quarta-feira, 3 de outubro de 2012

DECISÕES EXTREMAS

NOTA 7,0

Drama aborda doença infantil
sem cura, mas deixa de lado a
choradeira para fazer críticas ao
capitalismo e ao universo científico
Os campos da ciência e da medicina estão sempre em constantes avanços quanto o combate e a cura de doenças, mas paralelo a isso os males não dão trégua e frequentemente ficamos estarrecidos com novas ou até mesmo antigas mazelas que conhecemos através da mídia. Em um primeiro momento podem parecer casos isolados, mas é espantoso como existem pessoas espalhadas pelo mundo sofrendo com problemas de saúde que poucos conhecem e o cinema acaba se tornando uma ferramenta importante para divulgar essas informações, prestando assim importantes serviços sociais. Quem se aventura a explorar assuntos do tipo coloca a arte cinematográfica em um outro patamar. É quase como um serviço voluntário. Embora atores e todos que atuam atrás das câmeras recebam seus cachês pelos serviços prestados, é certo que os mesmos não esperam que o filme conquiste lucros animadores. Sim, existe um preconceito com produções que abordam doenças, ainda mais quando as vítimas são crianças. É desse mal que sofre Decisões Extremas, competente drama que tinha tudo para dar certo, a começar por contar nos créditos com os atores Brendan Fraser e Harrison Ford, mas que praticamente em todo o mundo foi lançado diretamente em DVD devido a rejeição que filmes relacionados a problemas de saúde somatizam. Baseado no livro “A Cura”, da jornalista vencedora do prêmio Pullitzer Geeta Anand, que por sua vez é inspirado em fatos reais, o longa mostra a emocionando batalha de um homem para salvar a vida de seus filhos, mas que acabou trazendo benefícios para milhares de outras crianças. John Crowley (Fraser) e sua esposa Aileen (Keri Russell) fazem de tudo para dar uma vida normal e com qualidade aos pequenos Megan (Meredith Droeger) e Patrick (Diego Velazquez), respectivamente com oito e seis anos de idade, que são portadores da doença de Pompe, uma enfermidade genética que compromete os músculos, deixando-os enfraquecidos, e os órgãos internos, que podem ter seus tamanhos ampliados significativamente. Segundo estudos, poucos pacientes com este diagnóstico conseguem passar dos nove anos de idade. Curiosamente, o filho mais velho do casal, John Jr. (Sam M. Hall), nasceu completamente saudável. Correndo contra o tempo, Crowley tenta entrar em contato com o conceituado pesquisador Robert Stonehill (Harrison Ford), que já está empenhando na busca da cura dessa doença, mas todas as suas tentativas falham.

Sem muitos rodeios, o roteiro de Robert Nelson Jacobs, indicado ao Oscar por Chocolate, já logo na introdução parte para o que interessa. Megan está completando exatamente seu oitavo aniversário e não demora muito para que ela tenha uma grave crise que a leva ficar em observação no hospital, o estopim para Crowley ir procurar pessoalmente o Dr. Stonehill. O pesquisador é um tanto sisudo e não pensa duas vezes antes de acabar com as esperanças deste pai desesperado afirmando que o problema para dar continuidade ao projeto que busque ao menos uma medicação que diminua os efeitos da Pompe é a falta de recursos financeiros. Crowley imediatamente o convence de que faz parte de uma associação que arrecadará fundos para esta finalidade, mas terá que se empenhar para conseguir as doações e se surpreenderá ao ver as proporções que esta história tomará, mexendo com os bastidores da indústria farmacêutica e os interesses de quem investiu dinheiro. Podem dizer que as cenas que mostram o sofrimento da família é um tanto piegas, mas o longa justifica sua existência com a ótima visão que apresenta sobre como a ganância pode alterar os rumos de projetos de suma importância e para atingir um bem comum. Ford, também produtor do longa e atuando com vigor como há muito não se via, e Fraser, provando que tem jeito para papéis mais sérios, travam diálogos repletos de críticas a grandes corporações que se engajam em projetos sociais visando primeiramente “ficarem bem na fita”, assim muita vezes colocando em xeque a seriedade de tais ideias. Por exemplo, logo na primeira conversa entre o pai e o cientista, Stonehill diz que a universidade para a qual presta serviços gasta muito mais com o salário do técnico do time de futebol da instituição do que com todo o departamento de pesquisas que ele dirige. Vale mais a pena uns troféus e medalhas a curto prazo do que uma menção honrosa nos jornais após anos de tentativas frustradas até chegar a um medicamento satisfatório, mas que ainda precisa ser amplamente testado antes de chegar ao consumidor final? Realmente tempo é dinheiro em qualquer lugar. Quem investe quer algum tipo de lucro e de preferência rapidamente. Além das dúvidas que envolvem retornos financeiros, ainda existe a guerra de egos. As pesquisas em torno de um tipo de enzima para a fabricação do medicamento que não promete a cura completa, salvo se administrado desde a infância, mas ao menos garante melhoras consideráveis no estado de saúde do paciente, acaba atraindo muitas outras equipes de pesquisadores e obviamente a que conseguisse chegar ao melhor resultado faria questão da patente registrada do remédio o que irrita Stonehill que chega a se desligar do projeto colocando seu orgulho a frente de tudo. Como o próprio Crowley esbraveja a certa altura, ele prefere continuar tendo ideias, mas sem colocá-las em práticas, desta vez por querer levar a fama sozinho.

Deixando em segundo plano as cenas tristes e evitando emocionar demais até o espectador sentir vontade de lacrimejar, o filme ganha pontos por não ter o interesse de apenas explorar um tema pouco conhecido, mas sim escancarar o jogo de interesses que existe por trás de qualquer atividade, o que em casos que lidam com saúde e bem-estar social deveriam ser considerados crimes. Ao que tudo indica salvar vidas não é uma prioridade para as organizações que se gabam de incentivar pesquisas científicas. O negócio é construir uma bela imagem em torno do nome da instituição e atender as regras do capitalismo. Um pai desesperado que pode perder dois filhos a qualquer momento não é o bastante para amolecer o coração de investidores. Eles querem resultados para eles mesmos em primeiro lugar. Se investissem na busca do tal remédio, ele seria lucrativo? Pagaria seu investimento a curto prazo? Sendo um produto novo e aguardado, poderiam lançá-lo a um preço superestimado? Haveria possibilidade de um produto similar para fazer concorrência? Por essas e outras Decisões Extremas é um tremendo cala boca para os espertinhos que gostam de rotular filmes por seus títulos, peças de marketing ou por seu nível de exposição. Emotivo no início e na conclusão, o longa do diretor Tom Vaughan, de Jogo de Amor em Las Vegas, surpreende por em seu recheio adotar o universo frio e calculista do mundo dos negócios fazendo o espectador por vezes até esquecer-se em partes do drama da família Crowley. E a opção de ver o outro lado da questão não poupa nem mesmo o protagonista, cujo personagem da vida real cedeu consultoria à produção. Intimamente envolvido nas pesquisas, é claro que ele queria que seus filhos servissem de cobaias para o teste do medicamento, mas ai ele esbarra no que se chama de conflitos de interesses, ou seja, mancharia a imagem de todos os envolvidos ao propor a criação de um remédio para benefício próprio e não pensando especificamente nos milhares de outros enfermos. Com uma premissa semelhante ao famoso O Óleo de Lorenzo, este drama pega leva com as emoções, poupando o elenco infantil de cenas impactantes ou que lhe exigissem demais emocionalmente e deixando no final um clima de otimismo contagiante. Não é um dos melhores longas de seu subgênero, mas é uma boa opção para se assistir e debater com toda a família e que alimenta a esperança de pessoas que sofrem com doenças consideradas incuráveis. Sempre há esperança enquanto existe vida. 

Drama - 105 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

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