segunda-feira, 30 de abril de 2012

AUSTRÁLIA

NOTA 8,0

Tentativa de resgatar a aura
dos antigos romances épicos
é um pouco exagerada, mas
longe de ser um filme ruim
Os tempos dos grandes épicos em longa metragem ficaram no passado junto com as lembranças de grandes atores que abrilhantaram as telas dos cinemas do mundo todo com seu talento, mas tem cineastas tentando trazê-los de volta a tona, porém, dividindo opiniões. Há algumas produções de época mais recentes que merecem uma avaliação melhor por parte do público e que podem dar o empurrãozinho que faltava para encorajar os cinéfilos que ainda preterem obras com mais de duas horas de duração ou com ares de superprodução. Austrália é um dos títulos que merecem uma segunda chance, um grandioso e requintado trabalho que foi achincalhado pela crítica e consequentemente pelo público. O problema é que os críticos consideram que este longa é muito certinho, não ousa em nada, copia a receita direitinho de grandes épicos e é um tanto pretensioso. Sim, verdade, mas qual é o problema? Se nas salas de cinema ele não foi um estouro, no conforto do lar com o controle remoto em mãos para algumas paradinhas de descanso o longa pode funcionar melhor e provar que tem seu valor, embora com ressalvas. Narrado pelo garoto aborígene Nullah (Brandon Walters), a história começa no final dos anos 30 nos apresentando à Lady Sarah Ashley (Nicole kidman), uma aristocrata que deixa a Inglaterra rumo à Austrália para ir ao encontro de seu marido que se preocupa mais em cuidar da propriedade rural da família e da criação de gados, porém, ela também desconfia que está sendo traída. Ao chegar ao continente australiano, Ashley não é recebida pelo companheiro, mas sim pelo rude vaqueiro Drover (Hugh Jackman), com quem desde o primeiro momento passa a trocar farpas. Para sua completa surpresa, a dama descobre que seu marido está morto e que agora terá que tomar conta dos negócios da família antes que vá totalmente à falência. Ela precisará vender sua propriedade a um preço muito baixo caso contrário terá que enfrentar King Carney (Bryan Brown), o responsável pelo comércio de carne da região. Nesse momento difícil em que toda a população local parece estar contra Sarah, ironicamente, é Drover quem a ajudará a superar as dificuldades, assim como a inesperada amizade com Nullah fará com que a aristocrata não se deixe abater. É o garoto que a alerta sobre um complô armado por gente influente para enganá-la. Essa é a premissa do roteiro escrito por Stuart Beattie, Ronald Harwood e Richard Flanagan sob a batuta e a partir da ideia do próprio diretor, o megalomaníaco Baz Luhrman. Tantas mãos e cabeças agindo e pensando em um mesmo trabalho precisam estar completamente em sintonia para o projeto funcionar e é aí que o caldo provavelmente entornou.

Do início ao fim o espectador deve ficar extasiado com a beleza das imagens proporcionadas graças a um primoroso trabalho da parte técnica, o que não é surpresa se tratando de uma obra do mesmo diretor que trouxe a glória dos musicais de volta com Moulin Rouge. Depois deste sucesso inesperado, Luhrmann cismou que queria filmar a vida de Alexandre, o Grande, mas o cineasta Oliver Stone atrapalhou seus planos lançando sua versão megalomaníaca antes (nem por isso a produção foi um sucesso). Sem perder as esperanças, o diretor decidiu então investir em uma história que homenageasse a Austrália, sua terra natal, e quis fazer tudo à moda de épico antigo. Cenários e figurinos perfeitos, belas paisagens, uma trilha sonora retumbante e para completar um roteiro que não sabe qual caminho seguir. Sim, isso mesmo, é justamente a mistura de diversos gêneros somados ao deslumbramento de Luhrman que tornam este épico apenas um passatempo glamoroso, mas longe de ser um clássico como os da Era de Ouro de Hollywood. As interpretações em um primeiro momento são um tanto esquisitas, beirando a caricatura. Depois os atores parecem achar o tom de seus personagens, mas o enredo que começa cômico vai ganhando ares românticos e de aventura conforme avança a relação entre a “dama e o vagabundo” em meio a situações típicas de filmes de faroeste. Mas as coisas não param por aí. O drama pede passagem quando a Segunda Guerra Mundial entra em cena e separa Sarah, Drover e Nullah que a essa altura formavam praticamente uma família. Sempre quando pensamos que o filme está acabando lá vem uma novidade para continuá-lo. Surpreender o espectador com algo do tipo é bem-vindo, mas desde que exista um foco atento à história, porém, Luhrman parece mais preocupado com o espetáculo. A mescla de gêneros não deveria soar estranha afinal a vida de todos são marcadas por eventos tristes e alegres que não dependa apenas das ações individuais de cada um, mas também podem ser influenciados por agentes externos. Assim é perfeitamente aceitável que uma história de amor comece truncada, tenha seu auge e sofra turbulências por conta de situações insustentáveis, mas o cineasta conduz sua narrativa de forma um tanto arrastada, embora com algumas passagens bem rápidas e mal resolvidas, e querendo arrancar poesia de cada fotograma. É quase possível termos a sensação de acompanharmos em um mesmo filme três histórias distintas, porém, protagonizadas pelos mesmos personagens. Faltou liga à essa mistura que poderia render um épico com letras maiúsculas.

O casal de protagonistas se esforça para realizar um trabalho competente, mas quem surpreende mesmo é o garoto aborígene, não só por sua espontaneidade e carisma, mas também por sua parte no enredo ser bem mais interessante que a história de amor que não tem nada de original. Nullah é fruto da mistura de duas etnias, negros e aborígenes, sendo assim descendente de uma linhagem que há séculos sofre preconceitos. Neto do Rei George (David Gulpilil), um pajé da região, o garoto é separado de Ashley para ser educado em um abrigo católico para depois estar apto para ir trabalhar na casa de famílias brancas, porém, sua sabedoria sobre os mistérios da vida são muito superiores a inteligência de qualquer caucasiano. A guerra entre semelhantes colocando a cor da pele e as riquezas materiais como fatores decisivos para a separação dos povos é o melhor gancho do roteiro, mas também poderia ser mais bem trabalhado. Se o filme tem bem mais pontos negativos que positivos, certamente você deve estar se perguntando o porquê de indicá-lo? Simplesmente porque não devemos reduzir a pó um trabalho que foi feito com muito capricho e esmero. Há produções bem piores para serem massacradas. Austrália, como já dito, está longe de ser um grande épico e tampouco um dos melhores filmes deste início de século, contudo, ele é um bom programa para um passatempo descompromissado, principalmente para aqueles que concordam com o ditado que diz “uma imagem vale mais que mil palavras”. Luhrman deve ter pensado nisso ao realizar este projeto caprichando na plasticidade, mas bem que podia ter sido menos generoso na hora de editar (quase três horas é quase um suicídio para um projeto comercial). De qualquer forma, uma boa opção para você tirar suas próprias conclusões afinal existem defensores ferrenhos deste trabalho. Seriam manifestações dos fãs clubes de Jackman ou Nicole? De qualquer forma, a ideia era justamente trazer de volta os ingredientes de clássicos como E O Vento Levou para as novas gerações e Luhrman conseguiu seus objetivos, porém, nem mesmo o Oscar reconheceu a grandiosidade deste filme, dando uma mísera indicação para o figurino. Esqueça os críticos e embarque neste verdadeiro épico moderno.

Romance - 165 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.


2 comentários:

Rafael W. disse...

Particularmente, também não achei grande coisa. É um filme sem identidade, não sabe se fica na comédia, no drama ou no típico épico romanceado. Vale pelo show técnico, apenas.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Ana disse...

Eu amei esse filme! Amei a fotografia, o roteiro, o figurino, as atuações... Um belo filme pra recordar! Ele é tão peculiar que começa como uma comédia, evolui para um drama e depois para uma guerra.
Pretendo comprar o DVD em breve.
;)

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...