sexta-feira, 1 de março de 2013

O ENIGMA DO COLAR

NOTA 7,0

Recriando vexatório episódio da
História da França, roteiro é tão
intrincado quanto os fatos reais em
que se baseia confundindo espectador
Sem dúvidas na escola aprendemos apenas o básico nas aulas de História, tanto que muitos professores indicam literaturas complementares, sites e filmes a quem interessar se aprofundar nos temas. É uma pena que nem sempre o material extra seja de fácil acesso. Muitas produções de cinema ricas em conteúdo histórico acabaram perdidas no tempo, seja na transição das fitas VHS para o DVD ou por terem tido uma tiragem reduzida na época de seu lançamento. Questões a respeito de direitos autorais e de distribuição também acabam tirando muitas obras de circulação e este pode ser o caso de O Enigma do Colar, caprichado drama baseado em fatos reais estrelado por nomes de peso e premiados. A produção acabou se tornando um item de colecionador, um produto raríssimo que aborda uma importante e curiosa passagem da trajetória política e social da França, uma rede conspirações que levou uma rainha a ser odiada fervorosamente e que também contribuiu para a revolução contra o absolutismo. A protagonista da intriga, no entanto, não é muito conhecida fora do território francês, mas em seu país permanece como um mistério que desperta especulações. Jeanne de La Motte-Valois (Hillary Swank) é uma jovem que foi criada por uma família adotiva após ver o assassinato cruel de seus próprios pais, um casal oriundo da nobreza que acabou perdendo de uma hora para a outra toda sua fortuna e consequentemente tiveram seu sobrenome desvalorizado. Acusados de conspirar contra a monarquia, desde então as memórias da garota ficaram marcadas por cenas de humilhação e tortura, mas isso não a impediu de alimentar o sonho de conseguir reconquistar sua posição de destaque na sociedade, mas para tanto precisará enfrentar intrigas, ser desonesta e trair seus próprios princípios. Mesmo bem intencionada, só assim para sobreviver em uma sociedade interesseira e insensível. A todo custo Jeanne quer tentar alguma aproximação com a vaidosa e imponente Rainha Maria Antonieta (Joely Richardson) no intuito de conseguir algum tipo de ressarcimento por sua herança perdida e obviamente resgatar o poder do nome dos Valois. No entanto, ela nem ao menos consegue ser notada por vossa majestade, porém, em uma dessas tentativas frustradas, a jovem conhece Retaux de Vilette (Simon Baker), um rapaz galanteador e influente que vem a se tornar seu amante e promete reintroduzi-la no universo da nobreza.

O torto casal arma um plano para que a órfã se vingue das injustiças do passado, mas as coisas desandam e quando se dá conta ela está metida em um emaranhado de intrigas envolvendo pessoas ricas e poderosas. Eles devem induzir o Cardeal Louis de Rohan (Jonathan Pryce), que deseja se tornar primeiro ministro, a presentear Antonieta com um belíssimo colar cravejado com centenas de diamantes, a mais bela e ostentosa joia até então fabricada. O presente certamente abriria as portas do coração da Rainha e também as de seu palácio, assim, como forma de agradecimento, este ambicioso e devasso homem também facilitaria o ingresso de Jeanne na corte. A moça apresentou ao Cardeal supostas cartas assinadas por seu interesse amoroso, mas que na verdade eram escritos falsificados de Vilette. Para ajudar o espectador a se situar neste imbróglio, temos a narração do Barão de Breteuil (Brian Cox), que como testemunha ocular dos acontecimentos relata com riqueza de detalhes todos os processos pelos quais a Condessa de La Motte passou até cair nas mãos de Rohan, ou melhor, até ele cair nas dela. Quando compra o colar, o nobre o confia a um enviado da Rainha, mas que na verdade era ninguém menos que Vilette que por sua vez entrega a joia para a amante que a desmembra e vende separadamente cada diamante, assim conseguindo dinheiro mais que o suficiente para recomprar a casa que fora de seus pais. Almejando também o prestígio que lhe negaram até então, o local passa a ser frequentado por pessoas da alta sociedade, mas Rohan é excluído e com o abrupto cessar de cartas de Antonieta então percebe que foi vítima de uma armação orquestrada também pelo Conde de Cagliostro (Christopher Walken), que conhece o sofrido passado de Jeanne, porém, também sabe de seu poder de persuasão e sedução, além do desejo de justiça, mas é claro que ele não a ajuda apenas por benevolência, também querendo lucrar com a farsa. Ao que tudo indica houve uma grande preocupação da obra reproduzir com fidelidade os acontecimentos, desde a cena em que Antonieta recusa o presente milionário por saber que originalmente ele foi criado para outra mulher até o encontro do Cardeal com Nicole d’Oliva (Herminone Gulliford), impostora que se passava pela Rainha. Tal mulher foi descoberta pelo Conde Nicolas de La Motte (Adrien Brody), o próprio marido de Jeanne que sabe da traição dela. Com relações estremecidas e vivendo afastados, ao perceber que os planos da esposa com o amante estão deslanchando, o rapaz reaparece e quer a todo custo também abocanhar a parte que acredita lhe caber dos lucros do golpe. Quando Breteuil torna pública a farsa, todos os envolvidos vão a julgamentos, mas como de costume a corda tende a arrebentar para o lado dos mais fracos. A Rainha descobre o destino do colar que lhe era pretendido e, ainda que muitos pesquisadores defendam sua inocência, o filme especula a versão mais popular imprimindo a ela um perfil vil e egocêntrico. Sabendo que Rohan apenas queria usá-la para subir na vida, ela desejava acusa-lo do roubo dos diamantes e precisaria que Jeanne comprovasse sua acusação. No entanto, não há registros de que acontecera um encontro entre elas, assim o roteiro tomou certas liberdades para chegar a uma conclusão melodramática e de fácil identificação por parte do espectador com o conflito da protagonista.

O roteiro de John Sweet nos apresenta apenas mais uma entre tantas outras passagens sórdidas que constam no histórico da família real francesa, mas talvez a beleza visual da fita acabe sobressaindo ao conteúdo. Como em todo filme de época que se preze, os quesitos técnicos necessários são preenchidos rigorosamente, diga-se de passagem, com bastante folga. Figurinos e cenários luxuosos combinados com uma fotografia e trilha sonora brilhantes ajudam a reconstruir a França do final do século 18 e transportar o espectador para uma época em que as diferenças entre as classes sociais eram gritantes e a separação de castas rígida e cruel. Embora passe longe das páginas dos livros básicos das aulas de História, a farsa envolvendo o tal colar de diamantes acabou se tornando um vergonhoso episódio. O despreparo do público para compreender o rebuscado caso certamente é uma das razões para a fria recepção do longa, mas isso não deve ser encarado como ofensa. O problema é que o diretor Charles Shyer, das comédias O Pai da Noiva e sua continuação, deixa evidente não ter traquejo com melodramas, muito menos de época. Extremamente didático, seu trabalho torna-se cansativo e aparentemente se estende além do necessário. O título pode até remeter a um intrigante suspense, o que pode ter decepcionado muitos espectadores, mas não se pode negar que o argumento é dos mais interessantes, embora siga um caminho já especulado por outras tantas produções. Mostrando os podres escondidos por trás da bela imagem vendida pelo universo dos ricos e nobres e como boatos ajudaram a arruinar um império cujas bases eram tão voláteis quanto o caráter de seus representantes, o argumento até nos faz lembrar do clássico Ligações Perigosas. A obra oitentista também tinha a intenção de revelar o quão perverso pode ser o ambiente dos mais abastados que em sua maioria sem ter o que fazer gastam seu tempo ocioso arquitetando planos para arruinar reputações, se divertir com os ingênuos ou simplesmente almejando conquistar ainda mais riquezas. O Enigma do Colar segue linha de raciocínio parecida, porém, não pinta apenas um quadro social. Ao abordar fatos verídicos, Shyer buscou eternizar um episódio de grande importância, mas não podemos considera-lo definitivo. O que temos é a encenação da perspectiva dos acontecimentos a partir das memórias da Condessa de La Motte baseados nos relatos documentados por ela mesma nos quais se posiciona obviamente como vítima. Ao final, de certa forma, a jovem conseguiu o que queria tendo reconhecimento e seu nome cravado na História da França, quiçá da Europa. Só não pôde gozar em vida de tal fama.

Drama - 120 min - 2001

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