terça-feira, 2 de outubro de 2012

EXORCISTA - O INÍCIO

NOTA 2,5

Exploração de fatos anteriores
ao clássico O Exorcista resulta
em um filme fraco, confuso e que
não faz jus ao título que carrega
Já é costume que os títulos do gênero de terror não sejam filhos únicos. Independente de fazerem sucesso ou não, é quase certo que toda produção do tipo terá sua vida útil ampliada graças a continuações, podendo ser lançadas inclusive tardiamente. A Casa de Cera e Horror em Amityville são exemplos raros que não ganharam ao menos uma segunda parte, porém, são refilmagens de produções antigas. Contudo, o grande temor dos fãs de horror continua sendo o fantasma das sequências. Dificilmente estas tentativas de mostrar possíveis desdobramentos de uma história conseguem fazer tanto sucesso quanto a obra original. Será que é por isso que cerca de três décadas após o lançamento de O Exorcista o diretor Renny Harlin, frustrado já uma vez por tentar recuperar o prestígio dos filmes de piratas com A Ilha da Garganta Cortada, quis trazer a tona o mesmo frisson causado pelo realismo e pelas cenas perturbadoras contidos no clássico setentista de William Friedkin apostando em um prequel? Para quem não sabe, prequel é a palavra comumente usada para se referir a um filme cujo objetivo é apresentar fatos que antecederam aos eventos de uma outra obra, ou seja, no caso de Exorcista- O Início o próprio título já diz tudo. Desde seu lançamento em 1973, público e crítica se renderam ao poder de atração do até então mais famoso longa a abordar o tema possessão e ano após ano os cofres do estúdio e distribuidora Warner foram ficando mais cheios com os dividendos do trabalho de Friedkin. Não demorou muito e algumas continuações oficiais do sucesso foram feitas tentando repetir repercussão e bilheterias similares, mas na realidade se transformaram em verdadeiros fracassos e hoje vivem no total ostracismo. Isso sem falar nas inúmeras produções lançadas diretamente em fitas VHS que também beberam na mesma fonte e procuraram aproveitar o boom das locadoras entre os anos 80 e 90. Ainda assim executivos de cinema sempre quiseram ganhar mais alguns trocados com a história de possessão e exorcismo que chocou o mundo todo, mas para a empreitada dar certo era necessário que essa providencial sequência tivesse alguma ligação com a obra original na qual o padre Merrin, então vivido por Max Von Sydow, menciona ter encontrado o demônio frente a frente ainda em sua juventude. A partir deste gancho os escritores William Wisher e Caleb Carr imaginaram como o tal sacerdote teve seus primeiros contatos com o tema possessão e o que o levou a se especializar nestes casos. As intenções eram boas, mas o roteiro finalizado por Alexi Hawley não está a altura do porte e da importância que este projeto deveria ter.

A trama se passa em 1949, quando, após abandonar o sacerdócio e perder a fé em Deus ao vivenciar cenas chocantes de atrocidades durante a Segunda Guerra Mundial, Lankester Merrin (Stellan Skarsgard) passa a atuar no campo da arqueologia e recebe de Semelier (Ben Cross), um colecionador de antiguidades, a missão de ir a uma escavação promovida pelo governo inglês na região de Turkana, no Quênia. Ele deve recuperar uma imagem esculpida em pedra que estaria soterrada junto a uma igreja cristã bizantina erguida logo após a morte de Jesus Cristo e inexplicavelmente enterrada de cabeça para baixo. No local, o arqueólogo constata que a construção está intacta como se tivesse sido tragada pela terra no mesmo dia em que foi concluída, mas alguma coisa muito mais intrigante está ali escondida. Uma cripta ainda mais antiga é encontrada abaixo da igreja, um templo de sacrifícios humanos onde há milhares de anos aconteceu um massacre liderado por um padre, um episódio marcado por uma série de possessões demoníacas e o culto da tal imagem que Merrin deveria encontrar. Após cumprir sua tarefa, este descrente da fé não consegue simplesmente virar as costas e ir embora, pois se sente na obrigação de ajudar a desvendar os eventos mórbidos e surpreendentes que passam a acontecer com os membros do grupo de escavação e alguns habitantes da região, como a dilaceração por hienas de uma criança enquanto a seu irmão nada acontece, este que fica imóvel acompanhando a impactante cena. Em síntese a trama do prequel soa bem interessante e coesa, mas é uma pena que essa invenção de fatos misteriosos para justificar o retorno de Merrin ao campo da fé não chega aos pés da história protagonizada pela ex-promissora atriz Linda Blair, a garota que ficou estigmatizada por girar a cabeça, berrar discursos profanos e vomitar sopa de ervilha. Harlin infelizmente jogou fora uma boa premissa limitando-se a entregar um trabalho convencional, tecnicamente sem inovações e com sustos fáceis ou totalmente sem efeitos, como o manjado truque da luz que se apaga inesperadamente ou da rajada violenta de vento que acabam por anular qualquer impacto do que está por vir. A decepção é ainda maior quando chegamos ao clímax do longa que seria a possessão de uma pessoa de forma mais detalhada, mas os efeitos (ou seriam defeitos) especiais jogam por água baixo qualquer faísca de tensão. Vale lembrar que Friedkin conseguiu nos anos 70 deixar muita gente sem dormir por um bom tempo usando trucagens tradicionais e quase artesanais. Hoje podem não causar tanto impacto, mas ao menos surpreendem, justamente o contrário dos resultados obtidos por Harlin e seu caldeirão de ideias.

A ausência de clima também é constante. O suspense raso tenta ganhar a atenção do espectador por vezes apostando em efeitos sonoros estridentes, uma tentativa de acordá-lo afinal de contas é bem difícil não se entediar logo nos primeiros vinte minutos do longa, uma introdução que, diga-se de passagem, já mostra um pouco do caos que é a narrativa que não raramente foge do contexto. O roteiro é confuso e procura alinhavar o viés das possessões com a cultura e crendices africanas, além de forçar uma ligação com acontecimentos reais como as atrocidades do período da Segunda Guerra Mundial. O resultado é incômodo. Dispara-se para todos os lados, mas alvo algum é acertado. Durante quase duas horas quem assiste tenta, se não desistir antes, ligar todos os fatos, mas no final ainda ficam algumas dúvidas sobre o que realmente aconteceu no tal vilarejo africano, além do fato de ter que engolir a decepção que é o ápice do conflito entre Merrin e o demônio encarnado, uma sequência rápida e nada eletrizante. Skarsgard carrega o fardo de levar o filme nas costas tentando dar alguma dignidade a um projeto fadado ao fracasso, mas infelizmente não consegue salvar muita coisa. Apesar de ser uma figura quase onipresente em todo o longa, o intérprete não consegue trazer emoção e humanidade a seu personagem, mostrando-se muito habituado as manifestações demoníacas ainda que este fosse teoricamente seu primeiro caso real de possessão. A justificativa, que não cola, é que sua desenvoltura nestas situações se deve a sua descrença nesse momento em absolutamente tudo que se refere a Deus e o Diabo. Como diz o ditado é preciso ver para crer e a lição que Merrin tira desta aventura macabra na África é que faz a ponte com o longa setentista. Em suma, de tudo que havia de bom e relevante na obra original infelizmente não existe o menor resquício em Exorcista – O Início. A história linear e interessante, os bons truques para assustar, a fotografia, iluminação e efeitos sonoros claustrofóbicos e, principalmente, o bom texto e a interpretação afinada do elenco foram substituídos neste produto caça-níquel por atuações fraquíssimas, narrativa rasteira, sustos decepcionantes e parte técnica anticlimática. É perceptível que a obra sofreu problemas durante sua pré e pós-produção, além de possíveis dificuldades durante as filmagens, visto que houve mudanças no elenco, de diretor e até o próprio roteiro foi reescrito na última hora. Existem filmes que realmente nunca deveriam ser feitos e eis aqui um belo exemplo. Pior que o resultado final não se enquadra nem mesmo como um trash movie, aquelas produções mal feitas que por assumirem sua precariedade ou equívocos acabam se tornando boas opções. O negócio aqui é levado a sério demais. Assim este prequel não serve nem mesmo para matar algumas horas ociosas a não ser que o objetivo seja realmente ter um aliado para pegar no sono.

Terror - 113 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

renatocinema disse...

Fui na estréia e achei bem meia boca.

O roteiro, realmente, é confuso.

Resultado final nota 5.

Rui Luís Lima disse...

Este filme terminou por abrir uma espécie de sub-género no interior do cinema de terror.
Parabéns pelo blog.
Abraço cinéfilo
Rui Luís Lima

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