terça-feira, 31 de julho de 2012

O NEVOEIRO

NOTA 9,0

Apesar do estilo trash, longa
coloca em discussão um tema
importante e tem um final
de dar nó na garganta
Stephen King é praticamente uma grife cinematográfica. Muitas de suas obras, geralmente ficções ligadas aos gêneros terror e suspense, já foram adaptadas para as telonas, mas nem sempre de forma bem sucedidas. Febre literária nos anos 80 e 90, as obras do autor chamaram a atenção até mesmo dos comitês de premiações que não deixaram passar despercebidos os lançamentos de Um Sonho de Liberdade A Espera de um Milagre, por exemplo, trabalhos com veias dramáticas e profundas. Todavia, nos últimos anos King não tem tido sorte ao ceder os direitos de seus livros para produtoras de filmes e até a mídia já está mais fria em relação ao seu nome. Sendo assim, um bom projeto com sua assinatura nos créditos praticamente passou em brancas nuvens. Podemos dizer que O Nevoeiro é um filme B com pedigree. O diretor e roteirista Frank Darabont, o responsável pelas adaptações cinematográficas dos dois aclamados dramas do escritor já citados, desta vez recorreu a um conto que foi publicado no Brasil há décadas atrás no livro “Tripulação de Esqueletos” e arrancou elogios dos poucos que assistiram. Mas sempre há tempo para corrigir injustiças. Bem, nem sempre como fica comprovada na surpreendente conclusão deste suspense que termina melhor que o próprio conto que o originou. A história é desenvolvida quase que totalmente dentro de um único cenário, um supermercado, local onde um grupo de pessoas se refugia de um estranho e gigantesco nevoeiro. O problema é que tal efeito proveniente de uma tempestade esconde bizarras criaturas que parecem querer exterminar a humanidade. David Drayton (Thomas Jane) é um dos indivíduos que está enclausurado no local junto com o filho Billy (Nathan Gamble) e que acaba por liderar os planos de fuga e de enfrentar a névoa, porém, seu instinto de herói bate de frente com as ideias da Sra. Carmody (Marcia Gay Harden), uma fanática religiosa que com seus discursos apocalípticos acaba por fazer a cabeça de muitos e ajuda a aumentar o pânico. Dessa forma, uma verdadeira guerra é instalada dentro daquele espaço claustrofóbico entre as pessoas que desejam lutar pela sobrevivência e aqueles que simplesmente aceitam a ideia de morrer acreditando que essa é a vontade de Deus e que não se pode contrariá-la. É justamente nesta inversão do medo que reside a força desta produção. O que amedronta mais está dentro ou fora do mercado?

Deixando os monstros como coadjuvantes, Darabont acerta ao jogar o foco de sua produção em um estudo sociológico e psicológico no qual acompanhamos a degradação do ser humano passo a passo conforme o medo do desconhecido toma conta de todos, ainda mais quando não há para onde ir. Claro que uma ou outra cena sanguinolenta existe para provar que enfrentar o nevoeiro é extremamente arriscado e até criaturas esquisitas surgem para aumentar ainda mais o pânico, mas o que mexe mesmo com os nervos dos espectadores é o caos dentro do mercado, afinal não há como fugir daquele espaço e há dúvidas se todos lá dentro são confiáveis. Dessa forma, este filme não se resume a um simples suspense conforme uma pequena sinopse pode indicar. Existe muito a observar e tirar proveito nesta produção e de quebra sem deixar de levar bons sustos. Desde o início, o roteiro já prende a atenção do espectador com situações bem alinhavadas e mesmo quando os monstros surgem do nevoeiro o filme não descamba para situações risíveis, ainda que os efeitos especiais sejam toscos. O cineasta acerta ao não nomear um ou dois personagens para serem protagonistas ou para realizar o velho duelo do mocinho versus o vilão. Bem, pelo menos não escancara tais opções. Aparentemente ele optou por criar grupos distintos de pessoas sem se preocupar em lapidar seus passados, mas obviamente cada um deles acaba tendo um líder natural, mas todos os personagens têm chance de aparecer. Sabendo o mínimo possível sobre eles, acompanhar a narrativa torna-se ainda mais interessantes, pois o inesperado pode acontecer na convivência de pessoas tão diferentes e a cada minuto a tensão aumenta. Entre os personagens temos pessoas corajosas, patéticas, frágeis, crianças, jovens, idosos, enfim um verdadeiro painel social para analisarmos das mais diversas formas como os seres humanos enfrentam o medo, mas a única certeza é que todos estão vulneráveis. Liderando o elenco está Thomas Jane enfrentando a religiosidade exagerada da personagem de Marcia Gay Harden. Ele ganha sua grande chance de provar que pode ser o carro-chefe de um filme e a aproveita muito bem enquanto sua colega afirma mais uma vez seu poder hipnotizante mesmo em papéis secundários, categoria na qual ela se destaca há tempos. Seu papel totalmente crível certamente deve causar a ira de fanáticos religiosos seja por considerarem uma interpretação caricata ou por a certa altura a beata ser alçada ao posto de vilã entre aspas.

Mexer com religião é sempre uma empreitada espinhosa, mas Darabont é fiel ao conto e não se acanha ao escrever diálogos que induzem as pessoas a acreditar que a aparição de misteriosos tentáculos e aves que parecem pré-históricas são nada mais nada menos que castigos divinos aos pecados dos homens. Em contrapartida, na boca de outros personagens as críticas à religião correm soltas e sobra até para a área política e de tecnologia, afinal nenhum poderoso poderia decretar o fim do pânico neste caso e até a arma mais sofisticada não adiantaria, pois o inimigo é desconhecido. Por outro lado, na hora do desespero um simples revólver apontado para um ser humano insano pode ser a salvação ou piorar tudo. A essas alturas, a insanidade já tomou conta de todos e fica difícil distinguir quem está certo ou errado. Nos últimos anos tem se tornado frequentes os filmes que enfocam o extermínio da humanidade deixando de lado os efeitos especiais e mantendo o foco em narrativas coerentes e alarmantes que colocam o comportamento humano como principal vilão seja qual for o fator desencadeante do estado de caos. O conto de King, embora escrito em meados dos anos 80, já trazia elementos que nos remetiam a tal ideia e seu texto foi potencializado pelas inserções de Darabont que melhoraram ainda mais o que já era bom. Na realidade o diretor presta uma homenagem ao escritor H. P. Lovecraft, um exímio pesquisador a respeito dos efeitos do sobrenatural na mente humana, cujos trabalhos influenciaram King. Mantendo os elementos tradicionais das histórias do “mestre do terror”, como a cidade pequena e aparentemente pacata do interior que é sacudida por algo inexplicável, o cineasta constrói uma narrativa com pouquíssimos deslizes e flertando com o estilo trash e o cabeça de fazer cinema. O Nevoeiro acerta praticamente em tudo e só por sua conclusão amarga e impactante merecia figurar entre os melhores títulos de suspense deste início do século, porém, sua fraca divulgação e apelo junto ao público pode estar no fato de ter sido lançado poucos anos depois do pavoroso A Névoa que é um remake do cult A Bruma Assassina que por sua vez é inspirado no mesmo conto de King. Neste gira-gira cinematográfico fique com a dobradinha King/ Darabont que oferece entretenimento de qualidade e com sustância. Uma última curiosidade: o cineasta John Carpenter se especializou neste tipo de filme-catástrofe e recebe uma homenagem no filme com a aparição do cartaz de um de seus filmes logo no início na casa de Drayton, o que para bom cinéfilo já é uma dica do que está por vir.
 
Suspense - 126 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.


 
 
 

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