sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ENCONTRO DE AMOR

NOTA 5,0

Longa recicla a fórmula do
romance entre a garota pobre
e o homem rico, mas no fundo é
mais do mesmo e com falhas
O velho e conhecido conto da “Cinderela” escrito em meados do distante século 17 pelo francês Charles Perrault continua sendo uma fértil fonte de inspiração para o cinema, mesmo em tempos em que tal história já foi contada e recontada das mais variadas formas por todos os cantos do mundo seja em forma de peças teatrais, programas de TV e até mesmo releituras literárias. O problema é que cada vez que o texto ganha uma nova versão mais batido o tema fica, porém, as comédias românticas contemporâneas adoram requentar a fórmula da garota pobre que se apaixona por um homem rico e até o avesso dessa relação (o rapaz humilde conquistando uma ricaça) já está se tornando saturado no mundo cinematográfico. Produtos do tipo não costumam gerar bilheterias exorbitantes, mas contam com um público cativo e fiel que adora assistir um filme já sabendo como ele terminará, comprovando que não são apenas as crianças que gostam de ouvir repetidas vezes a mesma história. Encontro de Amor é mais uma comédia romântica a investir na citada fórmula previsível, mas que hoje já pode se dar ao luxo de contar com o status de clássico estilo sessão da tarde. Nada mais apropriado para uma produção leve, descontraída e que agrada crianças e o público feminino, mas os homens também podem se entreter desde que entrem no espírito do programa, ou seja, cérebro desligado e embarcando sem preconceitos nesta história de uma das primeiras Cinderelas representantes do século 21. O repúdio ou o envolvimento imediato dos espectadores é intimamente ligado com a sensação “já vi esse filme”, e isso não é por acaso. O argumento original é do finado John Hughes, criador de populares sucessos do passado destinados a entreter a todas idades como Curtindo a Vida Adoidado e Esqueceram de Mim, mas no trabalho em questão ele deixou as peripécias e anarquias infanto-juvenis de lado para mergulhar de cabeça em uma piscina de água com açúcar, porém, o material acabou tendo o roteiro desenvolvido por Kevin Wade, que pouco antes havia feito sucesso com o texto de Encontro Marcado.  O pupilo soube fazer a lição de casa direitinho e nem mesmo o clichê da protagonista trocando de roupa várias vezes até encontrar o modelito perfeito para viver sua noite de sonhos foi descartado. A trama gira em torno de Marisa Ventura (Jennifer Lopez), uma mãe solteira que mora em Nova York e como tantas outras latinas trabalha como camareira em um dos mais famosos e requintados hotéis da cidade. Um dia ela é incentivada por uma colega de trabalho a provar as roupas de uma hóspede muito rica, Caroline Lane (Natasha Richardson), e graças ao seu filho Ty (Tyler Posey) a vida de Marisa está prestes a sair da monotonia por causa de um encontro inesperado que o garoto inocentemente provoca.

A Cinderela neste caso não está trajando um vestido de baile e tampouco os famosos sapatos de cristais, mas bastou uma roupa de grife e com bom corte para que a jovem simplória sem querer fizesse sua própria mágica. Confundida com uma mulher bem sucedida e com posses, ela acaba chamando atenção do candidato a senador Christopher Marshall (Ralph Fiennes) que acaba de se hospedar no prédio. Ambos se apaixonam a primeira vista, mas não será nada fácil para a funcionária do hotel esconder sua verdadeira identidade até porque ela está de olho em uma vaga para gerente e uma confusão com alguém importante jogaria sua reputação por água abaixo e até poderia colocar seu emprego como camareira em risco. Então rola fuxico aqui, outro ali, uma escapadinha rápida para flertar com o hóspede e entre muitos mal entendidos e planos previsíveis para esconder a verdadeira identidade não é preciso ter vara de condão para descobrir qual será o destino desta gata borralheira moderna. Mesmo sabendo de antemão como tudo termina, ainda há quem acredite que tal receita funciona como o cineasta oriundo de Hong Kong Wayne Wang, que já havia experimentado fazer cinema nos EUA com o simpático Em Qualquer Outro Lugar, que recrutou a rainha dos romances açucarados para dar vida (e curvas) a protagonista de sua visão romântica da clássica história de amor que tem como principal impasse as diferenças de classes sociais que englobam não apenas a conta bancária e o patrimônio de cada um da relação, mas também pesam os hábitos, postura, cultura entre tantos outros pequenos problemas. Jennifer é conhecida por sua beleza e certo talento para a música, mas sempre tem suas atuações massacradas pela crítica, porém, é preciso ressaltar que não há muito que ela fazer com roteiros tão simplórios em mãos, mas a própria parece não fazer muita questão de ousar no campo das atuações. Em time que está ganhando... De qualquer forma, neste caso ela se sai melhor que seu parceiro de cena. Reconhecido por papéis dramáticos e geralmente aliar seu nome a projetos mais refinados e com pedigree para concorrer a prêmios, a escalação de Fiennes para este trabalho surpreendeu muita gente. É nítido que o ator nem de longe interpreta um príncipe encantado, mas a falta de empatia que seu personagem causa no público tem como justificativa a comédia romântica ser então um gênero novo para ele, portanto é natural que Fiennes pareça pouco a vontade. Alguns podem elogiar sua maneira mais contida de interpretar o mocinho da fita contrapondo-se aos tipos atrapalhados, boa-praça ou metidos a conquistadores que infestam projetos do tipo, mas Fiennes parece muito frio perto de Jennifer que esbanja seus predicados latinos, algo que o roteiro enfatiza sem nunca descambar para o vulgar. As diferenças no jeito de atuar acabam contribuindo para que o casal funcione, pois ajudam a reforçar as diferenças entre a mulher do povo e o homem da nobreza. Todavia, o melhor personagem do longa deve ter ficado com o pequeno Tyler Posey que vive o filho da camareira e que cativa com sua espontaneidade. Só é uma pena que crianças que despontam como grandes revelações sumam do mapa rapidamente ou se levam a carreira adiante acabam sendo manipuladas até que suas interpretações percam toda a veracidade.

Apesar de uma história óbvia, Wang não quis entregar tudo de mão beijada logo de cara. Para ficarmos a favor da protagonista, mais ou menos 20 minutos iniciais são gastos apresentando a personagem Marisa, o seu universo, mas as coisas se desenrolam de forma equivocada. Além de um discurso superficial e clichê sobre diferenças de classes sociais, ainda existe tentativas frustradas de mostrar o cotidiano conturbado da camareira, como lidar com a ausência do ex-marido que vira e mexe frustra o filho com visitas e passeios que não cumpre, mas a certa altura simplesmente esse problema não é mais mencionado e o próprio pai de Ty nem chega a aparecer na trama. Até o tal conflito de classes não chega a ser bem elaborado, ficando mais latente que o rápido e previsível rompimento do casal principal pouco antes da reta final foi devido ao sentimento de ser enganado vivido por Marshall, este que ainda merece um puxão de orelhas por não parecer alguém disposto a brigar por uma vaga na política, mais um ponto que poderia ser explorado pelo roteiro afinal é de conhecimento de todos que a imagem de um candidato conta muito para sua vitória, assim como uma bela e respeitável mulher como seu par também ajuda a angariar votos. Se o perfil e as tramas dos protagonistas ficam só no feijão com arroz, mas sem direito a farofa, ao menos o longa conta com bons coadjuvantes. Além do relevante trabalho do caçula do elenco já comentado, temos ainda os sempre competentes Bob Hoskins e Stanley Tucci respectivamente como Lionel Bloch e Jerry Siegel, um mordomo do hotel e um assessor do político. Apesar de muitos ganchos desperdiçados, Encontro de Amor não é um filme de todo ruim, pelo contrário, no conjunto ele até rende uma boa sessão da tarde sem compromisso como já dito. A imagem de mediocridade da fita que tantos fazem questão de perpetuar se deve, além do óbvio preconceito que a senhorita Lopez sofre, ao fato do roteiro ser preguiçoso e previsível, algo comum e aparentemente até apreciado no gênero, portanto não configurando um problemão para seu público-alvo. De qualquer forma, uma produção que na época do lançamento tinha um ponto de atenção interessante: acompanhar uma história leve e romântica que se desenrola em uma cidade que poucos meses antes vivenciou um dos fatos mais lamentáveis dos últimos tempos. Este foi um dos primeiros trabalhos a captar imagens de Nova York após a queda das Torres Gêmeas que eram um dos cartões-postais da cidade. Vendo por esse lado, até nos esquecemos de qualquer problema que o filme tenha e embarcamos facilmente no romantismo manipulado que Hollywood sabe fazer tão bem. E os americanos estavam ávidos por essa magia, pelo menos é o que justificaria a polpuda bilheteria que o longa arrecadou só somando as cifras arrecadadas em sua terra natal.

Comédia Romântica - 105 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Luís disse...

O simples fato de ser a Jennifer Lopez a protagonista não me anima. Os poucos filmes que eu vi com ela me frustraram e não acho que seria diferente com esse filme, que já naturalmente parcee ruim.

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