quarta-feira, 18 de julho de 2012

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA

NOTA 9,0

Um pouco da história de um
pintor é revelada através de
especulações acerca de uma
de suas mais famosas obras
O cinema sempre encontrou na vida de artistas plásticos uma rica fonte de inspiração, afinal são vários os casos de pintores que viveram de forma excêntrica, embebidos em um clima boêmio, sofrendo decepções amorosas ou com doenças e até mesmo tendo uma morte um tanto dolorosa ou curiosa. Filmes sobre a trajetória de consagrados pintores geralmente são comuns, mas talvez recriar, mesmo que em partes, a vida deles através de uma de suas obras é um tanto curioso, ainda mais quando o nome em questão não é muito famoso mundialmente. Esse é o caso de Moça com Brinco de Pérola que recria a vida, ainda que enfocando determinado período, do pintor holandês Johannes Vermeer a partir de uma de suas obras que também dá título ao filme. O artista é pouco conhecido, ao menos no Brasil, mas essa ausência de informação só torna a experiência de assistir a esta produção ainda mais interessante, pois a acompanhamos sem fazer pré-julgamentos. Sem saber qual o movimento artístico ao qual ele pertence e tampouco sobre suas inspirações, o que uma de suas obras poderia transmitir sentimental ou intelectualmente? Certamente é essa indagação que levou o diretor Peter Webber, então estreando com o pé direito no cinema, a se interessar pelo romance de Tracy Chevalier que se baseia em uma história verídica, porém, faz questão de lembrar que traz a tona os fatos parcialmente. Resumidamente o enredo é uma especulação acerca da dúvida de quem seria a garota com olhar e sorriso enigmáticos que aparece no tal quadro que intitula o filme. A pintura é considerada por alguns estudiosos da área como o equivalente para a cultura holandesa o que a “Monalisa” representa na História da arte italiana. A biografia de Vermeer também é envolta em segredos e poucos sabem algo de sua vida e até mesmo sobre seu trabalho. Aliás, quase a metade do número estimado de suas telas permanece desaparecida. Sendo assim, o longa, tal qual o livro, apóia-se em suposições baseadas em estudos sobre a época, mas as afirmações não podem ser consideradas totalmente verídicas, um fato que não trabalha contra o próprio filme, pelo contrário, instiga ainda mais o espectador a procurar conhecer mais sobre o criador e sua arte. 

A trama se passa no século 17 em Delft, na Holanda, quando a camponesa Griet (Scarlett Johansson) é obrigada a deixar sua casa para ir morar com a tumultuada família do artista plástico Johannes Vermeer (Colin Firth). A residência é habitada pela avarenta Maria (Judy Parfitt), que nunca deixa de vigiar a vida da filha Catharina (Essie Davis), a mãe dos vários filhos do artista. Em seu estúdio, o pintor trabalha arduamente com pintura em tela, mas leva meses para completar cada encomenda, fato que dificulta a situação financeira da família. O artista passa a sentir apreço pelo trabalho da nova criada e ela se revela apta para auxiliá-lo em seu ateliê. O pintor começa a lhe ensinar noções de pintura, mas as aulas na verdade são pretextos para os dois passarem mais tempo juntos. Conforme cresce o interesse do rapaz pela moça, também aumentam os ciúmes de sua mulher. Griet também atrai a atenção do rico Van Ruijven (Tom Wilkerson), com quem Vermeer negocia seus trabalhos, e Pieter (Cillian Murphy), o filho de um açougueiro que a corteja de forma tímida. Ruijven faz ao pintor uma encomenda sedutora: pede que ele faça um retrato de Griet. Gananciosa, Maria autoriza o trabalho sem pensar que isso alimentaria o ciúme da própria filha. A jovem criada, por sua vez, aceita posar para o quadro, mas resiste a tentação e acaba vivenciando suas vontades carnais com Pieter. A essa altura o artista e sua musa inspiradora estão entregues emocionalmente um ao outro, porém, tal intimidade crescente desperta inveja e brigas, podendo tornar-se um escândalo familiar que ultrapassasse os limites das paredes da casa.  Esta produção tem como uma de suas marcas o tom intimista e as emoções contidas. Os protagonistas não precisam vivenciar uma cena de beijo ou um toque corporal mais íntimo para percebermos que há sentimento entre eles. Tudo é transmitido através de gestos, olhares e expressões faciais que alcançam êxito graças a química existente entre Scarlett e Firth que não precisam nem falar muito para tornar crível esta relação que não chega a ser platônica, porém, jamais vivenciada em sua plenitude. A atriz recebeu muitos elogios pela atuação e dividiu os holofotes consigo mesma pelo seu trabalho em Encontros e Desencontros em um ano em que despontava ao estrelato, mas o Oscar a ignorou assim como faz até hoje. Por outro lado, a interpretação contida do ator inglês, fartamente caracterizado para o papel, recebeu algumas críticas negativas, certamente vindas de pessoas que não conseguiram adentrar na atmosfera do longa. E olha que recursos para auxiliar nessa imersão é o que não faltam. Cenários, figurinos, fotografia e trilha sonora caprichados são de praxe em produções de época, mas quando o assunto principal envolve o mundo das artes plásticas o requinte e cuidados são ainda maiores e isso fica evidente aqui. A bela reconstituição cenográfica faz um retrato da Holanda em 1665 e a direção de fotografia teve a delicadeza de procurar dar a cada cena um aspecto de pintura usando os mesmos tons de cores que causam os efeitos de luz e sombras nas obras de Vermeer.

Merecidamente indicado a três Oscars técnicos (fotografia, direção de arte e figurinos), ressaltando a excelência da parte visual, Moça com Brinco de Pérola não foi feito para ser apreciado por platéias numerosas, o que fica claro pela narrativa intimista, mas isso não significa que ele é um produto destinado apenas para a elite. Qualquer pessoa pode se reeducar e afinar seu gosto cinematográfico, porém, para tanto é necessário vencer preconceitos e se entregar à história em questão. O enredo pode parecer simplório, inclusive com pitadas fortes de referências ao conto da Cinderela, obra do roteiro de Olivia Hetreed, mas esconde por trás de seu verniz questões relevantes, como toda a pressão que o pintor sentia dentro de sua própria casa, já que sua família só considerava seu trabalho quando ele rendia dinheiro, e até da própria sociedade, no caso de não poder viver sua vida da maneira que desejava para não afrontar convenções. No fundo, esta é mais uma versão materializada do sentido do ditado “os opostos se atraem”. Vermeer é um homem das artes, mais velho, tem o intelecto mais desenvolvido, tem posses financeiras medianas e é respeitado na sociedade. Griet é pobre, muito jovem, sem estudo, não conta com apoio familiar e nas ruas praticamente passa despercebida, no entanto, sua inexplicável sensibilidade para alquimias de cores ou descobrir a melhor angulação para pintar a aproxima do artista, ao contrário da esposa do mesmo que cada vez parece mais distante e indiferente ao seu trabalho. Em outros tempos, Griet e Vermeer poderiam ter vivido o amor como amantes, mas naquela época as diferenças de classe, de cultura e até de religião impossibilitaram essa resolução, apesar de que só os mais corretos respeitavam fielmente essas convenções. Para finalizar, é impossível não destacar a cena final quando é feita uma fusão entre a imagem da serviçal posando para o quadro e a obra original. Sem dúvidas um deleite para os amantes de arte e cultura.

Drama - 99 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

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