domingo, 1 de julho de 2012

LIVRANDO A CARA

Nota 7,0 Co-produção entre EUA e China, longa aborda assuntos tabus de forma despretensiosa

Filmes asiáticos podem ser definidos como obras contemplativas, emotivas ao extremo, com conteúdo melancólico ou, em linguajar popular, produções chatas e desinteressantes. Sim, infelizmente é essa imagem pessimista que a maioria das pessoas tem do cinema produzido em países da Ásia, salvo alguns épicos de artes marciais que por um acaso do destino acabaram caindo no gosto do público adepto de filmes mais comerciais. Contudo, se você também pensa dessa forma talvez o longa Livrando a Cara o faça mudar de ideia. Esta é uma comédia romântica atípica para a cinematografia oriental ou ao menos destoa bastante do que estamos acostumados a assistir daquelas bandas. Rotineiramente acompanhamos histórias de mulheres submissas ou exímias lutadoras em produções asianas, mas nesta obra temos em cena personagens femininos com conflitos dramáticos bem interessantes, tabus que se no mundo ocidental já são tratados na base dos panos quentes imagine em países cuja tradição da subordinação de um sexo ao outro extrapola séculos. A trama começa nos apresentando Wilhelmina Pang (Michelle Krusiec), ou simplesmente Wil, uma jovem médica-cirurgiã muito dedicada ao trabalho, mas praticamente sem vida social. Nas poucas chances que têm para se divertir ela acaba indo em um salão de dança que também é frequentado por seus familiares que não perdem a chance de tentar lhe arranjar um namorado, mas a praia dela é outra. Certa noite ela conhece no baile Vivian Shing (Lynn Chen), uma jovem bailarina que lhe desperta interesse. Elas voltam a se reencontrar em outra ocasião por acaso e Wil então tem a certeza que sua paixão é correspondida. As duas começam a namorar as escondidas, quer dizer, para Vivian o relacionamento é totalmente sério e ela não tem vergonha de revelar sua predileção por garotas a quem quer que seja, mas sua companheira é mais reticente, o que acaba abalando a união, ainda mais pela falta de tempo de Wil para se dedicar ao namoro. Paralelo a isso, a jovem médica tem que lidar com outro problema. Sua mãe, “Ma” Hwei-Lan Gao (Joan Chen), uma viúva quase cinquentona, vai morar com ela após ser expulsa de casa pelo pai (Jin Wang) que não aceita a sua tardia e inexplicável gravidez. Seu retorno só será permitido caso ela se case novamente para honrar o nome da família.

Lesbianismo, liberalismo e gravidez tardia. São pontos bastante polêmicos a serem tratados, mas a diretora e roteirista Alice Wu tira de letra o desafio mesclando em doses certas humor e drama para tecer uma narrativa no estilo das comédias independentes americanas, aquelas sobre famílias disfuncionais que por trás de tanta anormalidade nos fazem refletir se ser feliz é respeitarmos nossas vontades ou atender convenções, ser apontado como um maluco de bem com a vida ou um certinho melancólico. Produzido por uma companhia bancada pelo astro Will Smith, este filme foi realizado graças a um prêmio em dinheiro oferecido por um grupo de empresários que costumam patrocinar produções americanas e asiáticas. A cineasta fez jus à concessão que recebeu trabalhando com uma história que se passa em território americano e que divide os holofotes com uma comunidade chinesa local, uma espécie de grupo étnico que procura preservar as tradições de seu povo em solo alheio. Parte da trama tem um quê de autobiografia com Alice relembrando alguns fatos que precisou enfrentar quando decidiu se assumir como lésbica, o que justifica o acentuado lado dramático da produção. Embora com um ritmo um pouco lento, a narrativa é pontuada por momentos típicos de comédias românticas, aqueles velhos clichês que o cinema de Hollywood ensinou. Temos a clássica cena da mulher madura e correta que se sente tentada a assistir um filme adulto quando se vê livre de amarras, a saia justa da visita da namorada passando-se como uma simples amiga, mais uma vítima potencial para a inocente sogra bombardeá-la com perguntas íntimas, e as tentativas da filha desesperada para conseguir um namorado para a mãe e assim finalmente reconquistar sua almejada liberdade. Com algumas poucas cenas de intimidade entre Wil e Vivian, mas nada realmente constrangedor, Livrando a Cara é uma agradável opção para fugir da mesmice, seja evitar ver os mesmo rostinhos bonitos de sempre das comédias ianques ou fugir dos épicos orientais dos tempos imperiais. Se a China já a algum tempo é um país reconhecido por seu apreço pela  modernidade, nada mais natural que isso se reflita em sua arte cinematográfica também, mesmo que seja uma co-produção.

Comédia romântica - 96 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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