quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

MENTIRAS SINCERAS

NOTA 6,0

Drama explora a
intimidade de casal que vive
de aparências, mas o destino
trata de desmascará-lo
Existem alguns filmes que não tem defeitos a primeira vista e talvez assistidos pela segunda ou terceira vez também não revelem nenhum detalhe que os desqualifiquem, mas ainda assim não são obras memoráveis, todavia, não temos coragem de desmerecê-las. Mentiras Sinceras é um produto desse tipo. Não fez barulho em sua rápida passagem pelos cinemas e hoje é um título mais conhecido por um seleto grupo de espectadores que não o elevam a potência máxima de obra de arte, mas sabem reconhecer as suas qualidades e apontar como o principal defeito do longa a falta de ousadia e ambição do diretor inglês Julian Fellowes. Estreando no cargo de direção, mas experiente na área de roteiros, tendo ganhado um Oscar pelo texto de Assassinato em Gosford Park, este profissional também é ator, o que explica a sua predileção em realizar um filme para atores brilharem e as situações servirem como meras desculpas para os personagens extravasarem suas emoções contidas em nome de valores sociais, morais ou até mesmo por medo de seus próprios sentimentos. James Manning (Tom Wilkinson) e sua esposa Anne (Emily Watson), bem mais jovem que ele, formam o típico casal de fachada. Para amigos, vizinhos e parentes parecem muito felizes no casamento, mas na intimidade eles mal se falam e parecem guardar segredos e ressentimentos um do outro. Contudo, ele vê esta relação com bons olhos e acredita que vive um casamento feliz. Já ela tem certeza do contrário, mas parecer ter se acostumado a viver na rotina e relativamente distante do companheiro. Vez ou outra o casal deixa o melancólico cotidiano londrino para aproveitar algum tempo no campo e James tem a possibilidade de se divertir com os jogos de críquete, mas certo dia sua esposa acaba aproveitando essa distração do marido e arruma uma nova companhia. Bill Bule (Rupert Everett) é herdeiro de uma rica família inglesa, mas acaba de voltar dos EUA com novos hábitos e modos de pensar. É justamente o modo desencanado de ver a vida que chama a atenção de Anne, um comportamento totalmente oposto a seriedade de seu marido.  

O casamento dos Manning começa a ruir quando o marido da faxineira da casa, Maggie (Linda Basset), é morto atropelado nas imediações. James, por ser advogado, passa a investigar por conta própria o caso e desconfia muito do novo vizinho e é a partir de então que ele descobre em sua vida conjugal problemas que jamais imaginava existir. Todavia, todos os novos fatos desagradáveis que surgem após o tal acidente só vem a somar no desgaste deste casamento, nem podem ser considerados como causadores de males, mas sim como efeitos negativos de uma crise já iniciada a algum tempo. Aliás, o acidente que desencadeia o grande mote do filme é exibido logo na introdução e merece atenção, pois nesta sequência estão contidas informações importantes para compreendermos futuras passagens da narrativa. Baseado no romance “A Way Through the Wood”, de Nigel Balchin, o roteiro, escrito pelo próprio Fellowes, é até certo ponto bem comum, mas tem o mérito de não manipular o espectador. Apesar de termos uma morte com culpado e um caso de adultério em cena, jamais o enredo nos aponta vilões ou mocinhos. As pessoas que estão na tela têm suas qualidades, seus defeitos e naturalmente fazem escolhas que geram consequências inesperadas, que podem ser positivas ou negativas. Quem assiste tem a possibilidade de tomar partido de qualquer um dos lados das questões de acordo com seu entendimento racional e emocional. Talvez este seja o ponto chave para explicar a pouca repercussão deste drama. Estamos tão acostumados a ter tudo bem mastigadinho nos filmes de forma que não temos como contestar algumas verdades ou mentiras que quando temos uma proposta diferenciada como esta não sabemos como agir, como recebê-la, simplesmente porque são poucos os que tem a inteligência de tirar os problemas do lado ficcional e jogá-los para a realidade para julgá-los da melhor forma possível e chegar às suas próprias conclusões. Obviamente esta é a melhor forma para se envolver com produções sérias e que não subestimam a inteligência do público. Apesar do ponto positivo citado, é fato que o roteiro não é perfeito. O livro no qual Fellowes se baseia possui um material com emoções intensas, várias nuances, um conteúdo muito difícil para ser transformado em imagens e para manter uma cadência narrativa. O diretor acaba se perdendo entre algumas cenas desnecessárias e alguns diálogos vazios, embora seja preciso ressaltar que este drama segue a cartilha do cinema britânico, assim os diálogos frios e racionais entre marido e mulher são totalmente justificáveis, ainda que possam parecer absurdos ou artificiais comparando-se ao estilo hollywoodiano.

A fita ganha um ritmo melhor quando são inseridos os momentos que revelam detalhes das investigações do tal atropelamento e das complicações que por ele foram desencadeadas, ainda que o espectador a essa altura já conheça o culpado. Devido a curta duração da produção, pouco menos de uma hora e meia de projeção, logo o grande mote do enredo é desfeito e Fellowes precisa se virar para preencher os minutos da parte final, o que implica em um ritmo narrativo arrastado com cenas pouco interessantes para chegarmos a uma conclusão nada empolgante. Mentiras Sinceras no final das contas não se define como um drama envolvendo um triângulo amoroso e tampouco se assume como um filme policial por causa das limitações explícitas deste entrecho, assim a obra fica em cima do muro o que acaba sendo prejudicial. Por outro lado, torna-se uma produção um tanto realista propondo ao espectador refletir sobre assuntos cotidianos e que mexem com os brios da sociedade, principalmente para aquelas pessoas que se auto-intitulam representantes da alta classe social e que não querem ver seus nomes envolvidos em escândalos. Tirando todo o verniz de obra cult, embora apresente seu conflito de forma clara, direta e bem antes dos créditos finais subirem, esta produção no fundo trabalha com um tema corriqueiro já apresentado em tantos outros filmes. É melhor falar a verdade, ter a consciência tranquila e arcar com as consequências ou simplesmente tentar abafar um crime para dar continuidade a uma farsa para manter as aparências? Aqui tal dilema é vivido no âmbito do matrimônio, mas certamente todos já vivemos momentos de dúvidas nos quais estavam em jogo a felicidade parcial, porém, real e a felicidade total, ainda que só de fachada. Esta é uma dica para ver com calma e para refletir e de forma alguma revela-se uma perda total de tempo como alguns dizem. 

Drama - 84 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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