segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O EFEITO DA FÚRIA

NOTA 5,5

Drama enfoca a vida de
personagens após sofrerem
um trauma, mas roteiro
frouxo não prende atenção
Quando somos crianças é comum termos medo de muitas coisas, afinal de contas estamos conhecendo o mundo. Observando dessa forma, ter medo de fantasmas é algo normal até para um adulto já que a vida após a morte é e provavelmente continuará sendo uma eterna incógnita. Porém, nos dias atuais nada deve causar mais medo do que o próprio homem e a violência que ele instiga no seu dia-a-dia nos mais diversos ambientes e contra pessoas conhecidas ou não. Já pensou você sair para jantar com a família em um restaurante e não ter a certeza se voltará são e salvo com todos? Isso poderia ser ficção, mas infelizmente tornou-se uma realidade frequente provocada pela maldade de algumas pessoas que cometem assaltos, sequestros e até mesmo assassinatos em troca de dinheiro, jóias, carros ou ainda pelo motivo de não satisfeitos com suas vidas alguns indivíduos decidirem se matar, mas não sem antes provocar o sofrimento de outras pessoas, como se fosse uma maneira de extravasar a raiva que sentem da vida por inúmeras razões. Roy Freirich optou pela segunda opção para desenvolver o roteiro de O Efeito da Fúria, um drama irregular que não joga o foco no “vilão”, mas centra suas atenções nos personagens que sobreviveram aos seus atos irracionais. Adotando uma linha narrativa fragmentada e com muitos flashbacks, ao longo do filme ficamos sabendo o que realmente aconteceu em uma tarde ensolarada dentro de uma lanchonete, o que houve com as pessoas que saíram com vida de lá e como tal fatalidade atingiu as pessoas que convivem com os sobreviventes. Todavia, esse vai e vem do tempo e algumas ações dos personagens acabam tornando este filme cansativo e por vezes confuso. Se a intenção era emocionar com o drama destas pessoas, o diretor Rowan Woods, do drama Sob o Efeito da Água, não conseguiu alcançar seus objetivos plenamente, no máximo causar certo desconforto no espectador que pode até julgar as ações de quem está em cena, mas como ele próprio reagiria se sobrevivesse a uma tragédia? É essa inquietação que o filme consegue provocar, uma sensação que corriqueiramente vivenciamos acompanhando a cobertura da mídia sobre episódios tristes e marcantes, como um tiroteio em uma sala de cinema, uma explosão em uma boate ou um sequestro que termina com morte. Indiferente, amedrontado, sensibilizado, desamparado, crítico, são várias as formas que um ser humano pode reagir a episódios do tipo.

Adotando um estilo parecido com Crash – No Limite, obviamente guardadas as devidas proporções, e tantos outros filmes menores ou pretensiosos que trabalham com várias histórias paralelas que encontram um ponto de encontro ou ainda aqueles que mostram vários pontos de vista sobre um mesmo fato, a narrativa começa apresentando aquele que era para ser mais um dia comum de trabalho em uma lanchonete, porém, a entrada de um indivíduo aparentemente normal transformou completamente o ambiente e as pessoas que lá estavam. Do nada esse homem saca um revólver e começa a atirar para tudo quanto é lado, assim matando muitas pessoas e depois ele tirou sua própria vida. Agora os sobreviventes da tragédia precisam tentar reagir a esse episódio traumático, cada qual da melhor maneira que encontrar. A garçonete Carla (Kate Beckinsale) é uma mãe solteira e desnaturada que acaba vendo com maus olhos a ação de grupos de ajuda às vítimas e cria certa obsessão pelo médico Bruce (Guy Pearce) que também estava no local na hora do tiroteio, um homem empenhado em realizar novas experiências na área de saúde, mesmo que precise usar a esposa doente como cobaia. O doutor fica obcecado pela ideia de salvar vidas, pois carrega sentimentos de culpa. Quando saia da lanchonete coincidentemente o assassino estava entrando e ele lhe abriu a porta, além do médico se ressentir por não ter salvado um dos baleados. Já Charlie (Forest Whitaker) está tão confiante que a sorte está do seu lado após o incidente que começa a apostar em jogos de azar, uma prática que trará altos e baixos para sua vida, mas também atrapalhará a de sua filha Kathy (Jennifer Hudson), que passa a ser importunada por detetives devido aos problemas do pai, o qual ela desconhece o paradeiro. Anne (Dakota Fanning), que teve seu pai assassinado, muda completamente seu comportamento ao procurar auxílio em uma religião, incentivando a todos a terem força e acreditarem nos poderes de Deus, mas na realidade ela omite o que realmente aconteceu naquela fatídica tarde. Por fim, Jimmy (Josh Hutcherson) presencia muitas discussões entre seus pais, torna-se amargurado e triste e pensa constantemente na morte, embora ele já tenha quase vivido essa experiência sem retorno. Emudecido após a chacina, ninguém sabe ao certo o que ele viu, principalmente porque o garoto acata o pedido de sua amiga Anne para não contar absolutamente nada. As reações de jovens e adultos são distintas, cada um foi procurar forças para seguir em frente de uma forma diferente. Religião, distração, trabalho, família ou o silêncio, seja qual for o caminho seguido é certo que nada apagará definitivamente suas tristes memórias daquela tarde.

Embora trabalhe com uma temática interessante e aposte em uma estrutura diferenciada para alinhavar várias histórias e adicionar certo suspense à trama, Woods no fundo entrega um drama convencional e com muitos pontos falhos. O que era para ser a grande cartada do filme, a narrativa fragmentada, acaba trabalhando contra. A introdução é bem realizada e impactante. Logo de cara já somos apresentados à cena do crime que desencadeará todos os conflitos posteriores dos personagens, porém, depois que vemos tal cena ápice o que podemos esperar? Era preciso um roteiro bem mais apurado para prender a atenção do espectador. Além das várias repetições da sequência da chacina pela ótica dos sobreviventes, as reviravoltas nas vidas dos personagens não são lá muito interessantes ou pelo menos foram desenvolvidas de forma preguiçosa, um problema acentuado pela má edição que permitiu que as cenas ficassem soltas. Estamos acompanhando a trajetória de um personagem e de repente a vida de outro é destacada, mas não é criado um gancho entre essas cenas. Em produções do tipo, é comum termos a expectativa de que em algum momento da narrativa os núcleos irão se unir ou ao menos algum fato em comum criará definitivamente um elo entre eles, mas no caso a única coisa que acaba por reunir o elenco principal recheado de nomes famosos é mesmo o acidente do início. A conclusão parece ter sido criada no limite do tempo para encerrar as filmagens. A personagem Anne faz um meloso discurso em off para acompanhar um amontoado de imagens que mostra que não importa o que passou a vida está ai para ser vivida e cada um deve encontrar a melhor maneira possível de fazer isso. O cinema, principalmente o de ação, usa muito a temática da violência e da banalização da vida e dos valores morais, mas poucos filmes tratam essas mazelas sociais com o respeito que merecem. A maioria utiliza tais temas apenas alinhavar tramas desnecessárias para matar tempo livre. O drama é o gênero ideal para aprofundar tais questões, mas é preciso ter coragem e inteligência para tocar nestas feridas, coisa que nem o diretor e nem o roteirista de O Efeito da Fúria tiveram. Jogaram a oportunidade de realizarem um trabalho marcante e polêmico. É certo que falar sobre sentimentos e reações humanas não é fácil, demanda inclusive uma pesquisa minuciosa tanto teórica quanto prática, mas o material apresentado neste caso serve, como já dito, no máximo para causar certo incômodo ao espectador. Pena que tal mal estar provavelmente não seja pelas indagações e sensações que a temática do longa pode despertar, mas sim pela vontade de que os créditos finais apareçam na tela rapidamente. Todavia, para quem não gosta de tudo mastigadinho, vale a pena dar uma conferida e criar em sua própria mente a sua versão melhorada desta obra de acordo com sua compreensão. Um exercício interessante, mas infelizmente que poucos aceitam por livre e espontânea vontade.

Drama - 95 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.

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