quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA

NOTA 9,0

Longa revela inspiração de
autor para criar conto
clássico infantil investindo na
mescla de realidade e fantasia
Muitos contos clássicos infantis já ganharam tantas versões cinematográficas, teatrais, televisivas e até mesmo em livros que hoje fica difícil saber quais são as verdadeiras e isso também aguça a curiosidade para saber qual o fundamento delas. O fato é que em alguns casos a história por trás da criação pode ser tão boa quanto o produto final como a mostrada no filme Em Busca da Terra do Nunca, uma obra com potencial para agradar e emocionar pessoas de todas as idades apostando em um enredo que consegue fazer o espectador soltar a sua imaginação ao mesmo tempo em que mantém os dois pés na realidade. Baseado em fatos reais, o título foi um dos mais cotados das premiações da temporada 2004/2005, mas sua sensibilidade e criatividade não foram suficientes para derrotar a onda de reconhecimento à obras com conteúdos mais fortes e realistas que imperava. Uma pena. Se fosse produzido anos antes poderia ter sido super premiado, pois agrega todos os ingredientes necessários para levar o público às lágrimas e a sonhar, além de contar com uma parte técnica de primeira. Um prato cheio para as festas do Oscar de antigamente. A inspiração para criar obras de cunho cultural pode surgir dos momentos ou lugares mais inesperados. O escritor de peças teatrais James M. Barrie (Johnny Depp) está enfrentando dificuldades com seu trabalho mais recente que não foi bem recebido tanto pelo público quanto pela crítica, porém, seu financiador, o senhor Charles Frohman (Dustin Hoffman), ainda confia em seu talento e está disposto a bancar a montagem de outra peça. A vontade de escrever novamente surge para o rapaz num despretencioso passeio pelo parque. Lá ele conhece a jovem viúva Sylvia Davies (Kate Winslet) e seus quatro filhos, entre os quais lhe chama a atenção o pequeno Peter (Freddie Highmore), muito maduro e resistente para entrar no mundo de magia e inocência pertinente a qualquer menino de sua idade, mas aos poucos ele consegue convencer o garoto que o melhor da vida é se divertir e assim passa a se dedicar a brincadeiras e atividades lúdicas com ele e seus irmãos. Dessa forma, a mente do autor se abre e renasce a esperança no coração de um homem adulto fisicamente, mas sentimentalmente desejando não precisar crescer jamais. Então inicia-se uma grande e pura amizade entre todos eles, até porque os garotos passam a ver o adulto brincalhão como um substituto à figura paterna que perderam, mas a relação de Barrie, que é casado, com essa família passa a ser questionada pela sociedade elitista e conservadora da década de 1920. Mesmo assim, o rapaz continua se divertindo com as crianças aparentemente felizes, mas no fundo amarguradas, e também tenta ajudar a mãe delas a enfrentar um grave problema de saúde. Em meio a tudo isso, baseado no cotidiano desta família, a imaginação de Barrie aflora e ele consegue escrever uma das maiores obras da literatura infantil mundial: "Peter Pan".

A ideia de misturar fantasia e realidade em um mesmo filme fugindo dos padrões das comédias, aventuras e produções infantis talvez nunca vá encontrar uma forma tão perfeita quanto a que o cineasta Marc Forster usou para contar uma história dramática, mas com toques de fábula. Curiosamente, esta obra tão delicada foi dirigida por um profissional que ganhou projeção mundial com o denso A Última Ceia. Depois de comandar um trabalho rígido e para poucos paladares, o cineasta mergulhou na fantasia, mas ainda deixou um pé na realidade. Soube brincar e falar sério com uma história até certo ponto verídica, mas que precisou de alguns ajustes para alcançar seus objetivos e fugir de certas polêmicas, como o fato de explorar o convívio íntimo de um adulto “estranho” com menores e omitir que o próprio pai das crianças, o senhor Arthur Llewelyn Davies, conviveu com Barrie e chegou a assistir a primeira versão teatral de "Peter Pan". Tudo em nome da arte. Havia também uma quinta criança, mas esta nasceu quando a história do menino que não queria crescer já estava praticamente finalizada e por isso ficou de fora. Felizmente um bom profissional da área consegue êxito nos mais diversos gêneros e Forster prova isso usando beleza e lirismo nesta produção que se equilibra bem entre a realidade apresentada de forma triste e a fantasia representando o lado alegre da história. O roteiro de David Magee, baseado na peça “O Homem que era Peter Pan”, de Allan Knee”, foi escrito com a clara intenção de levar o público às lágrimas. A mistura de magia e drama nesta obra é perfeita e presenteia o espectador com belíssimas sequências, principalmente as que Barrie brinca com as crianças. A ação então é transportada para cenários imaginários com direito a figurinos de piratas, índios e nobres. Graças a essas sequências o longa ganha vigor e não descamba para uma história demaseadamente triste, além de ajudarem a escamotear a grande quantidade de clichês da narrativa. Qualquer pessoa sensível ou adepta a acompanhar histórias humanas deve ter a atenção fisgada logo nos primeiros minutos de filme. Os cenários e figurinos, ricos em detalhes, adornam esse espetáculo de ternura e a fotografia e a trilha sonora completam o show. Todos esses elementos se fundem com perfeição na sequência de apresentação da famosa Terra do Nunca que causa arrepios e emoções inexplicáveis. Não dá para definir se o sentimento é de alegria em ver tal fantasia tornar-se realidade ou de tristeza devido a situação da personagem feminina principal da trama e até mesmo das crianças nesse momento.

O grande destaque no campo de atuações fica por conta de Johnny Depp e do garotinho Freddie Highmore, dobradinha que depois repetiram em A Fantástica Fábrica de Chocolate. O ator queridinho do cineasta Tim Burton aparece aqui praticamente todo o tempo de cara livre e sem trejeitos, algo pouco comum em sua filmografia. Não é considerada sua melhor atuação por parte do público, mas certamente para ele deve ter sido um papel difícil de fazer, já que está acostumado a vestir fantasias, usar maquiagens e interpretar tipos excêntricos. Contido quase todo o tempo, ele aproveita os momentos lúdicos do enredo para fazer caretas e usar seus talentos vocais e de expressões corporais incorporando personagens que habitam o universo infantil. Já o garotinho é uma agradável surpresa que emociona com seu olhar meigo e já prometia ter um belo futuro na carreira (bem, ele está na praça, mas atuando em produções pouco expressivas). As conversas entre os dois não parecem de um adulto e de uma criança, já que Barrie nunca deixou de ser uma criança no espírito e também porque o sentimento de perda os aproxima. O escritor perdeu seu irmão na infância e compartilha a mesma dor que seu novo amigo tem em relação ao pai. O restante do elenco atua de forma correta, mas nada excepcional. A sempre bem avaliada Kate Winslet forma um belo par com Depp, mas fica um pouco apagada diante da interpretação do parceiro, assim como Hoffman e Julie Christie. O ator não passa de um coadjuvante de luxo, seu personagem aparece pouco, até porque ele atuou sob efeitos de medicamentos devido a um grave machucado, mas nada que comprometa a narrativa. Já a veterana atriz dá vida a avó das crianças, uma ranzinza mulher que inspirou a criação do Capitão Gancho, o inimigo de Peter Pan. Ela alcança seu melhor momento nos minutos finais quando sua casca grossa não resiste e se quebra diante da fantasia se tornando realidade. Seus aplausos e expressão de surpresa ao conhecer a Terra do Nunca redimem sua personagem de qualquer punição por parte dos espectadores. Em suma, Em Busca da Terra do Nunca é uma excelente opção para assistir com toda a família, não só hoje, mas um título para ficar na memória para sempre. Rebuscado, chato, piegas e manipulador? Sim também existem aquelas pessoas que podem achar isso, mas a explicação para tal repulsa só pode estar em um passado triste e traumático assim como o do protagonista. Porém, siga o caminho dele e embarque na fantasia para reviver ou finalmente viver a sua infância.  E não se envergonhe se no fim não conseguir segurar as lágrimas. Em tempo: o longa deveria ter sido lançado em 2003 pela Miramax, a produtora super colecionadora de prêmios, mas a Sony estava lançando uma nova versão em live action de Peter Pan e só liberou o uso dos trechos da peça original para o ano seguinte.

Vencedor do Oscar de trilha sonora

Drama - 101 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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