terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O HOMEM BICENTENÁRIO

NOTA 7,5

Boa premissa e tema
polêmico acabam rendendo
menos que o esperado em
drama simplista e familiar
Em um passado não muito distante muitos acreditavam que logo nos primeiros anos do século 21 seria possível viver em modernos e equipados apartamentos tal qual a família Jetsons, os automóveis se assemelhariam a aeronaves e poderíamos programas férias na Lua ou em Marte. O cinema sempre ajudou a alimentar tais fantasias, mas o fato é que já passou mais de uma década de um novo milênio e nenhum desses devaneios tornaram-se realidade. Ok, muitas coisas modernas e antes inimagináveis ganharam corpo e formas e hoje fazem parte do nosso cotidiano, diga-se de passagem, algumas invenções totalmente dispensáveis, mas muitas outras extremamente bem-vindas. Televisões, computadores, celulares e outros eletrodomésticos ganham atualizações anualmente e podem ser vistos como armações para fazer o consumidor gastar dinheiro, não é a toa que muitos equipamentos duram de um a três anos no máximo e quando precisam de consertos as peças são raridades. Por outro lado, a tecnologia ajuda e muito na área de saúde como, por exemplo, proporcionando qualidade de vida à deficientes físicos e mentais, acidentados e acometidos de graves doenças. Além dos membros e até órgãos artificiais implantados em corpos humanos, hoje já é possível utilizar computadores e robôs para ajudar na recuperação do intelecto, fala, audição, visão e locomoção de muitos pacientes. Estes temas rendem boas discussões, tem seus prós e contras e, como já dito, são fontes de inspiração para a sétima arte. Talvez pela complexidade do assunto o público e crítica acabaram por não dar o devido valor ao eficiente drama O Homem Bicentenário, que traz um enredo instigante, mas que foi simplificado pelo diretor Chris Columbus. Se os humanos ainda sonham com a eternidade e cada vez mais parecem ser máquinas controladas pelo tempo e pelos modismos, o que levaria um robô a querer ganhar vida de verdade? Em pouco mais de duas horas o cineasta de sucessos familiares como Esqueceram de Mim e Uma Babá Quase Perfeita tem a chance de realizar o trabalho de sua vida, mas a desperdiça. Não que o filme seja ruim, longe disso, mas o tempo é muito curto para desenvolver um roteiro que fala sobre educação, família, sonhos, alegrias, tristezas, direitos, ética, enfim, há um leque enorme de possibilidades a serem trabalhadas, mas que não competem à um projeto comercial. Todavia não devemos levar ao pé da letra tal definição para todos os filmes que visam lucro. Uma obra que quer chegar até os populares não precisa obrigatoriamente ser de puro escapismo, mas pode e deve conter elementos que o elevem do patamar de um produto regular ou apenas para diversão, como neste caso em que entretenimento e conteúdo casam bem, ainda que o resultado final pudesse ser bem melhor.
 
Baseado no romance “The Positronic Man”, de Isaac Asimov, a história se passa em 2005 (lembrando que o longa é de 1999) e nos apresenta a uma típica família americana de classe média-alta chefiada por Richard Martin (Sam Neil). Certo dia ele faz uma surpresa para a esposa e as filhas e compra um novo e excêntrico utensílio doméstico: um robô. Andrew (Robin Williams) é uma criação de uma visionária empresa que comercializa os empregados perfeitos, o que leva os consumidores a economizarem tempo e dinheiro, pois não precisam pagar salários e as ordens só são dadas uma única vez e imediatamente todas são arquivadas na memória das máquinas. Programado para realizar tarefas simples como cuidar dos afazeres da cozinha e a limpeza da casa, porém, Andrew é dotado de características que aparentemente o difere de outros de seu tipo, espécie ou lote. Aos poucos ela passa a apresentar traços característicos humanos como inteligência, curiosidade e personalidade própria. No início, a família estranha o seu comportamento e até cogita devolvê-lo à fábrica ou pelo menos exigir reparos, mas os “defeitos” desta invenção acabam por cativar a todos e assim o tempo foi passando e Andrew participou ativamente do cotidiano de todos os membros desse clã e cada vez mais buscou informações sobre o comportamento e os sentimentos humanos, ainda que não abandonasse as leis da robótica que o regiam. Assim ele começou a questionar o porquê das pessoas envelhecerem e deixarem de existir, uma condição que não o agradava, pois ele percebeu que não podia fazer nada para impedir isso e que inevitavelmente um dia faria parte de um outro núcleo familiar ou, na pior das hipóteses, seria desativado ou obrigado a viver na solidão por tempo indeterminado. Richard, já idoso, decide ajudar o seu fiel empregado, então já considerado um membro da família, a tentar encontrar um novo caminho a seguir. Andrew não quer apenas fisicamente tentar se tornar o mais próximo possível de um humano, mas também ter a chance de viver plenamente emoções e sensações das quais ele tem apenas noções, inclusive a experiência de viver um grande amor e também de conviver com a ideia da morte como única certeza da vida. Seus sonhos podem se tornar realidade quando ele conhece o cientista Rupert Burns (Oliver Platt) que aceita o desafio de tentar transformar uma máquina em um ser humano perfeito ou quase isso. Essa sua incansável jornada em busca de um objetivo que pode mudar de certa forma a História da sociedade também é acompanhada bem de perto por Portia (Embeth Davidtz), uma das filhas de seu senhorio com a qual ele sempre teve problemas de relacionamento, mas que quando adulta se aproximou de Andrew e despertou nele o amor. Pouco tempo depois deste lançamento, Steven Spielberg usou alguns argumentos semelhantes deste enredo para a história de A.I. – Inteligência Artificial, uma produção muito mais requintada e próxima do estilo de ficção científica, um projeto antigo do cineasta então recém-falecido Stanley Kubrick, o que prova que a convivência entre andróides e humanos já faz a cabeça de Hollywood há tempos.

O roteiro de Nicholas Kazan tenta condensar muitas décadas em poucos minutos, o que nos leva a ter diversos clímaces falsos e uma narrativa por vezes cansativa, e parece se dividir em dois blocos. O primeiro é marcado por um tom mais leve e humorístico e não vemos Williams em carne e osso já que está usando uma pesada armadura de alumínio. Nessa parte acompanhamos a adaptação do robô à família que o acolheu e vice-versa. As situações propostas são simples, mas ao mesmo tempo complexas, pois envolvem uma alta carga de psicologia, tolerância e educação. Por exemplo, não é fácil para uma pessoa jantar tendo uma máquina por perto que parece registrar cada movimento seu. Também não é fácil para o robô escapar de traquinagens infantis. Partindo do princípio da obediência, pediu para se jogar da janela do segundo andar da casa não tem conversa, o pedido é aceito na hora. Entre erros e acertos, os humanos vão aprendendo a lidar com a modernidade impondo limites e aceitando outras coisas, mas para o robô esse aprendizado não é tão simples, pois está dentro dele a “falha” de ter uma inteligência acima do normal, o que aguça sua curiosidade e lhe desperta sentimentos, ainda que não saiba distinguir ou compreendê-los. A segunda parte já é mais dramática, reflexiva e melancólica. Andrew ganha de seu dono o direito e o apoio de não apenas ter a sua alforria do trabalho, mas também de tentar ser respeitado em um mundo que talvez não estivesse preparado para recebê-lo, mas que o criou e agora não pode tratá-lo como sucata. A trajetória de aprendizado e reconhecimento como um humano deste robô, se analisarmos bem, nos alerta sobre o quanto é importante a vida e saber aproveitá-la. Sonhamos com a eternidade, mas parece que a cada dia o ser humano trata a sua própria existência como algo banal e não damos importância a pequenos fatos cotidianos que podem ser ricos em beleza e emoção, pois não há tempo a perder. Aliás, Columbus insere uma interessante ironia que pode passar despercebida. Andrew, no início, não faz apenas serviços domésticos, mas trabalha também construindo e restaurando relógios, assim o tempo está presente no seu dia-a-dia, mas ele próprio não compreende esta grandeza por ser teoricamente um imortal. Falando nos ponteiros dos relógios que não param de andar, como dito antes, são justamente eles que trabalham contra O Homem Bicentenário. Os questionamentos possíveis em torno da criação de um robô no estilo de Andrew não cabem em tão pouco tempo e até mesmo o diretor parece não querer se envolver em polêmicas, preferindo sugerir que o espectador reflita a respeito de seu conto. De qualquer forma este é um belo filme que merece uma revisão para ser mais bem avaliado.

Drama - 130 min - 1999 - Dê sua opinião abaixo.

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