quinta-feira, 4 de abril de 2013

ENCONTRO MARCADO

NOTA 8,0

A Morte faz um pacto para
experimentar os prazeres da
vida, mas não esperava
viver um grande amor
Quando surge um filme do tipo épico já é de se esperar que precisaremos reservar de duas até três horas para podermos acompanhar batalhas, romances, dramas e um pouco de História. O público sabe o que vai encontrar em produções do tipo e geralmente compra a ideia, mas o que esperar de um romance contemporâneo de três horas de duração? Sim, prender a atenção do espectador por todo esse tempo contando uma história de amor era o grande desafio do diretor Martin Brest quando assumiu as rédeas de Encontro Marcado, um trabalho marcante que hoje já é considerado um clássico do gênero. Na época Brad Pitt já enlouquecia as mulheres e seu nome atrelado a um projeto era o suficiente para atrair atenções, mas o efeito seria ainda maior somando ao talento e ao prestígio do veterano Anthony Hopkins, assim revivendo a dupla que já havia estrelado Lendas da Paixão anteriormente. Todavia, o projeto era de risco. Há muitos anos o cinema não via um filme romântico fazer fortuna. Ok, naquela época Titanic já contabilizava um polpudo caixa, mas tal produção contava com a ajuda de um mega transatlântico naufragando pouco a pouco com a ajuda de efeitos especiais de ponta, o que lhe garantiu um público extra. O estúdio Universal bancou a ideia de Brest e até aquele momento este era o filme romântico mais caro de todos os tempos. Bem, classificar como romance é questionável, pois a carga dramática da obra é de peso também. Vamos por partes.  Logo no início ouvimos a seguinte frase: fazer a jornada sem nunca ter amado profundamente é como não ter vivido. Tal pensamento é dito pelo empresário William Parrish (Hopkins) para sua filha Susan (Claire Forlani) que está prestes a realizar um casamento claramente infeliz. Pouco tempo depois, a jovem conhece em um café um rapaz recém-chegado a Nova York e parece que nasce um interesse mútuo, mas tudo não passa de um flerte. Após uma agradável conversa, eles se despedem e esse jovem acaba morrendo atropelado ao sair da cafeteria, mas ganha uma segunda chance de viver curiosamente através do espírito da própria Morte que passa a usar o corpo do falecido para se aproximar de Parrish que está prestes a comemorar 65 anos de idade.

O empresário já vinha ouvindo uma voz estranha há algum tempo, mas jamais poderia imaginar que fosse a Morte se aproximando para levá-lo embora, porém, este espírito do outro mundo deseja conhecer o mundo dos vivos e por isso faz um acordo. Em troca de algum tempo a mais de vida Parrish aceita a Morte dentro de sua casa no corpo de Joe Black (Pitt), mas ganhou muito mais com esse trato, descobrindo que Drew (Jake Weber), seu futuro genro, na verdade queria trapaceá-lo nos negócios e não merecia se casar com sua filha. Aliás, Susan não soube do atropelamento do rapaz e se surpreende ao encontrá-lo na mansão de seu pai e agora poderá conviver com ele e repensar sobre seu casamento. Obviamente, Black irá despertar de imediato a antipatia de Drew que logo perceberá que não tem apenas um rival no campo do amor, mas também no dos negócios já que o mais novo amigo de Parrish estará a todo tempo acompanhando os seus passos e poderá atrapalhar os seus planos de tirar o futuro sogro da liderança da empresa da família. Vendido como um romance, dá para perceber por estas poucas linhas que o drama do personagem de Hopkins é bem mais interessante e o principal motivo que faz o espectador respirar fundo e encarar os 180 minutos cravados de duração. O aparente exagero de tempo é justificável, afinal são várias histórias paralelas que vão sendo desenvolvidas, ainda que nem todos os coadjuvantes tenham sua importância nesta engrenagem, mas conquistam de alguma forma nossa atenção como é o caso da personagem de Marcia Gay Harden vivendo a outra filha de Parrish, uma mulher super atarefada que deseja que a festa de aniversário do pai seja um evento grandioso e sem falhas. A lentidão da narrativa também pode ser justificada pelo objetivo de realizar um filme contemporâneo, mas carregando características tradicionais da época de ouro do cinema. A percepção deste ar nostálgico se faz presente não só pelas opções narrativas e estéticas de Brest, mas também pelo fato da ideia original ser datada dos anos 30. O longa Uma Sombra que Passa, de 1934 e com surpreendentes 78 minutos de duração, é a base deste trabalho. Mesmo não refazendo o filme original pedaço a pedaço, faltou pouco para sua atualização não chegar ao triplo de sua contagem de tempo. Aliás, atualizar filmes antigos não era uma novidade para o diretor, que antes já havia refilmado uma comédia italiana da década de 1970 que acabou se transformando no famoso Perfume de Mulher.

Para rechear tanto tempo de filme foi exigido um grande empenho não só de um roteirista, mas sim de uma equipe formada por Bo Goldman, Ron Osborn, Jeff Reno e Kevin Wade. O grande objetivo da narrativa é tocar o público com a consciência de que a vida deve ser degustada intensamente a cada minuto, assim como cada take desta produção em que cada gesto, olhar ou palavra tem um significado. Justamente por limar o negativismo que a premissa acena é que o longa conquistou tantas pessoas ao longo dos anos. Por vezes nos esquecemos de que estamos acompanhando a uma história na qual os personagens estão lidando diariamente com a Morte e para essa fuga contribui muito a ambientação luxuosa escolhida. Todavia, Encontro Marcado não é apenas belo em sua plasticidade, ainda que não tenha nenhuma cena surpreendente. Talvez o momento mais impactante seja quando a Morte e Parrish precisam decidir seus futuros, mas Brest leva tudo com tanta delicadeza que o que vemos em cena é um bate papo amigável entre duas pessoas com experiências distintas e que ponderam sobre os prós e os contras da situação que estão vivendo. Ah, e é claro que a sequência em que o entojado Drew é desmascarado é mais um ponto alto deste trabalho corajoso. Na época os cinemas já estavam infestados e sobreviviam à custa de filmes de ação e aventura e foi uma ousadia e tanto levar um projeto como esse ao circuito comercial, embora o período de seu lançamento coincidisse com as estreias pomposas dos possíveis candidatos ao Oscar. Todavia, Brest não parecia em busca de bilheterias arrasadoras e prêmios, somente contar uma bela história de amor não só de um homem (ou espírito) por uma mulher como também de amor à vida. Tal pretensão simplória pode ser concluída pelo fato do cineasta ter exigido que seu nome fosse retirado dos créditos na versão exibida em viagens de avião, uma cópia com 50 minutos a menos de arte o que certamente feriu seu ego. A quem ainda resiste acompanhar esta bela obra por causa da longa duração e da premissa a la dramalhão, respire fundo, reserve umas horinhas do dia e prepare o espírito para um filme açucarado na medida certa, envolvente, mas que não foi feito para agradar os olhares mais críticos. Problemas narrativos existem em proporção considerável, mas eles são resumidos a pó diante do porte deste trabalho que marcou época, ficou guardado em várias memórias e com certeza ainda marcará muitas vidas.

Drama - 180 min - 1998 - Dê sua opinião abaixo.

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