terça-feira, 10 de julho de 2012

ED TV

NOTA 7,0

Um cara simples vira um
ídolo da noite para o dia
em um reality show onde as
armações ditam as regras 
Você acha que a Hollywood atual está sofrendo uma crise de criatividade? Bem, no final da década de 1990 as coisas não eram diferentes, mas um estranho fenômeno acontecia. Ficamos sabendo definitivamente que as coincidências existem sim ou na pior das hipóteses que a espionagem cinematográfica é um fato consumado. Tentando inovar com projetos grandiosos ou originais, alguns estúdios acabaram sendo surpreendidos por produtos muito semelhantes lançados por seus concorrentes em período muito próximo. Entre estas felizes ou infelizes coincidências, dependendo do ponto de vista, surgiram dois filmes que se arriscaram a tratar de um tema na época ainda muito enraizado na cultura americana e praticamente desconhecido no resto do mundo: os realities shows. Ed TV é um deles. A história começa mostrando a disputa de duas pessoas influentes de um canal de TV que estão tentando emplacar um novo programa que possa tirar a empresa do ostracismo. A produtora Cynthia Topping (Ellen DeGeneres) cria uma atração revolucionária para manter a atenção dos espectadores: acompanhar diariamente o cotidiano de um cidadão comum e apresentar tudo o que ele faz durante 24 horas em horário nobre. O candidato escolhido é Ed Pekurney (Matthew McConaughey), um trintão solteiro que ainda vive com a família e é atendente em uma locadora de vídeo, perfil perfeito para retratar o sonho de qualquer pessoa: o cidadão comum que cresce na vida sem precisar fazer esforço algum, apenas curtindo seus quinze minutos de fama. A princípio ele curte intensamente seu sucesso, mas logo essa fama repentina torna a vida de Ed uma chatice. Conforme o tempo passa, o reality show começa a sofrer intervenções dos produtores que acabam atrapalhando a vida do protagonista, principalmente quando seus familiares esquecem que estão diante das câmeras a todo momento e começam a falar e a fazer o que não deviam. O rapaz também se desentende com seu grande amor, a bela Shari (Jenna Elfman), e a passa por maus e bons momentos na companhia de seu irmão Ray (Woody Harrelson).

Comprovando a crise de idéias no cinema no final do século 20, um ano antes O Show de Truman conquistou elogios e fama graças a um roteiro inovador, visionário e, obviamente, por contar com o astro Jim Carrey pela primeira vez apostando em seu lado dramático. Tal filme até hoje é muito lembrado e desperta curiosidades, ao contrário do longa protagonizado por McConaughey lançado poucos meses depois e que naufragou nas bilheterias americanas e nem chegou a passar nos cinemas brasileiros, sendo lançado diretamente em vídeo. Ambas as histórias giram em torno de um reality show, mas as semelhanças acabam por ai. No filme de Peter Weir, Carrey é o protagonista de um programa de TV desde criança, mas não sabia disso até a sua fase adulta. Já na produção assinada pelo diretor Ron Howard, o personagem principal sabe muito bem no que está se metendo quando aceita participar de um pretensioso show de realidade. No início a idéia de acompanhar o cotidiano de um Zé ninguém não empolga o público, mas a partir do momento em que ele se apaixona pela namorada do irmão os índices de audiência passam a subir, ainda mais quando a produção do programa intervém e contrata uma modelo para dar em cima do protagonista, estratégia que aniquila a idéia do show da realidade para se transformar em um vale-tudo pela audiência. Enfim, este filme roteirizado pelo próprio Howard contém todos os elementos que nos anos seguintes o mundo aprendeu ou foi coagido a compreender. Sejam celebridades ou anônimos confinados dentro de uma casa ou com a liberdade de ir e vir para onde quiserem desde que acompanhados de uma câmera, o fato é que o público se acostumou a acompanhar as desgraças ou as futilidades dos outros como um verdadeiro espetáculo. Todavia, é interessante assinalar que esta comédia não é um lixo como muitos podem pensar, pelo contrário, é uma obra leve, divertida e até certo ponto crítica afinal sobram piadas até para empresas reais cujos produtos também fazem a cabeça dos populares, como a Coca-Cola.

Mesmo com as melhores das intenções, principalmente quanto a contundente crítica à invasão de privacidade promovida pelos realities shows que transformam qualquer anônimo sem nada a dizer em celebridade instantânea, contudo, Howard não conseguiu criticar a massificação de maneira integral afinal de contas algumas engrenagens da indústria cinematográfica só funcionam graças ao investimento de grandes corporações que por sua vez só podem ceder essa ajuda se o que oferecem aos consumidores for sucesso de vendas. Uma coisa puxa a outra. Curiosamente, enquanto O Show de Truman envelhece em boa forma e ainda sendo procurado em locadoras e para venda, Ed TV vive no ostracismo. Mesmo quando seu diretor conquistou o Oscar por Uma Mente Brilhante na mesma época em que os realities shows começavam a bombar no mundo todo não houve uma exploração adequada do título. Essa é uma injustiça que deveria ser corrigida. Claro que não é a melhor comédia já feita, mas garante boas gargalhadas e deve agradar aos fanáticos por realities shows, pois verão nada mais nada menos que uma recriação do show de marionetes que estão acostumados a assistir pela TV nos mais diversos formatos e idiomas. Uma última curiosidade: grande parte do elenco teve sua vida real devassada pela mídia alguns anos antes das filmagens, incluindo o protagonista. É a arte imitando a vida nesta obra que ironicamente tanto quis criticar a massificação dos meios de comunicação que acabou sendo vitimada e não consumida em grande escala pelo público.

Comédia - 122 min - 1999 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

carduinlovemoreno disse...

ed tv é realidade crua dos realitys show, porque as pessoas gostam tanto de saber da vida alheia? Se em suas proprias vidas a maioria passa como mero expectador? Recomendo tem roteiro forte... e persuasivo!

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