domingo, 3 de fevereiro de 2013

O ÚLTIMO VOO

Nota 2,5 Tentando alinhavar fatos históricos e ficcionais, drama perde-se num deserto de ideias

Sinopse: Em 1933, Bill Lancaster, um aviador inglês que tentava bater um recorde de velocidade no trajeto de Londres à Cidade do Cabo, perde-se no deserto na região do Ténéré na África do Sul. Sua amante Marie (Marion Cotillard), também aviadora e aventureira, decide ir procurá-lo custe o que custar, mas ao sobrevoar o deserto a jovem é obrigada a aterrissar seu avião perto de uma companhia militar francesa. Ela é acolhida pelo capitão Vincent Brosseau (Guillaume Marquet), mas ele se recusa a ajudá-la nesta busca preocupado com as rebeliões dos tuaregs, o povo do local que ele deseja colonizar. Já o tenente Antoine Chauvet (Guillaume Canet) tenta fazê-la mudar de ideia, mas sem sucesso acaba decidindo acompanhá-la nessa expedição confrontando as ordens de seu superior no exército com quem já não mantinha um relacionamento muito amistoso.


Comentário: O cinema estrangeiro, ou seja, aquele feito fora do circuito hollywoodiano, costuma ter fãs fiéis, mas tem muito gaiato por aí que enche a boca para falar que adora produções do tipo mesmo sem assistir, simplesmente por achar que isso é coisa de gente fina ou intelectual. Bem, é um pensamento que teoricamente tem fundamentos, mas nem sempre um filme de outro país é garantia de qualidade, como é o caso do drama O Último Voo, que tem o chamariz de ser a primeira produção francesa protagonizada por Marion Cotillard após receber o Oscar de Melhor Atriz por Piaf – Um Hino ao Amor. Bem, ela deve ter gasto todas as suas energias na interpretação da famosa cantora, porque neste seu filme seguinte (embora tenha sido antes coadjuvante em algumas produções americanas) ela simplesmente está apática. Não é culpa da atriz, mas sim de uma narrativa lenta e problemática e de uma direção mais preocupada com a beleza plástica do filme. O diretor Karim Dridi através de belas tomadas consegue transportar o espectador para um local exasperante e quase que transmitir a intensa sensação de calor do deserto do Saara, o lugar escolhido para realizar as filmagens integralmente. Todavia, tanta preocupação com a plasticidade acabou se refletindo negativamente na narrativa. O roteiro escrito pelo próprio cineasta em parceria com Pascal Arnold baseia-se no romance “Le Dernier Vol de Lancaster”, de Sylvain Estibal, e dificilmente consegue envolver o espectador. Além da lentidão comprometedora, o enredo trabalha com duas linhas narrativas, mas ambas muito frágeis. A busca incessante da protagonista na busca de seu grande amor para reconquistar o sentido de sua vida poderia render um bom filme, isso se não fosse a pretensão em fazer deste filme algo maior do que ele deveria ser.  Uma trama política é adicionada para dar sustentação ao foco principal da história, mas também acaba não sendo bem desenvolvida. Até a metade do longa o assunto que domina a narrativa é a rixa existente entre os personagens Vincent e Antoine quanto ao tratamento dado aos nativos, os tuaregs, mas o tema é tratado de forma superficial e abandonado sem mais nem menos quando chegamos ao terceiro ato, momento em que efetivamente Marion assume o posto de protagonista, mas aí já é tarde demais para chamar a atenção da audiência. Curiosamente, a favor de uma trama ficcional, foram descartados alguns elementos do livro original que por sua vez é baseado em fatos reais. Sim, Bill Lancaster existiu, mas nesta obra cinematográfica só o conhecemos por meio de alguns diálogos entre Marie e Antoine que, diga-se de passagem, aparentemente redescobrem o amor literalmente um caindo nos braços do outro após uma longa caminhada que certamente é bem mais cansativa para quem assiste do que para os próprios personagens. É realmente uma pena que uma obra com uma trilha sonora impecável e imagens tão belas, mas com falhas como o figurino de Marion sempre muito ajeitadinho, tenha que receber críticas tão negativas. Sentimos que tanto a história de amor quanto a política só aguçaram nossos paladares, mas deixaram um gosto amargo por não serem desenvolvidas de forma plena. Infelizmente, no final das contas, um filme tão seco quanto sua escaldante paisagem.

Alternativos - 90 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

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