terça-feira, 1 de janeiro de 2013

CHICAGO

NOTA 10,0

Drama, comédia, suspense
ou policial? Só mesmo um
espetáculo  musical como este

para agregar tantos gêneros
Os musicais nos últimos anos têm conseguido reencontrar seu público e conquistar novas plateias. Tivemos desde a recepção morna da adaptação cinematográfica da peça Os Produtores até a overdose mundial que se tornou Mamma Mia! e Hairspray – Em Busca da Fama. O gênero estava há décadas estagnado e sem muita apreciação por parte dos espectadores comuns e críticos, mas Hollywood nunca o esqueceu. Muitos espetáculos que aliavam perfeitamente dramaturgia, dança e cantoria bombavam nos palcos mundo a fora e chamavam as atenções de produtores que desejavam levar toda aquela magia para as telonas, mas faltava alguém se arriscar primeiro para em seguida outros apostarem as fichas. Assim, um ano após os diversos prêmios e a excelente bilheteria mundial de Moulin Rouge – Amor em Vermelho chegava diretamente da Broadway para as telonas, com muito fôlego e brilho, Chicago, um delicioso musical que veio para vingar uma grande injustiça feita ao seu antecessor. O Oscar praticamente ignorou a produção do diretor Baz Luhrmann que deu um novo fôlego ao gênero, mas teve que se redimir no ano seguinte premiando com seis estatuetas, inclusive a de Melhor Filme, este filme regado a muito jazz do estreante na direção de cinema Rob Marshall. Criado pelo famoso diretor e coreógrafo Bob Fosse, o mesmo de Cabaret e All That Jazz (mesmo nome de uma das canções mais conhecidas de Chicago), dois grandes sucessos nos palcos e nos cinemas da década de 1970, muita gente achava impossível levar a história de duas mulheres em busca da fama a qualquer preço para as telonas devido aos diversos números de dança e troca de cenários e figurinos, mas o infalível faro para o sucesso de Harvey Weinstein, o produtor Midas da Miramax, deu sinal verde para a produção. Claro que houve a preocupação de rejeição por ser um musical, principalmente pelos jovens, mas confiaram que uma dupla de belas e talentosas atrizes como protagonistas seria a solução. E assim aconteceu. Apesar de um ótimo elenco coadjuvante, a alma do longa se deve aos esforços de Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger, respectivamente Velma Kelly e Roxie Hart, ambas em busca do sucesso e se trombando na cadeia. A primeira se apresentava em uma casa noturna junto com a irmã, mas acabou presa após cometer um duplo assassinato contra o namorado e sua parceira de palco. A outra, sonhando em ser famosa, acaba confiando demais em um mulherengo que lhe promete facilitar seu caminho ao estrelato e quando descobre que tudo que ele dizia era mentira cometeu o ato impensado de atirar em seu peito.

Na cadeia feminina, a vida das presidiárias é mais tranquila quando elas contribuem financeiramente com Mama Morton (Queen Latifah), a chefe das carcereiras, esta que é a ponte para chegarem até Billy Flynn (Richard Gere), um advogado que consegue vencer quase todos os casos que caem em suas mãos, desde que lhe paguem muito bem e sempre se aproveitando ao máximo das situações. No momento, ele se divide suas atenções entre Velma e Roxie, clientes que não parecem tão preocupadas em se livrar da prisão, mas sim em continuar em evidência na mídia. Isso até uma próxima assassina surgir e roubar os holofotes para si. Costurando esta trama passada na década de 1920, temos interessantes reviravoltas do roteiro, boas tiradas de humor, inclusive visuais como a peruca igual ao cabelo de Roxie se tornando acessório indispensável para a mulher descolada da época, e deliciosos números musicais com edição frenética e muito bem fotografados e iluminados. A história que baseou esta obra realmente aconteceu na década em que o filme se passa. Uma jovem aspirante a dançarina e atriz matou o amante e seu caso ganhou as manchetes de todos os jornais impressos e espaço até nas rádios. Seis anos depois, o que era verídico ganhou toques fantasiosos ao receber uma versão teatral pelas mãos da repórter responsável pela cobertura dos fatos, Maurine Dallas Watkins (que seria a personagem de Christine Baranski), que também inspirou dois filmes cerca de vinte anos depois. Em 1975, Fosse ofereceu os direitos de seu próprio livro baseado na antiga peça teatral para ser adaptado para a Broadway, mas o sucesso da obra não foi muito grande e o diretor continuou tentando levar este enredo aos cinemas, inclusive cogitando Madonna para ser uma das protagonistas, mas acabou falecendo em 1987. Após finalmente emplacar como projeto teatral em 1996, o roteiro felizmente chegou as mãos do diretor e coreógrafo Marshall que venceu a concorrência de cineastas experientes com musicais. Surpreendentemente, o que já era bom ficou melhor. Ele não somente aproveitou a história e as canções do espetáculo como manteve o ar teatral para a versão cinematográfica. Grande parte das cenas de dança faz parte da imaginação de Roxie, transportando as situações reais para um palco imaginário onde não há limites, podendo um tribunal se transformar em uma arena de circo e um enforcamento ser comparado a um show destinado ao deleite da imprensa. Dessa forma, o recurso do teatro vaudeville, um tipo de comédia na qual os personagens não têm aprofundamento psicológico e músicas são inseridas intermediando a trama, é usado da primeira a última cena com muita precisão e eficiência.

Muita gente repudia os musicais justamente por causa do recurso de substituir diálogos por canções que misturam versos rimados com outras frases que traduzem ações, pensamentos ou sentimentos dos personagens, mas aqui a coisa é diferente. Quase todos os números de canto e dança são excepcionais, e olha que eles existem em boa quantidade nesta produção. Na realidade todos eles são bem executados e proporcionam um deleite visual indescritível, mas obviamente um ou outro tem alguma estrofe que soa esquisita na tradução (tudo em legenda, fique bem claro) ou algum exagero na coreografia, mas nada que mereça críticas. A passagem das cenas normais para as de dança são muito naturais e convidam o espectador a sonhar junto com os personagens. É difícil escolher qual sequência musical é melhor. Destacam-se o número de abertura com Velma deslumbrante e mostrando porque sua intérprete foi selecionada para o elenco (Catherine é protagonista também, mas nas premiações ficou classificada como coadjuvante para aumentar suas chances de vencer), a apresentação da personagem Mama, com todos os dotes vocais possíveis daquela mulher que até então parecia fadada a fazer comédias bobocas, e a última cena, com uma deliciosa melodia e um senso de humor incrível. Gere e Renée tiraram a sorte grande e conseguiram bons números, como o do ventríloquo e o sapateado intermediando o julgamento da loirinha com cara de anjo. É impossível descrever tais cenas, só vendo para compreender, até porque elas mesclam fantasia e realidade de uma forma formidável, caracterizando-se como mais um recurso de humor visual e narrativo de criatividade ímpar. Claro que a disponibilidade dos atores em cantar, dançar e até do elenco masculino em usar maquiagem e roupas extravagantes faz toda a diferença na composição final. É muito difícil pensar na história desta obra sem lembrar-se dos seus números musicais. Eles não são inseridos apenas para divertir e dar um colorido à obra, mas são partes essenciais da narrativa e o grande trunfo do longa. Sem eles, provável que o roteiro fosse apenas razoável ou nem isso. A ascensão ao estrelato de Roxie, por exemplo, só funciona por causa do bom humor impresso nas canções, danças e elementos visuais que servem para expor rapidamente sua mudança de vida repentina. Só cremos na eficiência do advogado Flynn graças a apresentação de suas armas (entenda-se lábia e charme) em um agradável número em que ele é a estrela rodeado de belas mulheres que sucumbiram ao seu poder de sedução. Claro que se analisarmos os personagens e situações com enfoque realista nada se tornará crível e começaremos a detonar o trabalho. É preciso se embriagar da atmosfera boêmia e circense que Marshall nos oferece para curtirmos plenamente Chicago, um dos maiores espetáculos cinematográficos dos últimos tempos que conta com uma parte técnica invejável, mas que não permite que suas forças se concentrem apenas em cenografia, figurinos, iluminação ou afins. A força deste trabalho está na dedicação de um elenco excepcional que não se fez de rogado e vestiu literalmente a fantasia necessária para transportar o público para um ambiente sensual e lúdico no qual a palavra de ordem é diversão. Para aqueles que ainda são resistentes ao gênero musical esta é uma boa pedida para começar a mudar de ideia.

Vencedor do Oscar de filme, atriz coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), edição, direção de arte, figurino e som

Musical - 100 min - 2002

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Um comentário:

marcos disse...

Chicago é musical encantador, no entanto não valeu receber aquele Oscar que era destinado ao filme Moulin Rouge que álias, foi o filme que trouxe novamente os musicais em alta.

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