quinta-feira, 30 de maio de 2013

50%

NOTA 8,0

Embora trate de um assunto
delicado, longa adota um tom
descontraído e revitaliza
premissa batida e depressiva
Veja o título diferenciado (no original 50/50) e que não deixa explícita pista alguma do enredo. A imagem publicitária do longa é um rapaz aparentemente começando a raspar os cabelos, mas ao fundo está o ator Seth Rogen, um dos símbolos da renovação do humor americano. Agora saiba que este é um drama baseado em fatos reais que aborda o tema de um jovem que descobre repentinamente estar com câncer. Quem se animaria a assistir a algo do tipo? A probabilidade indicada para intitular este filme serve para três coisas. Primeiramente deixar claro que o protagonista tem 50% de chance de tentar conviver da melhor forma possível com seu problema e se cuidando ou na mesma proporção se entregar a inerente depressão abreviando assim seu tempo de vida, as mesmas estatísticas que ouviu de seu médico quanto ao sucesso do tratamento disponível. Também serve para instigar o expectador. Você tem 50% de chance de se surpreender com esta obra ou a mesma porcentagem para constatar que o fatídico e previsível final baterá seu cartão aqui. Para quem já se acostumou que produções protagonizadas por pacientes cancerígenos praticamente sempre terminam de forma triste, 50% é uma opção bem-vinda e que traz algum alento aos espectadores, principalmente para aqueles que podem estar vivendo situações parecidas a de Adam Lerner (Joseph Gordon-Levitt), um rapaz de bem com a vida que aos 27 anos recebe o diagnóstico de que está com um tipo raro de câncer na coluna vertebral. Ele então vê seu futuro promissor na estação de rádio em que trabalha e sua vida tranquila ao lado da namorada Rachel (Bryce Dallas Howard) tornarem-se projetos obsoletos. Sempre levando uma vida regrada e sem excessos, livre de drogas e bebidas inclusive, além de sempre ter praticado o bem, Adam não encontra razões para justificar o aparecimento do tumor e passa a ter a necessidade de rever seu passado e repensar as suas prioridades de agora em diante. Baseado em fatos reais da vida do próprio roteirista, Will Reiser, a premissa é um tanto batida, mas não devemos julgar um filme por sua sinopse. Muitas vezes uma simples ideia torna-se uma grande obra graças a maneira escolhida para se desenvolver o enredo e neste caso o resultado é bastante satisfatório e traz certo frescor a um tema comumente trabalhado de forma extremamente dramática. A luta contra a doença é mostrada aqui de uma maneira um tanto descontraída. Entre um pensamento e outro mais triste, somos brindados com diálogos e situações com teor humorístico, assim cativando e emocionando o público livre de impactos negativos.

O longa dirigido por Jonathan Levine guarda boa parte de seus trunfos na relação entre Adam e seu grande amigo Kyle (Seth Rogen). Um é o oposto do outro tanto no aspecto físico quanto na personalidade, mas existe uma cumplicidade única entre eles e que fisga a atenção do espectador logo nos primeiros minutos. Kyle está sempre disposto a elevar o astral do rapaz, que em um primeiro momento fica sem reação ao saber da doença, e suas tentativas para fazer o bem divertem o público, embora suas ideias sejam típicas de um jovem que se esqueceu de crescer. Para ele o melhor remédio neste caso é aproveitar a vida ao máximo sem se preocupar com o amanhã, ou seja, na sua visão do problema, simplesmente farrear a vontade e pegar quantas garotas puder, afinal a morte iminente traria como talvez único benefício o fato de não poderem lhe atribuir responsabilidades póstumas. Adam leva na boa as infantilidades do amigo e por incrível que pareça ele próprio não está tão preocupado com seu estado de saúde, sentindo-se perfeito ou pelo menos deixando transparecer uma falsa tranquilidade. Obviamente a uma certa altura será impossível conter seus sentimentos e chegará o momento dele extravasar a sua raiva, embora não existam culpados para o aparecimento do tumor, isto seja uma triste fatalidade. Na sua luta pela vida ele ainda conta com a ajuda da mãe, a zelosa Diane interpretada com vigor por Anjelica Houston, uma mulher que procura restabelecer os laços afetivos com o filho neste momento difícil após anos de distanciamento sem motivo aparente e que também se desdobra para dar o máximo de qualidade de vida ao marido que há anos sofre com o Mal de Alzheimer. Outra colaboração importante é a da psicóloga estagiária Katherine vivida por Anna Kendrick, que passa a ser o interesse romântico do protagonista quando ele termina o namoro ao descobrir que era traído pela garota com quem sonhava em se casar, ou melhor, ao constatar que a moça só mantinha o relacionamento para não magoá-lo, esperando um momento oportuno para chutá-lo sem causar maiores danos que alguns dias de coração partido. O interessante da relação estabelecida entre paciente e médico neste caso é que não existe um instinto de superioridade de um para o outro. Os dois estão no mesmo barco se adaptando as suas novas realidades. Adam, embora tenha um semblante maduro, mostra suas fragilidades ao lidar com os obstáculos que a doença lhe impõe e pouco a pouco vai se convencendo de como pode se sair bem dessa, aceitando inclusive com bom humor raspar o cabelo. Já sua analista ainda não tem as manhas de como lidar com os clientes, sendo pouco sutil na maior parte do tempo, mas no decorrer da trama vai conquistando confiança em si mesma e consequentemente para impor em seu trabalho. Na troca de experiências, os dois saem ganhando. Ela ganha bagagem para sua vida profissional e ele incentivos sinceros para seguir em frente, além é claro do amor que surge e que delicadamente é sugerido.

Levine não abre mão das inevitáveis implicações, discussões e dúvidas a respeito do câncer, mas é curioso como ele consegue introduzir o humor a uma premissa que tinha tudo para descambar para um lacrimoso drama. Como já dito, boa parte da graça é carregada pelo personagem Kyle, que traz consigo piadas relativamente grosseiras, a especialidade de seu intérprete, mas no geral o riso involuntário surge da forma embaraçosa como as pessoas que cercam o protagonista o abordam quanto a doença, fazendo jus a expressão pisando em ovos. Não são raros os momentos em que ocorre uma saia justa, mas Adam tira de letra e não leva as coisas para o lado das provocações. Lembrando, assim como ele está se ajustando a sua nova realidade, quem está ao seu lado também precisa fazer o mesmo. Com muita naturalidade nas apresentações das situações e nas interpretações, permitindo inclusive alguns improvisos dos atores nos momentos em que a descontração é permitida, 50% não deve ser visto como uma obra cujo objetivo principal seria quebrar os padrões que o gênero construiu ao longo dos anos para temáticas que envolvem problemas de saúde. O filme simplesmente quer contar uma boa história de maneira realista, afinal de contas a vida de ninguém é uma eterna comédia ou um dramalhão sem fim. A realidade de todos é feita de bons e maus momentos, sorrisos e lágrimas, e mesmo quando estamos vivendo um período difícil sempre haverá espaço para uma pontinha de alegria e vice-versa.  Embora cumpra seu papel em trazer explanações a respeito do câncer não apenas a nível hospitalar, mas principalmente provando que o paciente pode e deve tentar levar uma vida absolutamente normal na medida do possível, diga-se de passagem, uma mensagem entregue ao público de forma muito mais eficiente que muitos dramas, esta produção é rotulada comercialmente como uma comédia. O correto seria uma “dramédia”, um subgênero não oficial que é uma constante veia de trabalho do cinema independente, nicho no qual esta fita está inserida. Aquelas produções consideradas “comédias-cabeça” geralmente tem uma mesma base. Pegar um assunto espinhoso e trabalhá-lo de forma leve, mas sem jamais abdicar do direito de levar o público a reflexão. E é por essa razão que trabalhos desse tipo merecem nossa atenção. Expor pessoas doentes ao ridículo é muito fácil (que nos diga os irmãos-cineastas Farrelly e seus discípulos), mas tratá-las de forma natural, com dignidade e respeitando suas limitações, porém, sem apresentá-las como inválidas, é um desafio e tanto. Se você ainda não conferiu este longa por receio só de ouvir falar a palavra câncer fique tranquilo. Esta é uma das raras oportunidades que o cinema nos deu nos últimos anos para pensarmos nesta doença não como um fim eminente, mas como um recomeço por vezes providencial, que nos leva a reflexão, a dar mais valor as coisas importantes da vida e consequentemente a formar seres humanos melhores.

Drama - 100 min - 2010 

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9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
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