terça-feira, 1 de maio de 2012

MARIA CHEIA DE GRAÇA

NOTA 8,0

Diretor estreante mostra
competência ao lidar com
tema polêmico e crítico
em obra um tanto realista
Geralmente os filmes mais badalados em festivais mundo a fora contam com artifícios comerciais que não explicam muito a respeito dos seus conteúdos. Título e material visual (pôster ou capa do DVD) são itens que podem determinar a escolha de um espectador, mas nem sempre as equipes de criação ou publicitária são felizes. Ainda bem que há gente inteligente nesse meio que consegue ainda casar a idéia do produto perfeitamente com o título e aquela imagem que deve se eternizar como marca da produção. Um exemplo digno de palmas é Maria Cheia de Graça. Sozinho parece uma menção a uma obra religiosa, mas quando o atrelamos a imagem de uma jovem de cabeça erguida como se fosse receber uma hóstia a coisa muda de figura completamente. Recebendo na realidade uma cápsula de tamanho considerável e recheada de drogas, tal imagem é a síntese perfeita do enredo deste filme assinado pelo estreante Joshua Marston, uma ousadia que causou frisson e até chocou algumas pessoas. Muitos consideram tal campanha de marketing uma heresia sem tamanho, mas não há como negar o impacto que causa. E a propaganda não é gratuita, pelo contrário, é muito contundente. É justamente através do trabalho ilícito de transportar drogas dentro do corpo que a protagonista Maria Alvarez, interpretada pela hispânica Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar e vencedora do Urso de Prata em Berlim, buscará a redenção. Ela é uma jovem de 17 anos que trabalha em uma região campestre da Colômbia retirando espinhos e folhas de rosas. Como a região basicamente vive do cultivo de plantas, não há muitas esperanças de mudar de vida, mas mesmo assim ela pede demissão cansada de ser maltratada pelo patrão. Para tomar tal decisão repentina ela não levou em consideração que era com seu salário que sua família sobrevivia e a situação se complica ao se descobrir grávida de Juan (Wilson Guerrero), um rapaz que não ama e que mal conhece.

Durante uma viagem para Bogotá, Maria fica conhecendo mais a fundo o trabalho dos “mulas” como são popularmente conhecidos os intermediários do tráfico de droga. Seduzida pela proposta de lucrar muito, a jovem mente a idade e aceita o trabalho com a cara e a coragem praticamente ignorando os riscos de sua decisão. Pouco a pouco ela vai sendo instruída sobre as dicas para transportar a mercadoria de forma que ela chegue intacta ao seu destino, como fazer para expelir as cápsulas que se encontram em seu estômago e as formas de agir no aeroporto para não levantar suspeitas. Devido as expectativas depositadas no longa devido a uma porção de menções a prêmios, no final podemos nos sentir insatisfeitos, como se algo faltasse. Espera-se uma obra bem mais violenta e difícil de digerir, mas no conjunto ela não choca tanto, contudo está longe de ser uma história adocicada. É praticamente impossível se manter passivo diante das cenas em que Maria engole as cápsulas recheadas de cocaína. Em cena a vemos engolir algumas apenas, mas dá para sentir o sacrifício de ter que levar na barriga os mais de 60 pacotes acordados, verdadeiras bombas dentro do corpo. Se um sequer estourar sérias complicações de saúde podem ocorrer podendo levar a pessoa até mesmo a morte. Chegando aos EUA, obviamente é a protagonista que será barrada pelos seguranças, algo já previsto e bem-vindo para os traficantes. Enquanto uma mula entretém a polícia, o restante do grupo desembarca sem maiores problemas e segue para o local de entrega da droga. Esse é apenas um dos obstáculos que Maria terá que vencer em terras norte-americanas. Nas mãos dos bandidos, os intermediários sofrem maus tratos e precisam ficar alguns dias com eles até expelirem todos os pacotes. Nesse ambiente de constante tensão, a adolescente acaba se arrependendo após descobrir que Lucy (Guilied Lopez), outra “laranja”, foi violentada e morta depois que um dos embrulhos estourou dentro de sua barriga. A partir deste fato, começa o segundo ato quando Maria e Blanca (Yenny Paola Veja), sua fiel amiga desde a viagem de avião, decidem fugir e ir procurar a família da colega falecida se enrolando em um emaranhado de mentiras para garantirem abrigo e se livrarem dos bandidos que estão à caça delas.
Foi o próprio Marston que roteirizou seu primeiro longa-metragem após realizar uma pesquisa de campo no Equador e na Colômbia para ver de perto como funciona este esquema de tráfico. Com esta experiência ele pôde comprovar as gritantes diferenças entre os países de primeiro e terceiro mundo quanto as questões sociais, econômicas e políticas, motivos que levam principalmente os povos latinos a buscarem atividades ilícitas para sobreviverem. Visualmente ficam claras as deficiências do território colombiano, porém, o ambiente americano não é retratado de forma muito diferente. Se a sujeira, a pobreza e a tristeza são expostas de forma nua e crua por países abaixo da linha do Equador (o cinema brasileiro também faz questão de vez ou outra reforçar tal visão), na terra do tio Sam tais mazelas também existem, mas são acobertadas por construções que podem não ser luxuosas, porém, é o sonho de consumo de quem vive em casebres de madeira ou de barro. É justamente a imagem bonita e esplendorosa que a maioria das produções hollywoodianas vende a respeito dos EUA que iludem muitos latinos a buscarem melhores condições de vida por lá, mesmo que o passaporte seja conquistado através de crimes. A maioria faz uma única e arriscada travessia e se fixam por lá conquistando trabalho como empregados domésticos ou no comércio, mas muitos fazem várias vezes a travessia do contrabando acreditando que sempre a sorte estará do lado deles. Marston, antes jornalista, estreou muito bem no cinema de ficção, mas conseguiu um resultado disfarçadamente documental. Sim, ele não se entrega aos melodramas no estilo das novelas latinas e conseguiu filmar uma obra um tanto realista e com interpretações bastante naturais, o que o credenciou a receber honras e prêmios em diversos festivais. Nem mesmo o falso glamour dos EUA bate ponto aqui, pois o diretor optou por centralizar boa parte das cenas nas regiões menos favorecidas do país, assim reforçando o tom crítico e verídico.  Voltando a ideia exposta no início do texto, o título Maria Cheia de Graça aliado a imagem que se tornou símbolo da produção permitem várias interpretações, desde a coincidência do nome da personagem principal com a de um símbolo religioso até mesmo a dependência das drogas dos povos mais ricos em comparação ao fervor religioso (leia-se catolicismo) tão característico dos latinos. Certamente um trabalho que merece atenção e que os brasileiros se identificarão facilmente, afinal quantos de nossos irmãos de pátria já não fez o mesmo que Maria em busca do famigerado sonho americano da riqueza para todos?
Drama - 101 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Gilberto Carlos disse...

Um filme muito comentado sobre o contrabando de drogas. Bom!

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