quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

COMPRAMOS UM ZOOLÓGICO

NOTA 7,5

Acostumado a produções
mais autorais, Cameron
Crowe dirige legítimo filme
família com muitos clichês
Já pensou como deve ser a rotina de quem vive dentro de um zoológico? Pois essa experiência é vivida pelo ator Matt Damon no longa Compramos um Zoológico, produção que apesar do título simplório tem um conteúdo que está longe de ser uma comédia bobinha protagonizada por bichinhos falantes ou ser resumido a um filme no qual os humanos sofrem um bocado para cuidar de seus pets endiabrados. Embora calcado em clichês, esta obra pode surpreender, tanto de forma negativa quanto positiva dependendo do ponto de vista, principalmente pelo fato do enredo explorar mais o drama que a comédia. Deve ser este o motivo da obra não ter feito grande sucesso e ser recebida com estranheza por boa parte dos espectadores que esperavam assistir um filme de outro estilo. No entanto, esta repulsa não deve ser encarada como um atestado de que a produção é ruim, pelo contrário, ela se encaixa perfeitamente na definição “feel good movie” tão popular entre os americanos, algo como filme bacana, leve, família entre outros adjetivos positivos. O roteiro de Aline Brosh McKenna, que também roteirizou O Diabo Veste Prada, é baseado no livro de memórias homônimo ao filme escrito por Benjamin Mee. Damon vive o protagonista, um jornalista que após a morte precoce da esposa tem de encontrar forças para dar continuidade à sua vida e para cuidar dos filhos, a pequena Rosie (Maggie Elizabeth Jones) e o adolescente Dylan (Colin Ford). O garoto, para variar, é um tanto rebelde e vive aprontando na escola até que chega o dia em que ele é expulso definitivamente. É nesse momento que Mee percebe que sua família precisa se reestruturar e o primeiro passo seria procurar uma nova casa para deixar no passado as más lembranças. Pai e filha querem um lugar agradável e com uma boa área livre, mesmo que fosse um pouco afastado da cidade. Após muita procura o local escolhido para fixarem moradia acaba sendo um tanto excêntrico: um zoológico desativado. Rosie adora a ideia, mas Dylan detesta, porém, o chefe da família decide por tentar revitalizar aquele espaço e gasta todas as suas economias para isso, além de contar com a ajuda de uma equipe especializada que também está empenhada nesta tarefa, uma turma liderada pela bela Kelly Foster (Scarlett Johansson), uma jovem que se dedica integralmente aos animais e que auxiliará seu mais novo amigo a cuidar e principalmente compreender a importância deste zoológico para todos que lá trabalham e para a população local.

Os clichês do longa já começam pela premissa. A morte de um ente querido estragando a felicidade de toda uma família. O pai entristecido que se distancia dos filhos. O adolescente adotando um comportamento reprovável como forma de demonstrar sua raiva. Depois temos a ternura da cena em que Mee vê sua filha interagindo alegremente com alguns animais, algo que inevitavelmente amolece o coração deste homem que então decide arcar com as despesas do local, salvando assim não só as vidas dos bichos, mas também as dos funcionários do zoológico e reestabelecendo o equilíbrio e a harmonia de sua própria família. No recheio do roteiro não faltam cenas tocantes como as que envolvem o sofrimento de um animal que precisa ser sacrificado e até aquela paradinha estratégica para relembrar o passado através de fotografias de momentos felizes do protagonista e sua falecida esposa. O longa não se aprofunda muito dramaticamente nas questões sobre como lidar com a morte, afinal é uma produção que visa principalmente o público infantil. Assim o que fica mais em evidência no enredo é a busca de um objetivo de vida, algo para ocupar o tempo e a cabeça. O protagonista vê na recuperação do zoológico uma forma de se redimir da culpa que sente por não ter uma família plenamente feliz. Ainda é possível concertar alguns erros. Ao revitalizar o espaço abandonado também seria possível estreitar os laços afetivos entre pai e filhos e de todos eles com a própria vida que tem seus momentos cruéis, mas também está repleta de eventos maravilhosos para todos desfrutarem. Essa narrativa simples e previsível ganha fôlego graças ao elenco talentoso. Devem ser destacadas as interpretações da adorável garotinha Maggie, que participa de cenas importantes e lacrimosas, de Scarlett Johansson, que deixa de lado o estilo sensual tão marcante em suas interpretações para encarnar uma mocinha romântica mais estilo convencional, e também de Elle Fanning como Lilly, uma típica garota do interior que apesar de pouco explorada pelo roteiro consegue chamar a atenção como o interesse amoroso do jovem Dylan. Já Damon, está competente como sempre, mas deveria ter se deixado levar mais pela emoção e a alegria que algumas sequências pediam. Em algumas partes parece não estar à vontade em cena ou compreendido o sentimento que elas exigiam.

Para quem se espanta com a razoável direção de atores e diálogos eficientes em um produto na melhor tradição a la sessão da tarde, basta dizer que quem orquestra toda esta produção é o famoso diretor Cameron Crowe que teve seu nome elevado às alturas uma década antes com o fenômeno Quase Famosos. Seu talento só tem a somar coisas positivas a este trabalho, porém, sua presença atrás das câmeras para alguns também pode ser um problema. Conhecido por obras mais autorais, Crowe tem um currículo eclético, ainda com poucos trabalhos devido à lacuna de tempo que costuma deixar entre suas produções, mas após seis anos afastado do cinema ele resolveu voltar assumindo a direção de um enredo simplório para o desespero de seus fãs mais conservadores. Sim, ele optou por dirigir e colaborar no roteiro de uma história de superação e conseguiu um resultado acima da média comparando-se com outras produções do tipo. Baseado em fatos reais, este filme não esconde seus vários clichês, mas compensa tudo com diálogos inteligentes e envolventes, interpretações convincentes e uma impecável fotografia que destaca ambientes e paisagens ensolarados, o que acaba trazendo ao público um contagiante clima alto astral. Talvez o que faltou neste caso para Crowe foi a ambição de chegar a um patamar mais elevado, ainda que seu trabalho anterior, Tudo Acontece em Elizabethtown, também tenha sido recebido de forma fria pelo público e dividido opiniões dos críticos. Todavia, Compramos um Zoológico conta com a ideia principal que permeia boa parte da filmografia do diretor: a busca pela felicidade se arriscando. O que deve ter irritado muita gente é o fato do cineasta ter adotado fielmente a fórmula dos citados “feel good movies” e não ter trazido inovação alguma a esse modelo de produção. Até a trilha sonora escolhida, quesito que geralmente se sobressai em suas obras, neste caso é um tanto convencional apostando até em timbres africanos, algo corriqueiro em filmes com animais. Todavia, vale destacar que Crowe tenta ao máximo evitar as lições de moral exageradas e procura escamotear os clichês o quanto pode, ainda que não resista a usar sua câmera para dar closes nos olhares tristes ou ingênuos dos bichinhos para satisfazer aos apelos melodramáticos característicos deste tipo de produto. De qualquer forma, é bom ver que diretores consagrados não se preocupam apenas com status, elogios e prêmios, mas sim em contar boas histórias, independente delas já terem sido levadas às telas centenas ou milhares de vezes. Cada cabeça é uma sentença e um mesmo tema pode gerar infinitas interpretações. Crowe procurou e conseguiu trabalhar com o assunto superação optando pelo viés do falecimento de um ente querido e a desestruturação de um núcleo familiar atingindo resultados acima da média. Tal qual o protagonista da história, o diretor jogou-se em uma arriscada empreitada em busca de um objetivo. Ainda com o pé atrás quanto a este trabalho? Arrisque-se. Certamente mal algum ele lhe trará.

Drama - 124 min - 2011 - Dê sua opinião abaixo.

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