segunda-feira, 23 de julho de 2012

EU QUERIA TER A SUA VIDA

NOTA 5,0

Troca de corpos de trintões
tenta dar um gás a tema
batido, mas desliza ao
optar por um humor chulo
Dizem que na televisão nada se cria tudo se copia, mas tal ditado anda caindo como uma luva também para o cinema. O tema troca de corpos já foi aplicado há inúmeras comédias no melhor estilo sessão da tarde e nos últimos anos com a escassez de idéias parece que produtores e diretores encontraram na fórmula batida uma maneira de sobreviver. O mote de duas pessoas insatisfeitas que trocam de corpos, ou melhor, de personalidade em um passe de mágica e que assim passam a dar mais valor ao seu próprio modo de viver e compreender o do outro já rendeu até mesmo em terras brasileiras. Se Eu Fosse Você e sua continuação não fizeram mais nada que adaptar um conteúdo cinematográfico tipicamente hollywoodiano para algo mais próximo da nossa realidade e os resultados foram fantásticos talvez pelo ineditismo da iniciativa pela raquítica indústria de cinema local que busca enfrentar gigantes nas bilheterias. As situações embaraçosas provocadas pelo desconhecimento das intimidades e a adaptação ao cotidiano do verdadeiro eu no corpo de outro rendem geralmente bons momentos, mas dificilmente surpreendem. Todos sabem que tal experiência transformará as pessoas que a vivenciaram em alguém bem melhor capaz de ficar feliz com as imperfeições de sua vida e a respeitar o modo como o outro segue sua trajetória, por mais que os meios sejam os mais depreciáveis possíveis. Quanto maior o contraste entre as personalidades a serem trocadas mais fértil deve se tornar a idéia de fazer humor através dos choques das diferenças. Em Eu Queria Ter a Sua Vida o diretor David Dobkin, de Penetras Bons de Bico, arriscou requentar a premissa, mas achou que buscando um humor mais adulto no estilo de Se Beber Não Case, dos roteiristas Jon Lucas e Scott Moore, os mesmos que assinam o texto deste projeto, conseguiria fazer um filme que se destacasse em meio a tantas produções semelhantes, porém, acabou realizando um trabalho irregular que tem alguns bons momentos, mas no geral mais constrange do que diverte. Parece que a intenção maior era parodiar esse tipo de produção que explora os conflitos de personalidade e caráter quando se está literalmente na pele de outro, mas roteiristas e diretor foram preguiçosos e exageraram na dose de escatologia e apelo sexual.

Mitch (Ryan Reynolds) é um solteirão que conquista as mulheres com sua beleza e lábia, trabalha como ator em produções duvidosas, mas em compensação tem bastante tempo livre para fazer o que quiser. Ao contrário da promiscuidade e vagabundagem do amigo, Dave (Jason Bateman) é um advogado de prestígio, tem uma vida financeira confortável, é casado, tem três filhos, mas não curte sua vida como queria por sempre estar as voltas com a rotina do trabalho e da família. Este homem responsável tem certa inveja do estilo de vida de Mitch e este, por sua vez, gostaria de ser um cara bacana como o amigo, respeitado, com estabilidade financeira e uma esposa amorosa, algo difícil de crer que seja o sonho de um cara que parece curtir a pinta de eterno garotão. Ambos desejam secretamente a vida um do outro e certa noite, após uma bebedeira, seus desejos se realizam, mas de maneira diferente do que planejavam, a começar pela forma como a mágica acontece. Urinando sobre uma fonte em espaço público ambos dizem ao mesmo tempo a simbólica frase “eu queria ter a sua vida”. Em seguida um blecaute ocorre e quando eles se dão conta um foi parar no corpo do outro e agora terão que lidar com situações até então incomuns tanto profissionais quanto pessoais. O regrado Dave, por exemplo, terá que se virar para atuar em um filme soft para adultos e até tentar realizar os desejos de uma grávida assanhada. Enquanto isso Mitch terá que fechar um importante negócio com uma empresa japonesa e tentar segurar seus instintos para respeitar a mulher do amigo. Seguem-se então tiradas espertas alternadas com piadas grosseiras que causam risos involuntários como a cena em que Jamie (Leslie Mann), a esposa de Dave, aparece toda sensual e rebolativa para logo depois acabar de maneira bizarra com a alegria de Mitch que na carcaça do amigo estava em êxtase pensando que finalmente realizaria uma de suas maiores fantasias sexuais. Para ele o ditado “mulher de amigo meu é homem” não cola.  
Seguindo a tendência das comédias feitas por homens de meia idade e para agradar público idem, além é claro das mulheres, mais uma vez temos aqui adultos infantilizados aprendendo na marra que amadurecer implica responsabilidades e renúncias de algumas coisas, uma lição que já foi aprendida, por exemplo, por Owen Wilson em Passe Livre dirigido por Bobby e Peter Farrelly. Aliás, o longa de Dobkin guarda até certas semelhanças com o filme citado dos irmãos cineastas. Além do viés do marmanjão ganhando um tempo para viver tudo aquilo que não podia mais pelas implicações e preconceitos da idade e das cenas mais ousadas, claro que aqui não falta uma conclusão com teor moralista. Após quase duas horas em que o espectador pode imaginar o quanto poderia ser divertido viver uma rotina diferente da sua lá vem as cenas finais com um belo discurso para em resumo dizer que nada melhor que sermos nós mesmos e aceitarmos os caminhos que a vida e/ou cada um projetou para si mesmo. É importante ressaltar que o enredo enfoca muito mais a rotina de Dave tanto quando ele está em seu próprio corpo como quando ele está habitando o do amigo, uma maneira sutil de injetar exaltação aos valores morais em meio ao anarquismo ao mesmo tempo em que mostra que um personagem sem bagagem emocional e histórico de vida como é Mitch só serve mesmo para encher linguiça afinal, logo pelas suas primeiras cenas, ninguém pode ter a esperança de que o cara não é um bom vivant que precisa de um esculacho para acordar para a realidade. Todavia Reynolds interpreta seu personagem com competência, mas Bateman ainda se sobressai, embora sua presença em mais uma comédia nos passe a idéia de limitação de talento ou medo de ousar e experimentar coisas novas. O fato é que pela narrativa em si Eu Queria Ter a Sua Vida não vale muita coisa, mas pela vibração e trabalho conjunto de seus protagonistas a coisa muda de figura tornando-se interessante a sucessão de fracassos de cada um até que eles chegam à previsível conclusão de que nada melhor que sua vida anterior. Final revelado? Alguém esperava algo diferente? O importante é acompanhar o desenrolar dessa troca de personalidades que poderia ser aprofundada revelando a adaptação do certinho que tem a chance de ser solteiro novamente e ficar de pernas pro ar e a do garanhão que agora precisa tentar ser temporariamente um chefe de família e um profissional exemplar. Optaram pelo caminho mais curto e descartável para prender o espectador: palavrões, nudez e escatologia, infelizmente um vício das comédias hollywoodianas.
Comédia - 112 min - 2012 - Dê sua opinião abaixo.

3 comentários:

Luís disse...

Parece péssimo esse filme, só me daria ao trabalho de vê-lo porque Ryan Raymonds é bonito.

Mateus Leite disse...

Achei um saco esse filme. Uma das piores comédias do ano passado.
mateus-leite.blogspot.com

Gilberto Carlos disse...

Acho que esse tema de troca de personalidades já foi abordado tantas vezes no cinema que não sei se ainda consegue me agradar.

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