segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

FALANDO DE SEXO

NOTA 7,5

De forma descontraída esta
comédia fala sobre a difícil
arte de se manter o amor e
o poder que a mentira possui
Lançado primeiramente em festivais, onde a princípio as comédias parecem ser pouco apreciadas, Falando de Sexo acabou ganhando o status, sem querer, de raridade cult. A fita é um dos poucos casos de obra que permaneceu inédita no circuito comercial do mundo todo por mais de dois anos. No Brasil, a espera foi ainda maior e mesmo quando lançada tudo foi feito de forma modesta, uma injustiça cometida com um divertido filme que fala de sexo de uma maneira bem humorada sem cair nos escrachos comuns das produções destinadas aos adolescentes, até porque seu público-alvo é mais maduro. Hoje são poucos os que conhecem esta divertida história. O diretor John McNaughton, de Garotas Selvagens, construiu uma narrativa que usa um tema comum em comédias, um casal em crise, mas a temperou com um delicioso clima de erotismo sem precisar exibir cenas constrangedoras e ainda introduziu personagens coadjuvantes tão interessantes quanto os protagonistas. A trama é desencadeada por Melinda (Melora Walters) e Dan (Jay Mohr) que formam um casal com sérios problemas de relacionamento. Eles não brigam o tempo todo, pelo contrário, até se dão muito bem no dia-a-dia. O caldo entorna mesmo é na cama, pois ele não consegue sentir desejo por ela e o seu "Sr. Feliz" (o apelido de seu pênis) não dá sinais de vida, o que não acontece quando está com outras mulheres. Quando o marido confessa que, acidentalmente, transou com uma garçonete dentro do próprio carro, sua esposa entra em profunda depressão achando que o problema dele só se manifesta com ela. O casal acaba procurando o auxílio da consultora matrimonial Emily Page (Lara Flynn Boyle), esta que os encaminha para um especialista em depressão, o Dr. Roger Klink (James Spader). Dan não acredita no tratamento, mas Melinda insiste e acaba sofrendo um abuso sexual por parte do médico. Apesar de tudo acontecer com seu consentimento, a jovem aceita a sugestão de Emily de levar o caso aos tribunais para tentar ganhar algum lucrar. Na realidade a doutora quer se vingar. Ela precisou pagar uma bela multa por ter anunciado seus serviços em um banco de espaço público e não acha justo que um profissional se relacione com uma paciente e fique tudo numa boa.

Começa então uma batalha judicial onde, além dos egos dos doutores falarem mais alto e a imaginação de Melinda voar longe, para desespero do marido, ainda há conchavos e intrigas entre os advogados Ezri Stovall (Bill Murray), que representa o acusado, e Connie Barker (Catherine O´Haara), que defende o lado da vítima. Ambos buscam uma resolução que beneficie suas vidas e não propriamente a dos seus clientes. Eles também contam com a ajuda de dois investigadores, Felix (Hart Bochner) e Helen (Kathryn Erbl), cada um investigando a vida de um dos contratantes. Por trás de todo esse julgamento existe a ganância e o amor regendo a vida de todos os envolvidos. A vítima que não é vítima em busca de lucros e seu marido de acordo, mesmo levando a fama de traído, mas eles são realmente apaixonados. Os seus advogados também querem se dar bem, mas acabam se descobrindo atraídos um pelo outro em meio ao processo. Um resultado favorável a apenas um deles não seria muito bom para o relacionamento. Os investigadores que a dupla contrata também forma um casal, mas suas vidas profissionais são independentes, apesar de estarem trabalhando no mesmo caso em busca de fatos comprometedores, porém, cada um xeretando a vida de uma pessoa. O acusado quer evitar ter que pagar uma indenização a sua cliente e descobre realmente que está apaixonado por ela. Já a doutora Emily, bem, ela ama sua conta bancária e dependendo do resultado deste emaranhado de armações terá que desembolsar mais uma vez uma grande quantia de dinheiro. Porém, na realidade, ela reprime sentimentos amorosos por Klink e não suportou a ideia dele estar se envolvendo com outra. O roteirista, então estreante, Gary Tieche formatou uma narrativa bem intencionada, porém, em certos momentos apela para o humor caricatural, principalmente na introdução e na conclusão que são intimamente ligadas. O que sobra então? O recheio. O enredo fala das relações sexuais de uma forma descontraída que flerta entre o maduro e a inocência. Por exemplo, nas cenas de julgamento, o relato da personagem Melinda sobre o assédio que sofreu parece como o de uma adolescente descrevendo sua primeira relação sexual. Já os advogados e doutores tentam tratar o tema sem constrangimentos como adultos, mas não escapam de sentir os hormônios fervendo enquanto escutam a tal descrição. Nem a escrivã grávida consegue ficar passiva na situação e também esboça inquietação. O que uma boa dramatização não faz. 

Apesar de contar com um casal de protagonistas talentosos, no qual se destaca a interpretação de Melora Walters, todos os personagens têm suas características e conflitos bem delineados e seus momentos estratégicos de brilhar e arrancar risos do espectador. Murray e O´Haara (infelizmente estigmatizada como a mãe de Macauly Culkin em Esqueceram de Mim e aqui ainda trazendo resquícios de tal interpretação) estão impagáveis como os advogados que tentam esconder seus sentimentos um pelo outro, mas não resistem. Contado em flashback contínuo e longuíssimo, o roteiro amarra bem as situações de humor e a câmera flagra cada reação dos personagens de forma excepcional e é impossível não ficar com um sorriso no rosto boa parte do tempo, ainda que a narrativa se prolongue um pouco além do necessário. Falando de Sexo tem uma linha narrativa que lembra um pouco comédias antigas em que uma história principal prepara o terreno para tramas paralelas serem desenvolvidas e no final elas são convertidas em uma só e de forma que todos os personagens tenham alguma ligação. O ator Chevy Chase fez muitos filmes no estilo nos anos 80, mas o modelo parece ter realmente ficado como lembrança do passado, o que explica as dificuldades de lançamento da obra em questão. Não é fácil fazer humor com tantas tramas paralelas, mas McNaughton consegue um resultado bastante satisfatório. Apesar de muitos não gostarem desse tipo de narrativa, é preciso ressaltar que elas são trabalhosas e dificilmente escapam de ter furos, mas eles são mínimos nesta produção que infelizmente não recebeu a atenção devida por parte do público e crítica. Para muitos, o longa é puro clichê e repleto de piadas escrachadas e passagens constrangedoras. Quem pensa assim é porque nunca assistiu a uma comédia adolescente. Esta é uma dica para quem busca diversão ligeiramente inteligente, mas sem ser radicalmente cult.

Comédia - 96 min - 2001 - Dê sua opinião abaixo.

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...