segunda-feira, 15 de abril de 2013

O AVIADOR

NOTA 8,0

Através de uma biografia,
longa faz uma homenagem ao
cinema, mas esbarra na
impopularidade do homenageado
Existem alguns filmes que embora cercados de cuidados e tratados como superproduções desde a concepção da ideia inicial parece que já nascem com quase tudo contra o seu sucesso. O Aviador é um bom exemplo. Longo demais, uma biografia a respeito de um homem que deixou sua marca na história americana, mas estranho a boa parte da população mundial, jeito de dramalhão e Leonardo DiCaprio como protagonista, na época ainda batalhando para se livrar do estigma negativo que Titanic lhe deixou como herança para sua carreira. Por outro lado, o elenco coadjuvante repleto de nomes famosos e talentosos, a reprodução impecável da primeira metade do século 20 e a metalinguagem de homenagear o cinema dentro de um filme são pontos que chamam a atenção e trabalham a favor do longa. Somam-se a isso tudo a direção sempre competente de Martin Scorsese e muitas indicações a prêmios. Com essa mistura heterogênea de ingredientes, a biografia do excêntrico e milionário Howard Hughes ganhou notoriedade, levou bastante gente aos cinemas e movimentou o mercado de locações quando lançado em DVD, mas a aprovação não foi a esperada. Muita gente após o término (se é que assistiram até a última cena) provavelmente jurou não recomendar este filme nem para o seu pior inimigo. E isso não é exagero, é verídico, mas uma grande injustiça feita com uma produção que consegue ser mais que um drama biográfico sobre um homem que teve muita importância para a aviação, mas também um belo e merecido registro de um período da História do cinema americano, uma época importantíssima para consolidar esta arte como forma de entretenimento e geradora de renda e trabalho.  O filme é baseado em eventos reais da vida do megalomaníaco Hughes (DiCaprio), um homem cuja trajetória se confunde com os avanços da aviação e do cinema. Na década de 1920, depois de herdar uma verdadeira fortuna, o jovem passa a investir na sétima arte e filma um épico de realismo impressionante, porém, muito perfeccionista, ele decide regravar tudo quando surge o cinema sonoro e jamais aceitava trabalhar quando um detalhe mínimo lhe escapava, o que irritava muitos seus companheiros de trás das câmeras pelos constantes atrasos e imprevistos nas filmagens. Além disso, graças aos filmes, ele também entrou em contato com a área da aviação e assim também gastou boa parte de seu dinheiro investindo no que havia de mais moderno para melhorar este campo, algo que sem dúvida refletiu positivamente no futuro da área.

Rico, bonito e atraindo a atenção da imprensa por onde passava, obviamente Hughes vivia cercado por belas mulheres, entre elas as estrelas de cinema Katharine Hepburn (Cate Blanchett) e Ava Gardner (Kate Beckinsale, um pouco insossa). Outros artistas foram selecionados para participações especiais interpretando pessoas reais que fizeram parte da vida do excêntrico milionário, como o ator Errol Flynn (Jude Law), o jornalista Roland Sweet (Willem Dafoe), a atriz Jean Harlow (Gwen Stefani), seu contador Noah Dietrich (John C. Reilly), e nem mesmo alguns de seus desafetos foram esquecidos, como o empreendedor Juan Trippe (Alec Baldwin) e o senador Ralph Owen Brewster (Alan Alda). Em meio a tantas estrelas, quem se destaca durante todo o filme é DiCaprio apresentando uma interpretação madura e digna de elogios. Apresentando até aquele momento a sua melhor atuação, sendo sua terceira parceria com Scorsese, até a metade do longa, diga-se de passagem, muito interessante, o ator encanta o público com uma interpretação vigorosa e em certos momentos até engraçada devido ao jeito exagerado do personagem gastar seu dinheiro. Para o milionário não havia limites, tudo tinha um preço e ele estava disposto a pagar o quanto fosse preciso para realizar suas vontades. Seu brilho só diminui um pouco quando uma das maiores atrizes do cinema, Katherine Hepburn, entra na história. Sua intérprete, para variar, rouba a cena e encarna a diva com perfeição, um desempenho merecidamente recompensado com o Oscar de atriz coadjuvante. A segunda parte da narrativa é dedicada ao período de decadência do milionário que acaba sofrendo para enfrentar situações corriqueiras e simples como abrir uma porta, o popular transtorno obsessivo compulsivo, até chegar a insanidade, o que não evitou que ele fosse levado aos tribunais para prestar contas a respeito de seus gastos excessivos em seus áureos tempos . Exigido praticamente da primeira até a última cena, Di Caprio realmente consegue nos fazer esquecer sua imagem de modelo de comercial de pasta de dente e as fofocas a respeito de sua vida pessoal publicadas em tablóides e enxergar um grande ator em cena, ou melhor, não demora muito para acreditarmos estar vendo em cena o autêntico Hughes. Tanto empenho ele próprio se cobra a cada novo trabalho e aqui ainda precisava fazer o longa render elogios, afinal ele mesmo correu atrás para realizar essa cinebiografia e fica com o papel principal. O homenageado já teve os pormenores de sua vida pessoal e profissional exibidos em uma ou outra produção antiga, mas nunca como neste caso, um projeto que passou pelas mãos de vários diretores que por motivos diversos declinaram o convite para dirigir esta superprodução. Sorte de Scorsese que conseguiu mais um belo trabalho para seu currículo.

Mas se as atuações são dignas, a história é interessante, a parte técnica impecável e a direção é de um homem que dificilmente decepciona, por que este trabalho tem desafetos inflamados e outros defensores que tecem elogios aos montes? A resposta pode estar no roteiro de John Logan. Os problemas começam ao enfocar a vida de uma pessoa desconhecida por muitos. Pelo menos no Brasil, só mesmo os aficionados por cinema, aviação ou por fatos históricos e cultura americana já tinham ouvido falar em Hughes antes do lançamento do filme. Condensar uma vida repleta de realizações em um longa-metragem também não é uma tarefa das mais fáceis. Mesmo contando com praticamente três horas de duração, parece que alguns fatos da vida do biografado são passados de forma muito rasteira o que ocasiona uma ausência de clímax. No conjunto, é difícil se lembrar de uma cena-chave para a obra, alguma sequência marcante. Seria alguma passagem de sua juventude em meio a um mundo glamoroso? Seus passeios por hangares sujos, provando que dentro da carapaça de um ricaço existia uma pessoa simplória? Seu entusiasmo comandando alguma produção de cinema? O acidente em que se envolveu? Seus ataques de loucura que o proíbem de tocar em uma maçaneta da porta de um banheiro público ou que o obrigam a guardar a própria urina em garrafas? Ou ainda os momentos finais em que é levado a julgamento acusado de roubar milhões do governo para investir em seus sonhos? Talvez nenhum deles sejam momentos memoráveis daqueles que entram para a História do cinema. De qualquer forma, O Aviador é um belíssimo filme que entretém o espectador praticamente do início ao fim, isso se não fosse o fato da conclusão realmente decepcionar e não fazer jus ao restante da obra. Fora isso, o enredo realmente tem pontos muito interessantes e curiosos, interpretações vigorosas e um visual arrebatador, contando com uma bela reconstituição de época requintada pela fotografia e iluminação perfeitas que retratam de forma ensolarada a primeira parte do roteiro e abrem espaço para cores mais escuras para retratar o declínio do sonhador Hughes, um homem que escreveu seu nome na História com suas invenções em busca de seus objetivos e perfeições e que Scorsese e DiCaprio trataram de apresentar ao mundo em grande estilo. O Oscar agraciou a obra com cinco troféus, mas, estranhamente, não o de Melhor Filme, embora fosse apontado como o favorito. É faz tempo que a Academia de Cinema de Hollywood privilegia o lado comercial e não o artístico na hora de eleger os melhores do ano.

Vencedor dos Oscar de atriz coadjuvante (Cate Blanchett), edição, fotografia, direção de arte e figurinos

Drama - 168 min - 2004 

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