domingo, 15 de julho de 2012

O PEQUENO NARIGUDO

Nota 8,0 Desenho russo resgata a simplicidade dos contos clássicos e da animação tradicional

Fundo do mar recriado com perfeição, brinquedos e robôs que agem como humanos, roedores com talento para a cozinha e até um ogro fazendo as vezes de mocinho das histórias. O campo da animação evoluiu demais nos últimos anos tanto em termos visuais quanto narrativos. Visando agradar crianças e adultos, os estúdios cada vez mais passaram a investir em animações com personagens e situações que flertam com o realismo, sendo possível sentir os pelos do corpo de um monstrinho e até mesmo sentir-se pilotando um carro de corrida em alta velocidade durante uma competição. Em meio a tantos atrativos mais antenados com a era tecnológica do século 21, ainda existe espaço para contos clássicos e animação tradicional? Bem, se um produto do tipo é oferecido pela Disney, por exemplo, hoje em dia é quase certo que a recusa é inevitável, mas quando tais produções vêm carimbadas com passaportes de países que não os EUA a aceitação pode ser mais fácil, o fator novidade ou raridade influenciam na receptividade. É uma pena que O Pequeno Narigudo não caiu nem mesmo no gosto do público adepto de obras alternativas. Após 40 anos sem investir em animações, a Rússia voltava a focar suas atenções no público infantil lançando em circuito comercial este simpático desenho que bebe na fonte de um singelo conto infantil alemão de autoria de Wilhelm Hauff datado do século 19. Em meados da Era Medieval, uma bruxa planeja conquistar o mundo, mas para tanto precisa da ajuda do garoto Jacob. Ele, filho de um humilde sapateiro, se recusa a ajudá-la quando ela surge em seu caminho disfarçada como uma bela mulher. Irritada, a feiticeira lança uma maldição sobre o garoto transformando-o em um rapaz corcunda feio e com um enorme nariz, além de deixá-lo preso em seu castelo por sete anos. Quando finalmente consegue sair de sua prisão, Jacob retorna à sua casa, mas descobre que a vida que tinha mudou drasticamente. Seu pai morrera de tristeza e sua mãe não o reconhecia mais. Sua vida volta a fazer sentido no dia em que ele salva um ganso e descobre que na verdade ajudou uma garota que também foi enfeitiçada. Ela é a Princesa Greta que foi sequestrada pela bruxa no momento em que tentava roubar o segredo de uma poção mágica do castelo do rei. Eles então se unem para desfazer os feitiços que os afligem e dar um jeito de barrar os planos da feiticeira.

Se a Disney, a grande fábrica de adaptações animadas de contos de fadas, na época não queria mais usar esse tipo de material o caminho estava livre para outras produtoras espalhadas pelo mundo aproveitarem para adaptar histórias clássicas e assim suprir as necessidades do mercado, mesmo que fosse para uso apenas doméstico, sem passar pelos cinemas. Infelizmente esse tipo de trabalho acaba não ganhando a devida atenção de investidores e distribuidores e assim o filme do diretor Ilya Maximov acabou sendo exibido no Brasil em um tradicional festival de animações e depois lançado discretamente em DVD. Claro que o estilo simplório do desenho e o roteiro ingênuo escrito por Alexander Boyarsky não teriam chances de competir de igual para igual com trabalhos de produtoras como a Pixar ou Dreamworks, mas faz bem assistir algo do tipo para relaxar do bombardeio de cores, piadas, citações e seres hiperativos que recheiam as animações atuais computadorizadas. O Pequeno Narigudo segue a tradição do estilo daquelas tantas fitas de pequenas distribuidoras que enchiam as prateleiras das locadoras nos tempos das fitas VHS e que brigavam por seu espaço com os mega lançamentos Disney, mas para ver sem grandes pretensões pode se tornar uma excelente opção. As crianças devem se divertir, as menores gostarem ainda mais por causa da semelhança da narrativa com textos clássicos de outras animações, e os pais, se forem persistentes, podem curtir o clima nostálgico do longa. A história é bem simples e usa uma fórmula já manjada dos contos infantis: a de seres encantados que precisam correr contra o tempo para se livrarem de alguma maldição e consequentemente do vilão que os enfeitiçou. Com um final previsível, a graça está na maneira de narrar a história, aqui com o diferencial de ser oferecido um pequeno contato com a cultura pouco difundida de um país diferente, algo que sem dúvida enriquece o trabalho. Mesmo clichê, é bom ver que existe um mercado de animação ativo em todos os cantos do mundo, ainda que ele seja tímido.
Animação - 82 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

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