sexta-feira, 9 de novembro de 2012

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

NOTA 8,0

Lendário assassino promove
vingança com toques de
humor negro em musical
atípico, sombrio e criativo
Um filme musical que se preze precisa ter uma bela história de amor, figurinos pomposos, cenários suntuosos e um elenco que consiga dançar e disfarçar satisfatoriamente diálogos em meio a notas musicais. Bem, essa era a visão dos musicais clássicos. Para ressurgirem no século 21 alguns cineastas transformaram o gênero em um espetáculo frenético com coreografias bem marcadas e canções adaptadas ou escritas com exclusividade. Mesclando um pouco do estilo clássico e generosas doses de ousadia, Tim Burton novamente surpreendeu com seu Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, um sombrio, mas ao mesmo tempo divertidíssimo musical.  Mais uma vez o cineasta achou mais um texto perfeito que acolhe todas as suas predileções: fantasia, humor negro, estilo gótico, personagens excêntricos e situações macabras. O longa é baseado na obra original de Hugh Wheeler e no musical da Broadway criado por Stephen Sondheim no final dos anos 70 que narra a história de um barbeiro assassino, um personagem que ao que tudo indica existiu realmente e povoa o imaginário popular inglês desde o início do século 19. Hoje tal conto já é conhecido mundialmente, tendo inspirado diversos livros, espetáculos teatrais e filmes, mas nas mãos de Burton é como se o texto finalmente ganhasse sua versão definitiva. Benjamin Barker (Johnny Depp) passou quinze anos afastado de Londres após ser obrigado a abandonar sua esposa Lucy (Laura Michelle Kelly) e a filha, ainda um bebê de colo, mas agora ele está de volta ávido por vingança. Ele descobre que a esposa se suicidou e a filha foi adotada pelo juiz Turpin (Alan Rickman), o mesmo homem que o condenou a extradição por um crime que não cometera, tudo para ter a chance de ficar com Lucy. Usando o pseudônimo de Sweeney Todd, logo ele faz amizade com a Sra. Nellie Lovett (Helena Bonham Carter), a dona de uma miserável loja de tortas. Na realidade a cozinheira já conhecia Barker, o observava a distância e aparentemente já se sentia atraída pelo seu tipo excêntrico, característica que compartilha. Com seu talento inegável para manejar navalhas, Todd decide abrir uma barbearia no andar de cima do restaurante, mas o acordo que ele faz com a proprietária é um tanto bizarro: ele atrai os clientes para fazer a barba, degola aqueles que julga merecer tal castigo e despacha os corpos para a cozinheira fazer os recheios de suas tortas. Curiosamente, após o acordo o negócio de Lovett deslancha e seus quitutes passam a fazer sucesso. Enquanto ela lucra, Todd sacia sua sede de vingança decidindo que não é apenas um ou outro homem que merece morrer com suas navalhas, mas todos os londrinos merecem tal execução afinal ninguém o defendeu no passado da tal injustiça que sofreu.

Apesar de a adaptação do musical ser um tanto sombria e sanguinolenta, os elementos fantásticos do mundo de Burton encontraram espaço. Sem a atmosfera que eles conseguem imprimir à obra a magia de ver os atos cruéis de Todd não existiria. Nas mãos de outro diretor o projeto poderia virar um filme de terror qualquer, aliás, ele demorou anos para sair do papel, apesar de que outras adaptações para o cinema já existiram. Mas versão como esta não existe e talvez seja justamente sua particularidade que desagrade grande parte do público, inclusive os fãs fiéis da dobradinha Burton/Depp. A sexta parceria da dupla é também a terceira vez em que a música tem uma função maior nos filmes do diretor. Em A Fantástica Fábrica de Chocolate e A Noiva Cadáver (com Depp atuando e dublando respectivamente), Burton flertou com o gênero musical, intercalando canções na trama com melodias populares, versos e refrões, mas ainda assim os diálogos eram indispensáveis. No filme em questão, o tom é de uma ópera realmente e as letras das músicas literalmente substituem as falas dos personagens praticamente durante toda a duração do longa. Basicamente foram utilizadas as mesmas canções do musical da Broadway, com algumas poucas alterações, o que explica a ausência do compositor Danny Elfman nos créditos, um nome praticamente onipresente na filmografia do cineasta. De qualquer forma, roteirizar uma história era indispensável e coube a John Logan, de O Aviador, a tarefa de criar alguns poucos diálogos livres e alinhavar as músicas. Para não cair na maçante armadilha das atenções se voltarem apenas ao contexto vingativo e canibal da trama, existe uma história paralela mais suave afinal de contas no fundo esta é uma história de amor por incrível que pareça. O paradoxo existente entre o amor e a morte é que impulsiona o espetáculo que alterna momentos de ternura com outros de explosão de raiva, uma dinâmica que ajuda a dar ritmo ao produto. A Sra. Lovett de certa forma ama seu sócio e o juiz Turpin ousou amar quem não poderia correspondê-lo, mas o sentimento de paixão é mais evidente na subtrama do marinheiro Anthony Hope (Jamie Campbell Bower), que encontrou Todd no mar e o levou  até Londres,  e a jovem Johanna (Jayne Wisener), a filha do barbeiro. O casal de enamorados entoa as canções mais singelas (ainda que o rapaz exagere na sua declaração de amor), um contraponto aos lamentos e palavras ásperas que saem da boca do personagem de Depp que consegue transmitir em seus olhares toda a fúria enclausurada dentro dele e nos momentos certos deixar latente a sensibilidade resguardada. O ator foi convidado para o papel antes mesmo de provar se poderia cantar já que o diretor sabe o potencial dele que se sai bem fazendo papéis de pessoas normais, mas sem dúvida sempre será lembrado pelas figuras antológicas e esquisitíssimas que encarna com perfeição. Todd é mais uma para a ilustre galeria. É bizarro, tem um visual impactante e o diferencial de mostrar o talento vocal do ator, ainda que alguns digam que ele só conseguiu o papel pela amizade com o diretor e por seu nome ser sucesso entre as plateias mais jovens que poderiam ser avessas ao estilo musical adotado para um filme de terror. De fato, é justamente o trunfo que os produtores achavam que tinham que se tornou o calcanhar de Aquiles do projeto: o formato musical. Apesar de tal classificação, que hoje em dia não é tão usual devido as poucas produções do tipo, a obra é um tanto difícil de classificar em algum gênero específico dos mais convencionais. Está longe de ser um musical tradicional, provoca alguns risos, mas seu humor é peculiar, e até poderia ser classificado como uma história dramática, afinal não se pode negar que o ressentido barbeiro é uma pessoa sofrida, tanto que sua vida fica sem sentido até mesmo quando chega ao ápice de sua vingança.

O mais correto seria o rótulo fantasia ou alternativo ou o óbvio caminho do terror ou suspense, mas para se encaixar nas últimas alternativas as canções precisariam ser limadas do projeto. O problema é que quando um filme tem suas raízes mais fortes em um espetáculo da Broadway fica difícil procurar caminhos diferenciados, tanto que outras versões cinematográficas da história do barbeiro assassino vivem no completo ostracismo. O fato é que o tempo passa e Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet não consegue reverter sua fama. Sim, o poder de fogo da dupla mais dinâmica e bizarra do mundo do cinema há mais de duas décadas deu sinais de desgaste. Na época de seu lançamento atraiu atenção, até por causa dos prêmios que concorreu, mas na mesma proporção cresciam as críticas negativas, ainda que a imprensa tenha sido generosa com os comentários razoavelmente positivos. Analisando como um musical, podemos dizer que o trabalho realmente acumula falhas. A cantoria incessante em certo momento cansa e pode desanimar o espectador de ir até o fim. O pior é que do conjunto todo não se sobressai nenhuma canção para imortalizar em nossas memórias o longa tal qual aconteceu com A Bela e a Fera ou O Fantasma da Ópera. E por incrível que pareça talvez seja justamente esse distanciamento emocional que Burton buscou afinal seu trabalho neste caso é desprovido de luxo e beleza plastificada. Para falar de pessoas que agem de acordo com os instintos mais primitivos que o meio em que vivem lhe despertam o cineasta procurou despir de glamour a Inglaterra do período vitoriano, época propícia para as lendas urbanas de seriais killers e criaturas soturnas, e apresenta o ambiente londrino dotado de características desprezíveis e obscuras, uma visão cinzenta tal qual o protagonista enxerga a cidade em seu regresso. As cores mais fortes e vivas só entram em cena quando a quituteira vislumbra seu futuro, nos momentos em que é explorado o passado de Todd e obviamente quando um vermelho vibrante surge nos corpos de suas vítimas. O contraste entre o rubro e o negro é de encher os olhos e ganha potência máxima aliado aos cortes perfeitos de edição e aos efeitos sonoros, como pode ser notado no primeiro encontro entre o barbeiro e seu carrasco. Depp e Rickman travam um interessante duelo de vozes intercalado pelos barulhos do ambiente, destacando o som cortante da navalha. Bem, falar das qualidades técnicas e visuais em um trabalho da grife Burton é chover no molhado. O cineasta deita e rola com o estilo gótico e passeia livremente com sua câmera pelos cenários para captar cada detalhe que ajudam a transportar o espectador para outro universo. Quem se deixar levar por essa magia a certa altura provavelmente nem estará mais se incomodando com os diálogos cantados. Aliás, se muitos reclamam que o cinema precisa de novidades para se manter em evidência, é um pouco contraditório reclamarem da inversão proposta por Burton afinal ele nada mais fez que neste caso ceder o mesmo espaço aos diálogos comuns que geralmente as músicas ocupam nos filmes, ou seja, os transformou em ornamentos para uma narrativa fora dos padrões. O início marcado por um ritmo vagaroso é proposital para fazer com que o espectador conecte-se ao universo sombrio, conheça as personagens e se acostume com a narrativa cantada, mas o pulo do gato é realmente quando Barker começa a deixar transparecer sua personalidade rebelde e vingativa, algo potencializado com a entrada de Adolfo Pirelli (Sacha Baron Cohen) na trama, um barbeiro italiano para rivalizar com as navalhas endiabradas de Todd. Apesar de todas as qualidades reunidas nesta produção, realmente ela é to tipo ame-a ou odeie-a, não há meio termos e infelizmente neste caso Burton e Depp não foram poupados nem mesmo por seus fãs mais fervorosos. De qualquer forma um produto longe de ser um lixo, apenas excêntrico demais para afrontar o conservadorismo das plateias.

Vencedor do Oscar de direção de arte

Musical - 116 min - 2007

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Um comentário:

Rafael W. disse...

Burton, como sempre, fascinante. Depp, idem.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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