quinta-feira, 6 de setembro de 2012

AMOR AOS PEDAÇOS

NOTA 5,5

Apesar de buscar algo novo, incluindo

um casal principal diferenciado, comédia
romântica aposta em receita tradicional 
repleta de clichês para não trair paladares

Você já foi a uma doceria e sentiu vontade de provar pelo menos um pedacinho de cada bolo, mas acabou escolhendo o mesmo sabor de sempre? Pois é, da mesma forma que muitos podem se deliciar com um mesmo sabor, não falta quem aprove e deseje repetir a boa e velha receita de uma típica comédia romântica. Quanto mais açucarada melhor. Com o sugestivo título Amor aos Pedaços (e involuntariamente fazendo uma pequena propaganda grátis para uma famosa rede alimentícia), esta produção modesta é devorada de forma rápida e prazerosa, mas infelizmente sem deixar um gostinho de quero mais. O ponto de partida é bem simples. A trama gira em torno de Kate Welles (Famke Janssen), uma jornalista que está frustrada com seu trabalho já que é obrigada a escrever matérias fúteis e nada inspiradoras para ela própria. Contudo, ela novamente se motiva quando tem a chance de preparar uma reportagem sobre as diferenças entre o amor e o sexo em tempos em que os relacionamentos são travados através da comunicação à distância e para o prazer a dois (ou até mesmo em grupo) não é necessário sequer identificação, basta estar disponível. Para ajudar em seu trabalho, Kate passa a relembrar antigos casos amorosos de sua vida, desde o primeiro namoradinho de infância até seu mais recente ex-namorado, Adam Levy (Jon Favreau), que a dispensou há três anos e agora está fazendo de tudo para reatar a relação, mas ela está cheia de dúvidas quanto a essa reaproximação. Valeria a pena oferecer uma segunda chance a um relacionamento mal fadado?

A roteirista e cineasta Valerie Breiman, que estreou como atriz no açucarado Ela Vai Ter Um Bebê, mostra que gostou da receita e após anos como diretora de séries e telefilmes resolveu arriscar-se em um longa-metragem. Escrito em apenas três semanas, embora a ideia principal tenha sido amadurecida por cerca de seis longos anos, o texto não traz inovação alguma em relação a centenas de outras comédias românticas produzidas por Hollywood desde meados dos anos 80 e o sabor de repeteco é inevitável. Todavia, o roteiro chegou até a ser indicado ao Independent Spirit Awards, o Oscar dos filmes independentes. Valerie se inspirou em uma passagem de sua própria vida quando questionou a seriedade de um relacionamento que a fazia feliz em um determinado momento, mas o que o futuro lhe reservaria? Assim, ela se dedicou a contar uma história a respeito do que é preciso para se encontrar o verdadeiro amor depois de uma série de decepções e principalmente como manter a chama acesa. Todavia, o argumento não é nada original. Entregar a proposta de realizar uma matéria sobre relações amorosas à um jornalista absolutamente não é uma ideia nova. Por exemplo, pouco antes deste lançamento Drew Barrymore deu vida a uma repórter que voltava aos tempos de colégio em Nunca Fui Beijada justamente para analisar os relacionamentos entre os jovens contemporâneos (na época a galera beijoqueira do final da década de 1990). A diferença é que Valerie apostou em conflitos mais maduros e apresentou um protagonista masculino realmente interessado em um compromisso sério, mas em contrapartida é a mocinha da fita quem encontra empecilhos para viver esse amor. Mesmo com sua pegada de cinema alternativo, a obra não arrisca totalmente e recorre aos clichês do gênero, intercalando momentos de ternura com outros de dúvidas se o casal vai conseguir se entender afinal Kate e Adam estão longe de formar um par romântico inesquecível.

Os personagens não cativam ou seus intérpretes é que não conseguem conquistar o público? Para muitos as duas coisas podem ser apontadas como problemas neste caso, no entanto, para a diretora aparentemente tudo saiu melhor do que ela esperava. Sua intenção era escalar atores que não formassem uma dupla óbvia e conseguiu formar um casal principal que foge dos estereótipos desse tipo de produção. Famke, uma das mutantes de X-Men, interpreta a protagonista com convicção, mas lhe falta alguma coisa para conquistar a atenção do espectador. Ela não consegue transmitir com perfeição a sensação de uma moça com problemas amorosos, pelo contrário, as atitudes e visual de Kate correspondem melhor ao de uma mulher totalmente segura de si e de suas ações. É justamente isso que Valerie queria: quebrar modelos. Apesar de a jornalista parecer forte e intimidadora, no fundo, ela está confusa quanto a seus sentimentos e com sua porção romântica mais aflorada. Favreau, por sua vez, também foge do arquétipo do típico galã. Ele está um pouco fora de forma, não tem cara de modelo, mas é aquele tipo de cara boa praça que cativa e faz amizades num estalar de dedos. Será que o público quer ver gente comum nas comédias românticas no lugar dos manjados personagens que infestam o gênero? Bem, Amor aos Pedaços passou em brancas nuvens pelos cinemas e locadoras e hoje seria perfeito para preencher horários vagos na TV fechada ou aberta, mas parece que nem os programadores das emissoras dão bola para o título. Mesmo não tendo uma Cameron Diaz ou um Ashton Kutcher para chamar a atenção, este é um trabalho despretensioso que certamente agrada aos amantes do gênero que devem se deliciar com o final... Feliz como manda a tradicional receita romântica.
 
Romance - 82 min - 2000 - Dê sua opinião abaixo.

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