quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O GRITO

NOTA 7,0

Refilmagem de terror
japonês mantém muitos
elementos da obra original,
inclusive o próprio diretor
Diga o nome de um filme de teror que você não resiste em rever de tempos em tempos. Obviamente esta é uma pergunta mais destinada aos fãs do gênero e certamente eles buscarão a resposta lá no fundo do baú e dirão que o seu preferido é O Exorcista ou O Bebê de Rosemary. Poderão também recorrer aos longas de monstros clássicos vividos por Bela Lugosi ou Christopher Lee ou ainda irão dizer que o melhor dos últimos tempos foi Jogos Mortais enfatizando que só o primeiro da série vale a pena. Mas e algum título da safra dos remakes orientais produzidos em Hollywood? Ah, aí o bicho pega e todo mundo tem vergonha de assumir que pelo menos uma vez na vida ficou de pernas bambas ao ver uma assombração de olhinhos puxados. O período mais fértil dos remakes de horror orientais marcou os primeiros anos do século 21, um movimento cinematográfico que gerou milhões, mas fatalmente chegou à saturação principalmente quando os longas originais conseguiram brechas para serem exibidos nos cinemas e chegarem às locadoras ocidentais. Tudo que é demais cansa e a qualidade das produções declinou tanto do lado ocidental quanto do oriental. É certo que nenhuma delas tem potencial de obra-prima, mas não podemos negar que essas tais refilmagens em sua maioria são divertidas e cumprem seus objetivos: causar sustos, arrepios, gritarias e serem esquecidas rapidamente (ou não, depende de cada um).  O Grito é um bom exemplo desse tipo de produção objetiva. Logo no início tomamos conhecimento de uma crendice japonesa. Quando alguém morre em um momento de raiva nasce uma maldição no local onde tal pessoa se encontrava na hora da morte, assim quem entra em contato com o espaço acaba sendo amaldiçoado e todos a sua volta correm o risco de morrer, inclusive o próprio indivíduo desavisado. Em Tóquio encontramos a estudante americana Karen Davis (Sarah Michelle Gellar) que foi morar lá para acompanhar o namorado Doug (Jason Behr) e trabalha como voluntária em um centro social. Certo dia lhe é solicitado que ela substitua uma jovem que não foi trabalhar e sumiu misteriosamente. Sua tarefa é cuidar de Emma Williams (Grace Zabriskie), uma senhora de idade que sofre de letargia associada à demência. Quando chega ao local, Karen encontra essa mulher sozinha demonstrando um comportamento estranho, muito calada e com olhos assustados, enquanto o resto da casa parece abandonado. A voluntária trata de Emma e tenta dar um jeito na bagunça da casa, mas sentindo uma vibração negativa e ouvindo barulhos estranhos ela passa a explorar melhor o local e ao abrir um armário acaba liberando uma maldição que até então desconhecia. Agora ela precisa tentar salvar sua vida e a de outras pessoas com quem convive, mas para cortar este mal de vez talvez só mesmo tomando medidas drásticas.
 
Adotando uma narrativa não linear, a primeira parte do filme exige um pouco mais de atenção. Por meio de flashbacks são apresentadas diversas cenas que serão de muita importância para compreendermos os eventos futuros. Bill Pullman faz uma participação logo no início sem falar uma palavra sequer, mas apresentando-se como a primeira vítima que conheceremos da tal maldição. Depois acompanhamos como a família americana Williams chegou a casa e como todos os membros foram rapidamente tomados pelo espírito maligno. Mais a frente tais cenas farão sentido quando ficamos sabendo mais sobre o passado dessa residência e de seus antigos habitantes, Kayako (Takako Fuji) e o filho Toshio (Yuka Ozeki). Bem, filmes sobre casas assombradas existem às pencas em solo americano, mas qual o problema de refilmar uma história similar oriental de grande sucesso? Nenhum desde que se respeite a obra original. Para não errar em nada (ou pelo menos o mínimo possível), o produtor Sam Raimi, na época um nome de ouro com o sucesso dos dois primeiros filmes de sua série protagonizada pelo Homem-Aranha, conseguiu convencer o diretor Takashi Shimizu para assumir a direção e o texto da adaptação de seu próprio trabalho, Ju-On: The Grudge, aliando a sutileza e o estilo narrativo japonês aos exageros hollywoodianos. E a mistura deu muito certo. Além de contar uma história de fantasmas levemente diferenciada, esta refilmagem colaborou para aumentar a procura pelos filmes originais orientais visto que na época O Chamado já tinha conquistado seus fãs e havia muita expectativa em torno da estréia de Água Negra. É bom deixar claro que esta nova versão da obra de Shimizu não é apenas uma produção caça-níquel, mas também melhora e corrige erros do exemplar japonês. O remake tem personagens mais bem estruturados e fáceis de distinguir, o clima de claustrofobia e terror foi intensificado e o final foi repensado. Foi uma boa ideia também manter a ação em solo nipônico e resgatar parte do elenco original, como os atores que interpretam os fantasmas, pequenos detalhes que contribuem e muito para dar certo ar de novidade a este terror americanizado. Vale ressaltar ainda que algumas cenas são idênticas as de Ju-On: The Grudge, mas aqui ganham um impacto maior devido a polida de imagem oferecida pela equipe de fotografia e pelos efeitos especiais empregados de melhor qualidade, mas usados com parcimônia provando que quanto mais realista melhor o terror. É de gelar o sangue sequências como a primeira aparição de Toshio, ver uma aparição esgueirando-se na escadaria de incêndio ou ainda o embate final literalmente cara a cara entre a mocinha e a tal maldição.

O bacana deste roteiro, co-escrito por Stephen Susco, é que ele não enrola e desde os créditos iniciais, embalado por uma sinistra trilha musical, já estamos tomados pelo sentimento de medo. Aqui não tem enrolação. É difícil encontrar algum filme de terror que surpreenda, mas ainda assim seus diretores queimam os miolos para tentar envolver o espectador e disfarçar ao máximo a previsibilidade de suas histórias. Já Shimizu em poucos minutos de filme coloca na mesa boa parte de suas cartas, mas não deixa o jogo esfriar. Se a maldição é aparentemente sem fim, a todo instante nos indagamos qual será o final de Karen? Talvez seja esse o diferencial que fez a fama das produções de horror orientais. Segundo escritores nipônicos, o mal apresentado sem forma definida é o que impacta o espectador, afinal de contas lidar com o desconhecido desperta a curiosidade e o medo naturalmente. Neste caso, por exemplo, o fantasma de Toshio não está totalmente preso à tal casa amaldiçoada e tem livre arbítrio para ir buscar suas vítimas em outros endereços, porém, é algo indestrutível, oferece outro tipo de perigo que um ser humano ou um animal selvagem, não sabemos como lidar com um espírito. Todavia, se o diretor capricha nas cenas de mortes e nos sustos, porém, jogou fora a oportunidade de elevar sua obra a um patamar mais elevado. Uma das regras básicas de uma produção de terror é tentar criar em pouco tempo uma relação entre espectador e personagens para que seja possível sofrer com seus dramas, mas Shimizu arriscou-se ao simplesmente criar um frágil elo entre os coadjuvantes (em rápidas participações) e a protagonista, contudo não é que deu certo? Sarah Michelle Gellar tem carisma suficiente para levar a história adiante, mas é bacana ver que até os personagens menores que somem rapidamente de cena receberam uma atenção especial. Quando eles estão em foco, nem nos lembramos da mocinha. É muito fácil dizer que O Grito é um filme ruim, mas em uma análise mais profunda é possível perceber que este trabalho transforma a previsibilidade e a rapidez em seus aliados. Não há sentimentalismo barato, o clima de claustrofobia é constante e não há preocupação em surpreender o espectador nas sequências de morte, apenas saciá-lo recorrendo aos clichês típicos. Shimizu deve ter uma fórmula mágica para fazer o público sentir medo, só assim para explicar como ainda nos amedrontamos neste caso com um silêncio perturbador rasgado por um estridente efeito sonoro, com barulhos estranhos acompanhados do piscar de luzes, com relances de sombras em paredes e espelhos e com uma trilha sonora macabra estrategicamente adicionada. Bem, se ele tinha algum truque para fazer o público embarcar na sua fantasia macabra, o efeito durou pouco. Ele também assumiu a inevitável continuação, mas tal filme nem vale uma crítica de tão ruim que é. Ainda foi realizado um terceiro longa da série, mas deste até Shimizu pulou fora. É melhor ficar com o original, e neste caso pode ser o “original” americano que é tão bom quanto o japonês.

Terror - 91 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo. 
 

Um comentário:

Ramon Prates disse...

Tem muito tempo que eu vi esse filme, mas na época não lembro de ter curtido muito não.

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