sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

1408

NOTA 7,0

Suspense claustrofóbico
garante bons sustos, mas na
hora da conclusão deixa
respostas em aberto
Quem se entusiasma a assistir a um filme no qual praticamente temos apenas um ator em cena? Bem, Tom Hanks teve êxito em Náufrago alternando momentos cômicos e dramáticos em uma ensolarada ilha deserta acompanhado de uma bola de vôlei, mas será possível acompanhar uma trama na qual um homem tem como companhia apenas a sua própria loucura ou o medo em um ambiente claustrofóbico? A resposta é sim, desde que o enredo seja de qualidade e provoque sustos de verdade, não risos como muitos filmes de suspense de hoje em dia. O ator John Cusack assumiu a difícil tarefa de envolver o público em um clima de tensão constante tornando-se o protagonista de 1408, suspense baseado em um conto homônimo do livro “Tudo é Eventual” de autoria de Stephen King. Sua versão cinematográfica não é excepcional, porém, cumpre seus objetivos e nos poupa da sanguinolência e carnificina gratuita apostando mais em uma temática de terror psicológico. A trama gira em torno de Mike Enslin (Cusack), um romancista que decidiu experimentar novos caminhos e passou a escrever livros sobre fenômenos paranormais, ou melhor, obras para demonstrar que coisas do além não passam de frutos de imaginações férteis. Totalmente cético, principalmente após perder precocemente uma filha, ele aceita como seu próximo desafio comprovar que não existe nada de assustador no quarto 1408 do tradicional Dolphin Hotel que fica em plena fervilhante Nova York. O cômodo tem fama de ser habitado por espíritos malignos e que quem se hospeda nele morre em pouco tempo. O gerente do hotel, Gerald Olin (Samuel L. Jackson), o avisa que exatamente 56 mortes ocorreram neste quarto e desde o último corpo encontrado este aposento não é mais cedido a hóspedes e só é limpo mediante a um esquema especial. Mesmo assim, Enslin está disposto a provar que não existe nada de diabólico lá, mas também descobrir porque nenhum dos hóspedes sobreviveu a mais de uma hora trancado no quarto.

Como o conto original, supostamente baseado em fatos reais, tem pouco mais de vinte páginas, os roteiristas Matt Greenberg, Scott Alexander e Larry Karaszewski tomaram algumas liberdades para engordar o enredo, mas tudo que foi acrescentado não foge do contexto. O início do longa é repleto de clichês e conta com uma atuação insossa de Samuel L. Jackson, mas a partir do momento em que o pouco tempo que resta de vida para Enslin passa a ser contado no relógio minuto a minuto a coisa muda de figura. Essa é a deixa para Cusack brilhar absolutamente sozinho e colocar o espectador na dúvida se tudo que está vento é fruto de uma repentina demência do protagonista ou realmente manifestações do além. O diretor sueco Mikael Hafström, indicado ao Oscar de filme estrangeiro por Evil – Raízes do Mal, conseguiu fugir dos lugares comuns do gênero e criou uma excepcional atmosfera claustrofóbica da qual é impossível o espectador não compartilhar da sensação de sufoco. Com domínio da câmera e senso para explorar o cenário limitado, o cineasta consegue passar a impressão que cada canto do quarto esconde algo que a qualquer momento irá surpreender o incrédulo hóspede e consequentemente o espectador. Mantendo a tradição do cinema europeu, Hafström não tem pressa para chegar ao que interessa e os minutos iniciais servem para conhecermos melhor o protagonista. Pouco a pouco vamos conhecendo um pouco da vida do escritor e vários diálogos são inseridos para demonstrar a sua incredulidade. É certo que Enslin não ganha a simpatia do público logo de cara, porém, mais adiante nos envolvemos com os dramas e medos do rapaz. Cusack, embora com um currículo extenso e com bons títulos, até então não era considerado um nome capaz de chamar a atenção. Ainda que já tenha protagonizado algumas produções, foi neste suspense que o ator teve a chance de mostrar que pode literalmente segurar um filme sozinho. Ele alterna momentos dramáticos, outros de tensão e alguns de pura insanidade, mas tudo de forma perfeitamente aceitável para o que o enredo visa. 
Considerado um dos maiores escritores de livros de terror e de temática sobrenaturais, o nome Stephen King atrelado a um projeto de cinema por si só já é uma publicidade e tanto, mas é certo que muitas de suas obras não foram sucesso em suas versões cinematográficas, mas felizmente a produção aqui em questão faz parte do time das boas adaptações. As intenções de Hafström jamais foram jogar o espectador em uma montanha russa de emoções ininterruptas, mas sim provocar um medo crescente dosando as sequências mais assustadoras e dando algumas pausas para a plateia respirar.  Claro que este suspense não está livre dos vícios hollywoodianos e apresenta alguns sustos previsíveis como vultos, ruídos estranhos e até mesmo um rádio que do nada começa a tocar música, porém, faz toda a diferença a maneira como estes clichês são inseridos na narrativa e é aí que 1408 ganha pontos para se manter acima da média atual das produções do gênero. Todavia, o longa não deixa de decepcionar em certos aspectos. As dúvidas a respeito das visões e acontecimentos dentro do tal quarto de hotel não são sanadas de forma satisfatória e nem ao menos temos uma explicação do por que da numeração do local ter tanta força para ser o título tanto do conto do livro quanto do próprio filme. Seria pelo fato da somatória resultar no supersticioso número 13? De qualquer forma, se você quer assistir a um filme de qualidade e de quebra levar bons sustos esta é uma ótima pedida. Para não contrariar as regras do cinemão americano, a última cena trata de manter o ponto de interrogação na cabeça do espectador. Assista, reflita e tire suas próprias conclusões.
Suspense - 94 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.
 

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