terça-feira, 28 de agosto de 2012

ELEKTRA

NOTA 3,0

Personagem rico em conflitos
e personalidade é diminuído a
uma típica heroína de sessão da
tarde por exigências comerciais
Para boa parte dos brasileiros, com exceção daquela turma taxada de nerd, o mundo dos quadrinhos é repleto de mistérios. Existem os mais variados tipos de HQs, inclusive muitos que são destinados exclusivamente ao público adulto, mas sem dúvida os mais populares são aqueles protagonizados por super-heróis, embora no Brasil jamais tais publicações conseguiram o mesmo nível de repercussão que os simplórios traços e enredos de Maurício de Souza e sua Turma da Mônica. Todavia, para os aficionados, é totalmente compreensível a morte e o renascimento de seus ídolos e seus encontros com heróis e vilões pertencentes a outros universos, histórias contadas em revistas que as vezes nem chegam a ser lançadas por aqui, mas cujos originais valem ouro, ainda mais nestes primeiros anos do século 21, época em que a indústria dos quadrinhos viu seu prestígio ressurgir graças ao cinema, este, porém, sofrendo do mesmo mal que atingiu o mercado de tais publicações: a preocupação com o visual sobreponde-se a qualidade das histórias. Os longas baseados nas aventuras de heróis famosos e com apelo junto ao público infanto-juvenil até que conseguiram fazer fortuna e colher elogios, mas tudo que é demais enjoa e as vítimas desse excesso claramente foram os personagens menos conhecidos. Demolidor – O Homem sem Medo não foi o sucesso esperado e por aí já é de se estranhar as razões que levaram produtores a investir dinheiro em uma espécie de sequência não oficial. Elektra não traz de volta Ben Affleck, mas sim Jennifer Garner repetindo seu papel de ninja gostosa que curiosamente morreu em sua primeira aparição nos cinemas. Todavia, em Hollywood tudo é possível e como esta personagem feminina teve muito mais repercussão que o protagonista da aventura anterior, magicamente ela volta à vida por obra de Stick (Terrence Stamp), o líder de um culto cujos participantes são chamados de os Virtuosos e que travam uma guerra que já dura séculos contra o Tentáculo, uma organização de ninjas a serviço do mal. Ela recebeu treinamento baseado nas artes marciais e no uso de armas, no seu caso uma adaga especial, mas não se adequou ao estilo do grupo e acabou sendo expulsa pelo próprio homem que lhe ressuscitou, decidindo assim a tentar ganhar a vida como uma assassina profissional. Contudo, quando é contratada para Abby (Kristen Prout) e Mark Miller (Goran Visnjic), pai e filha, Elektra não aceita a missão, mesmo sendo eles os responsáveis por trazer a tona alguns traumas de sua infância, e passa a ajudá-los a fugir de seus perseguidores.

Então é assim. Simplesmente Elektra renasce e sai por aí matando as pessoas a torto e a direito? As coisas não chegam a tal ponto, sendo que os roteiristas Zak Penn, Stuart Zicherman e Raven Metzner tentaram preservar algumas das características da heroína dos gibis criada em 1981 pelo cultuado Frank Miller, todavia, quem conhece tais histórias deve sentir falta da explosividade e sanguinolência originais do quadrinho e a ausência total de apelo sexual, sendo que o envolvimento da ninja com seu protegido é extremamente frio. O grande problema talvez deste trabalho do diretor Rob Bowman, de Reino de Fogo, seja não conseguir nos minutos iniciais introduzir o espectador ao universo da protagonista. Praticamente somos arremessados em seu mundo ao logo de cara nos depararmos com uma cena de combate antecipada por um diálogo estranho, aliás, um mal que acompanha o longa até o fim por seus realizadores o levarem a sério demais. Aos poucos e de forma enfadonha vamos descobrindo os segredos de Elektra, uma mulher atormentada frequentemente por pesadelos do passado que remetem ao assassinato de sua mãe. Dependente de remédios para dormir, ela também leva uma vida solitária, mantendo contato apenas com um tipo de agente que lhe consegue trabalho, ou melhor, suas próximas vítimas. Embora seu treinamento com os Virtuosos fosse para fazer o bem e atingir a paz, ela não consegue domar sua fúria, porém, pouco a pouco seu lado sentimental aflora exageradamente. Se a heroína deixa a desejar, ao menos os seus inimigos são dignos e com poderes sobrenaturais interessantes, cada qual com uma característica própria. Os efeitos especiais já era de se esperar que seriam os grandes trunfos da produção, seguindo a linha de pensamento que literalmente uma imagem pode valer mais que mil palavras. Desde as tatuagens do corpo de um assassino que criam vida própria até as previsíveis sequências de combates, o empenho para causar impacto visual é visível desde o início, o que conta a favor de Bowman que pelo menos demonstra que teve certo cuidado com seu trabalho, mas os resultados não são dos melhores.                                                                                

Apesar da boa vontade do diretor, contudo, parece que os produtores estavam receosos quanto a repercussão deste trabalho e não foram generosos em termos financeiros, assim o tempo de filmagens foi reduzido, o que automaticamente obriga os realizadores a cortarem cenas complicadas de serem realizadas, e a verba para a inserção de efeitos especiais também foi dosada. No final das contas, o visual acabou ficando com um aspecto datado, como aquelas aventuras meia-boca típicas das sessões da tarde dos anos 80. As cenas de combate que deveriam ser o grande chamariz da obra acabam tendo seu impacto reduzido devido a mutilação que o material filmado sofreu durante a edição. Um bom roteiro podia escamotear estes defeitos, mas até nisso a sensação de déja vu se faz presente. Além de o enredo ser costurado por muitos flashbacks, os roteiristas acabaram desprezando a complexidade da heroína, ainda que no início tentem colocar algumas cenas que sugestionam seus problemas, mas que no fim não agregam nada à história. Como já dito, toda a fúria e espírito calculista e frio de Elektra acaba rapidamente cedendo espaço para a sensibilidade e a vulnerabilidade da personagem aflorar, uma forma declarada de transformar o seu perfil em algo mais tolerável para conquistar um número maior de espectadores. Os “coitadinhos” são uma paixão mundial. Dessa forma o que era para ser uma aventura mais adulta e reflexiva acabou virando um passatempo típico para atrair a atenção de crianças e adolescentes, tanto que só pode ser esta a justificativa para que algumas cenas de mortes e ferimentos sejam livres de sangue. Mesmo com todo empenho de Jennifer Garner para dar dignidade à personagem, que desta vez veste o seu sexy uniforme vermelho original (em sua primeira aparição nas telonas trocaram pela cor preta), Elektra é um produto que sofre pela inadequação ao seu tempo. Da maneira que foi entregue ao público e se fosse lançado nos anos 80, hoje com certeza seria um clássico infanto-juvenil, mas em pleno século 21 as plateias exigem muito mais. O roteiro tem que ser inteligente, as cenas de adrenalina as mais perfeitas e detalhadas possíveis e se a história é oriunda de algum material já existente é exigido, no mínimo, respeito às suas origens. Hulk e Superman são alguns exemplos de heróis que foram resgatados nos anos 2000, mas precisaram de uma segunda chance para serem retratados de forma digna nos cinemas. Quem sabe Elektra também terá uma nova oportunidade. Nunca se sabe. De qualquer forma, esta sua primeira aventura solo serve como desculpa para reunir os amigos e realizar uma sessão-pipoca. Assim como as guloseimas acabam rapidamente, se esquecer desta aventura também não levará muitos minutos.

Aventura - 96 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...