quarta-feira, 1 de maio de 2013

AS BICICLETAS DE BELLEVILLE

NOTA 9,5

Animação é como um sopro de
originalidade, embora use
técnicas tradicionais e por
vezes pareça um desenho mudo
Antigamente desenho animado era sinônimo de Hanna-Barbera. Animações feitas para cinema automaticamente lembravam Disney. Os estúdios e produtoras que se arriscavam no mercado infantil acabavam optando por fazer filmes live action para disputar uma brechinha para exibição nas salas de cinemas ou até poderiam fazer desenhos, mas geralmente eles eram exclusivos para abastecer o mercado de locações e vendas diretas ao consumidor. Nesse cenário restrito, achar uma animação que não fosse americana era uma tarefa muito difícil e os adultos se divertiam com os produtos destinados as crianças, alguns, diga-se de passagem, estritamente feitos para esse público, mas os tempos mudaram. Hoje muitos exploram esse nicho e as premiações têm ajudado a divulgar os trabalhos dos artistas do mundo todo, permitindo inclusive o contato de um público maior com produções animadas destinadas a adultos. Algumas pegam pesado na linguagem, no visual e nas provocações, mas outros produtos do tipo preferem usar artifícios mais clássicos e poéticos e ainda assim conseguem chamar a atenção de crianças mais crescidinhas, apesar de o enfoque ser agradar na realidade a seus pais. Esse é o caso de As Bicicletas de Belleville, uma coprodução entre a França, o Canadá e a Bélgica que no mínimo podemos considerar atípica no cenário cinematográfico do século 21. Curiosa, criativa, brilhante, única, original, bizarra ou chata. São várias as interpretações que podem ser feitas desta obra dependendo do ponto de vista do espectador. Para os mais jovens e os apreciadores de filmes-pipoca a produção deve receber as críticas negativas, mas para os cinéfilos e público mais maduro ou intelectual os elogios são rasgados e provavelmente predominantes e merecidos ao trabalho do cineasta francês Sylvain Chomet. Estreando em longas-metragens quando chegava aos quarenta anos de idade, o animador já tinha vasta experiência na área de desenho e quadrinhos e colocou todos os seus conhecimentos em prática neste seu primeiro trabalho como diretor e o resultado é impressionante e talvez inédito até então. Os traços estranhos dos cenários e personagens que lembram a rascunhos criam um visual muito interessante e propositalmente caricatural, mas que infelizmente deve incomodar aos mais convencionais.

Do início ao fim os aspectos diferenciados da produção são respeitados e o resultado por incrível que pareça é bem harmonioso. Feito basicamente com técnicas tradicionais, resultando em um efeito visual que parece criado por algum artista plástico do início do século passado, porém, o longa não dispensa o uso de efeitos computadorizados em uma ou outra sequência, mas tudo de forma muito sutil e que não estraga a estética artesanal adotada. O cuidado na confecção das imagens, propositalmente envelhecidas e com tons fortes de cores amareladas e pastéis, serve para acentuar o aspecto nostálgico da animação, reforçado ainda mais pela trilha sonora de jazz na qual se destaca a canção "Belleville Rendez-vous" que é usada em diversos trechos do filme e que chegou a ser indicada ao Oscar, assim como a própria animação, um feito e tanto para um desenho singular e sem grandes atrativos aparentes quando comparado com as produções do gênero americanas. Porém, uma análise mais precisa revela a complexidade deste trabalho tanto no visual quanto na concepção da narrativa adotada. A história criada pelo próprio Chomet gira em torno de Madame Souza, uma simpática e bondosa velhinha que vive na região rural da França dividindo sua casa com o neto, o rechonchudo e melancólico Champion. Ela se dedica totalmente a ele e para alegrá-lo lhe compra um cachorro, mas logo o garoto se desinteressa por ele. Ainda esperando conseguir animá-lo, a avó descobre que ele tem interesses por bicicletas e lhe compra uma. A ideia foi excelente e o menino cresceu treinando para ser um grande ciclista. Quando adulto, consegue a chance de participar da competição Tour de France, mas acaba sendo sequestrados por dois homens misteriosos. Então, a senhora e seu fiel cão Bruno partem em uma travessia para buscar Champion, inclusive atravessando o oceano, e no percurso recebem a ajuda das "Trigêmeas de Belleville", mulheres que compunham um famoso grupo musical de cabaré. Aliás, as cenas das cantoras parecem retiradas de uma animação do fundo do baú, como na introdução em preto-e-branco, e as canções que elas entoam são contagiantes. A época retratada pelo enredo não é revelada, mas alguns elementos cênicos, como um aparelho de TV e os modelos de carros, denunciam que os anos 50 servem como inspiração.

Além da estética diferenciada e da história um tanto surreal, chama a atenção a maneira que o longa se comunica com seu espectador. Se não fosse o constante acompanhamento da trilha sonora e alguns efeitos sonoros, a obra podia ser considerada um resgate do cinema mudo. Praticamente sem falas, a história se apóia nos elementos de cenas e gestos e expressões dos personagens assim é imprescindível prestar muita atenção a cada detalhe visual para a plena compreensão da trama e captar seu humor peculiar e críticas a sociedade consumista. Por exemplo, Belleville é uma cidade francesa, mas no filme ela satiriza Nova Iorque e é apresentada como um centro urbano caótico. O trânsito é enlouquecedor, há excesso de prédios, a população é predominantemente obesa e até a Estátua da Liberdade é apresentada com alguns quilos há mais e segurando um sorvete no lugar da tradicional tocha. Tal qual um livro em que é preciso compreender as entrelinhas, esta obra de Chomet é um prato cheio para quem gosta de procurar detalhes, curiosidades e mensagens implícitas. Aos olhares mais atentos e amantes da sétima arte ainda é possível caçar referências aos trabalhos do cultuado cineasta Jacques Tati, como a aparição de um pôster e uma cena inspirada no filme As Férias de Monsieur Hulot. Exposto tudo isso, fica bem claro que as crianças devem se frustrar com esta animação, exceto as mais crescidinhas e que tenham incentivo para ampliar seus horizontes através de instrumentos culturais. O mesmo serve para os adultos. Não é qualquer marmanjo que embarcaria nessa viagem e chegaria ao final plenamente satisfeito. Com muitos significados escondidos atrás de seus traços aparentemente simplórios, As Bicicletas de Belleville é uma obra para ser explorada a cada novo fotograma e que resgata um pouco do humor e da ingenuidade do cinema das antigas, algo que a modernidade suplantou, mas ainda bem que existem pessoas dispostas a recuperar tudo isso. Lembrando o estilo amalucado do diretor Tim Burton e com toques que remetem a trabalhos de artistas surrealistas, certamente Chomet deve ter pegado livremente referências destas pessoas para criar um dos filmes mais originais dos últimos tempos. Uma animação livre das amarras de contratos publicitários e comerciais que muitas vezes obrigam cineastas a mudar suas histórias tudo para que seu longa se transforme em derivados como brinquedos, materiais escolares, roupas e estampem embalagens de produtos alimentícios. Bem, se a intenção do cineasta era criticar, eis aí mais uma alfinetada a sociedade consumista, mas principalmente destinada a quem trabalha com animação atualmente que para atender as exigências do mercado pode cair na tentação de se preocupar muito mais com o visual do que com o conteúdo de suas obras. É preciso aliar as duas coisas. Se o ditado popular diz que uma imagem vale mais que mil palavras, aqui está uma de suas traduções mais perfeitas, uma excelente opção para unir lazer e conteúdo.

Animação - 82 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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