenrola, apesar de Crow estar sempre bem encapotado. Enfim, divertido e assustador, Vampiros de John Carpenter é um filmaço que nos faz voltar a acreditar no mito do vampiro clássico sem as firulas épicas e românticas que domaram o extinto dessa criatura durante as suas aparições no cinema na década de 1990. O diretor assinou literalmente o último filme das criaturas da noite do século 20, uma condecoração merecida e que parece mesmo seu derradeiro trabalho de sucesso. Já velhinho, seu projeto seguinte foi a baderna espacial Fantasmas de Marte filmada em 2001 e desde então aparentemente se aposentou. Bem, se a preferência é trabalhar com terror e suspense, mas não se tem uma boa idéia no papel, o melhor mesmo é ficar na inércia para não manchar (ainda mais) o currículo.

Terror - 107 min - 1998 - Dê sua opinião abaixo.

3 comentários:

renatocinema disse...

Gosto do diretor e de seu estilo, porém, nunca acreditei muito nessa produção.

Talvez, deva dar uma chance a esse trabalho. Afinal, antes tarde do que nunca.

Vagner disse...

Ótimo filme e ótima crítica, parabéns--->>>

Luís disse...

Eu sempre me deparo com esse filme na locadora e sempre penso que quero vê-lo, mas isso é bem saudosista, porque ele me remete a um tempo de infância na qual eu e minha mãe nos sentávamos e ficávamos a noite toda assistindo a filmes.

Não conheço o título e há anos que quero vê-lo. Um dia quebro a barreira que me separa dessa obra e a vejo - até porque, como você apontou, gosto dos filmes de John Carpenter, desde Michael Meyers e sua respiração ofegante até a Christine, aquele Plymouth 58 lindo!
=]

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