sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MALDIÇÃO (2005)

NOTA 0,5

Boa premissa é desperdiçada
por roteiro tedioso e repleto de
clichês que ainda por cima são
mal utilizados e provocam risos
Febre nos anos 70 e 80, os filmes sobre casas mal assombradas hoje em dia não surpreendem mais, no máximo conseguem não denegrir a imagem de seus antecessores, mas em geral tais produções são decepcionantes, salvo raras exceções como Os Outros e O Orfanato. Se o excesso de clichês é apontado como o principal fator responsável pela repulsa de boa parte dos espectadores, o que dizer quando tais situações repetitivas são ainda mal utilizadas? Esse é apenas um dos problemas de Maldição, produção cuja premissa é polêmica e inspiradora, mas seu resultado final é extremamente decepcionante. A trama se passa no começo do século 19 e gira em torno da família Bell, pessoas comuns que veem suas vidas alteradas completamente da noite para o dia. John (Donald Sutherland), o patriarca, é um homem respeitado e que leva uma vida harmoniosa ao lado da esposa Lucy (Sissy Spacek) e dos filhos, mas os bons tempos são interrompidos quando ele entra em conflito por causa da posse de um terreno com uma moradora da região, Kathryn Batts (Gaye Brown), conhecida por ser adepta da feitiçaria e que teria conjurado forças demoníacas para se vingar do clã. De uma hora para a outra a casa dos Bells passa a ser aterrorizada por eventos sobrenaturais que atingem principalmente Betsy (Rachel Hurd-Wood), a filha adolescente de John. Barulhos estranhos, objetos que se movem sozinhos e a garota flutuando no ar, sendo espancada ou arrastada brutalmente pela casa por forças ocultas. Realmente a rotina da casa torna-se um verdadeiro pesadelo, principalmente durante a noite. Os Bells tentam desesperadamente encontrar uma forma de limpar a casa dessas energias malignas, com a ajuda da racionalidade do professor da menina, Richard Powell (James D’Arcy), e da religiosidade do amigo James Johnston (Matthew Marsh), mas parece que tudo é em vão e os ataques se tornam cada vez piores, levando John também a um estado de loucura. O enredo é esse, básico e nada mirabolante, apenas o mínimo exigido de uma história que pretende gerar calafrios no espectador. O problema é que a tensão esperada não demora a dar lugar a risos, bocejos ou sinais de impaciência. Além da narrativa tediosa e confusa, os péssimos efeitos especiais colocam a jovem Betsy em situações ridículas de possessão, nada assustadoras e sendo até possível encontrar falhas de aparatos usados para sustentar a personagem no ar, coisas que deveriam ter sido apagadas na pós-produção. O filme não era para ser assim afinal de contas a fonte de inspiração é das boas.

Lançado modestamente pouco tempo depois do ótimo O Exorcismo de Emily Rose, este terror tentou pegar carona no sucesso resgatando do fundo baú a história do único caso conhecido em solo americano no qual uma entidade demoníaca ocasionou a morte de um ser humano. Como os eventos acontecidos na cidade de Red River, no Estado do Tennessee, são datados de 1800 e bolinhas, tal filme viria para desmentir que Emily Rose teria sido o primeiro caso de morte por possessão nos EUA, ainda que este episódio mais recente também seja apontado como uma negligência religiosa. Apesar desta polêmica de qual foi o primeiro registro de falecimento comprovadamente ligado a entidades demoníacas, o fato é que isso em nada agregou para as bilheterias ou fama do trabalho dirigido e roteirizado por Courtney Solomon, da fracassada aventura Dungeons & Dragons. A premissa interessante, mas desperdiçada, é baseada no livro “The Bell Witch na American Hauting”, do escritor Brent Monahan, mas já foram publicados pelo menos duas dezenas de obras que exploram este mórbido episódio que atormentou uma família por cerca de dois anos e até hoje rende discussões visto que a cidade que serviu de palco para o show de horrores ainda vive com medo de que forças do mal voltem a assombrá-la. Os eventos paranormais que atingiram Betsy foram documentados por pessoas que viram com seus próprios olhos as manifestações demoníacas, mas investigações posteriores trataram de encontrar justificativas plausíveis para as situações impactantes e diminuir a força da lenda, chegando ao ponto de afirmarem que a primeira publicação sobre o caso foi baseada em relatos de segunda mão ou até mesmo não passava de um romance que extrapolou as expectativas e foi elevado a uma lenda urbana, algo no estilo do conto “Guerra dos Mundos” que surgiu como uma narrativa de rádio, mas foi interpretada pelos ouvintes como uma séria notícia. Todavia, o episódio enraizou-se no imaginário popular de Red River que passou a usá-la como um atrativo turístico. Verdadeiros ou não, é certo que os relatos e estudos publicados coincidem em alguns pontos. Nenhum deles nega a rixa entre John e Kathryn e que o estranho comportamento de Betsy, que começou após a briga, só veio a cessar com uma tragédia. Pelo burburinho que gerou ao longo de dois séculos, ainda que de forma regional, a tal maldição até que demorou bastante tempo para ganhar sua versão cinematográfica, pena que é preciso constatar que era melhor que suas imagens continuassem sendo construídas na mente de quem tivesse acesso a algum registro literário.

Fascinado por este misterioso episódio, Solomon acabou se perdendo em meio a suas teorias mirabolantes e sua fraca e preguiçosa direção propicia momentos difíceis de engolir como quando a personagem de Rachel Hurd-Wood flutua no ar e é estapeada por forças ocultas. No filme tal sequência pode fazer alguns gargalharem, de forma alguma chega ao nível de cenas de O Exorcista na qual até acreditamos ser possível uma cabeça girar 360 graus tamanho o capricho da produção para criar clima de tensão, mas realmente existem relatos testemunhais sobre essa cena documentados em diversos livros, assim como afirmações de que na residência era possível se ouvir vozes apavorantes e de que um enorme lobo preto era visto pelas redondezas. Solomon até cria em alguns momentos uma ambientação propícia à sensação de horror, investindo principalmente na exploração do cenário da residência dos Bells e numa iluminação e fotografia que flerta com o esverdeado e o azulado, algo que traz certo ar de envelhecido às cenas, mas no geral não consegue captar a atenção do espectador devido aos diálogos fracos e ao excesso de situações previsíveis e mal realizadas. Ele ainda tenta fazer uma inútil ligação dos eventos antigos com uma adolescente da época contemporânea (lembrando que o filme é de 2005) que abre o longa acordando de um pesadelo.  Como o conto original é curto, Solomon criou, ou melhor, jogou no enredo personagens que seriam descendentes dos Bell. A mãe vendo o estranho comportamento da filha resolve reler uma carta deixada por Lucy para tentar achar respostas, algo ligado a uma crença de que garotas adolescentes tem o poder de atrair energias negativas, mas do prólogo elas só voltam a aparecer nos minutos finais para protagonizarem uma estranha conclusão que só nos leva a avaliar que esse gancho com a realidade é totalmente desnecessário e só contribui para aumentar as críticas negativas, de que o filme foi criado e editado de maneiras desesperadas de se chegar a alguma unidade, o que de fato não acontece. Como até sua realização o caso da família Bell ainda não tinha uma explicação conclusiva (ao que tudo indica continua na mesma), os realizadores tentam no final através de uma rápida explanação por escrito justificar Maldição como a escolha deles sobre qual ponto de vista seguir diante de tantas hipóteses, talvez uma forma de aliviarem um pouco o peso da culpa de terem jogado no lixo uma boa ideia. Mais misterioso que os fatos que originaram este produto é saber o que levou os veteranos e conceituados Sutherland e Spacek a embarcarem nesta verdadeira maldição. O péssimo nível de atuações deles comprova seus engajamentos com a obra. 

Terror - 91 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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