quinta-feira, 20 de junho de 2013

AMIGAS COM DINHEIRO

NOTA 6,0

Com alguns diálogos e situações
divertidas e críticas e estética e
narrativa de seriado, longa faz um
ligeiro retrato da classe média
Um grupo de amigas reunidas em torno de uma mesa de jantar e às gargalhadas. Elas não são mais adolescentes em busca de seus príncipes encantados. Já estão entre os 30 e 40 e poucos anos de idade, são bem resolvidas em suas vidas amorosas e realizadas na profissão. Bem, essa é a impressão que nos passa uma das cenas principais de Amigas com Dinheiro, porém, por trás da aparente felicidade todas elas têm seus problemas pessoais, mas suas finanças estão perfeitamente saudáveis. Todavia, uma delas em especial é a patinha feia da turma, ou melhor, a patinha sem dinheiro, já que beleza tem de sobra em Jennifer Aniston, apresentada como o nome principal do elenco, mas que divide a cena com coadjuvantes de peso e no final das contas todos acabam nivelados ao mesmo nível de importância na trama. O título seria perfeito para um enredo que mostrasse os dilemas de adolescentes patricinhas às voltas com compras de roupas e supérfluos, mas felizmente o caminho aqui é outro. A premissa pode vender a falsa ideia de esta ser mais uma simplória e repetitiva comédia romântica, mas em suas entrelinhas encontram-se críticas à classe média norte-americana (que também serve para os riquinhos de outros países, incluindo o Brasil), um retrato que, embora estereotipado em alguns momentos, procura desmascarar a falsa felicidade em que muitas pessoas vivem imersas, mas não espere algo na linha do premiado Beleza Americana por exemplo. Escrito e dirigido por Nicole Holofcener, responsável por alguns episódios de seriados com alma feminina como “Sex and the City” e “Gilmore Girls”, é perceptível que o longa procura repetir a estética e o estilo narrativo televisivo, incluindo um clima leve que para os mais desatentos pode ajudar a resumir a obra como apenas uma bobagem na qual um bando de mulheres sem ter o que fazer procuram nos pequenos detalhes do cotidiano alguma razão para se ocuparem, seja brigando com seus parceiros ou metendo o bedelho na vida das amigas. O roteiro segue o dia-a-dia de quatro amigas de infância que hoje estão numa fase mais madura e vivem em um bairro nobre de Los Angeles. Frannie (Joan Cusack) é uma boa dona de casa e organiza eventos beneficentes, Jane (Frances McDormand) é uma estilista respeitável e Christine (Catherine Keener) é um promissora roteirista.  A quarta mulher do grupo é Olivia (Anniston) que mesmo sendo uma professora formada não consegue ter um emprego fixo e ganha a vida como diarista. Todas elas se encontram com certa frequência, mas temas ligados a finanças ou ostentação procuram ser evitados, porém, sempre rola alguma saia justa que Olivia acaba levando na esportiva.

É interessante que os diálogos do quarteto, ainda que pareçam banais, guardam certa coerência e ironia. Frannie, por exemplo, tem tanto dinheiro que quando afirma estar disposta a doar nada mais nada menos que dois milhões de dólares para a caridade logo é indagada por Jane, que não pensa duas vezes antes de falar o que pensa, que já que está disposta a ajudar alguém porque ela não dá o dinheiro para Olivia. Pode parecer egoísmo por parte da estilista, mas faz sentido e de qualquer forma não deixaria de ser um ato solidário. Além do dinheiro, outro assunto que gera certo constrangimento entre elas são as relações amorosas e familiares. Logo na introdução, na já citada reunião entre amigas, a maior parte dos personagens são apresentados e o conflito principal (pelo menos o que melhor justifica o título) é estabelecido. Todas estão acompanhadas de seus respectivos cônjuges, menos Olivia, para variar, se sentindo o peixe fora d’água da turma. Mas será que estas mulheres bem-sucedidas são realmente felizes? Como na vida de qualquer ser humano alegrias e frustrações se alternam em proporções semelhantes e podem surgir a qualquer momento existindo, é claro, exceções como o casamento de Frannie e Matt (Greg Germann) que está indo de vento em pompa. Por outro lado, a relação de Christine e David (Jason Isaacs) está de mal a pior, mesmo com o casal vivendo em meio a uma reforma na casa, o que indicaria que eles estavam pensando em um futuro promissor juntos. Por fim, Jane e Aaron (Simon McBurney) convivem muito bem, mas ele é um tanto afeminado, o que gera algumas fofocas que pouco a pouco passam a incomodar a estilista. Enquanto isso, Olivia está solteira, mas de certa forma ainda envolvida em uma relação mal resolvida, pelo menos na cabeça dela. Entre diálogos irônicos, outros confidenciais e fofocas, o tom de conversa informal é a grande marca desta obra, o que ajuda ao espectador a se tornar íntimo do universo dos personagens, embora eles sejam muitos para serem bem desenvolvidos em pouco tempo de filme (cerca de uma hora e meia), mais um fator que acentua a sensação de estarmos assistindo a um episódio esticado de um seriado de TV, só que com a diferença de que não há uma continuação para acompanharmos desdobramentos ou conclusões. O fato de nem todos os conflitos apresentarem uma resolução ao final gera controvérsias. Para os mais convencionais é frustrante e pode soar como a assinatura de que esta comédia é tão vazia que nem mesmo uma conclusão decente teria a oferecer. Por outro lado, não deixa de ser uma opção inteligente da diretora dando preferência ao realismo, afinal nem tudo na vida tem um final feliz e a maior parte das situações que vivemos são resolvidas na base do conformismo, e pode também ser compreendida como uma oportunidade para o espectador participar da história tirando suas próprias conclusões, só é uma pena que tal inclusão venha tarde demais. Embora os atores estejam em cena de forma convincente, os problemas de seus personagens em sua maioria não dialogam com o público em geral. É como se fosse um filme especialmente feito para apresentar o universo burguês para uma platéia também elitizada, mas a mesma não comprou a ideia afinal de contas deve ser muito incômodo serem retratados como pessoas que podem não aparentar, mas no fundo se sentem superiores, algo que fica latente quando as ricaças comentam que se tivessem conhecido Olivia nas circunstâncias atuais provavelmente não poderiam ser amigas. Para não demonstrar orgulho, resta a elas darem conselhos e tentar ajudar financeiramente a mulher menos favorecida do grupo, sempre com as melhores intenções, mas também com uma pontinha de crítica ou esnobismo em suas ações.

Contudo, será que Olivia deve ser mesmo rotulada como a infeliz do quarteto? A narrativa prova que isso é um erro. Ser refinado significa fazer piadinhas e fofocas às escondidas e na presença do alvo dos comentários trocar beijos e afagos? Felicidade é ter uma casa ampla aos olhares da vizinhança, mas pequena demais para um casal que vive trocando farpas e não se suporta? Se tiramos alguma lição deste filme é que o ideal de felicidade para muitos que tem dinheiro anda um tanto distorcido. Enquanto isso, Olivia vai levando sua vida conforme pode, fazendo bicos como diarista, reduzindo inclusive o valor de seu pagamento se for preciso, mantendo a pele rejuvenescida a base de amostras grátis de renomados produtos de beleza, mas sempre parecendo mais bem humorada e disposta que suas amigas, tanto que ela faz planos para abandonar as faxinas e passar a ganhar a vida se dedicando a aulas de educação física. Entre o elenco feminino, repleto de estrelas reconhecidas principalmente por preferirem projetos alternativos a filmes banais e comerciais, destoa o nome de Aniston, visto por muitos como um dos grandes problemas da produção. Por ser o nome mais famoso e sua trama a que talvez mais cause identificação com o espectador de classe média a baixa, é natural considerarmos sua personagem a protagonista, mas ainda alguns tendem a rejeitá-la no papel por acharem que sua beleza não combina com o perfil de uma faxineira, uma visão que pode ser compreendida também como um preconceito de quem assiste e até mesmo alienação. Hoje em dia muitas pessoas belas e com estudo, como é o caso de Olivia, precisam se sujeitar a profissões menos reconhecidas para sobreviverem. Não é porque sua função inclui tarefas como recolher o lixo ou limpar o vaso sanitário que você deve ser julgado ou visto de forma rebaixada, mas aparentemente a cineasta quer justamente reforçar preconceitos. Parece em vários momentos que a diarista na trama serve para lembrar suas amigas que por pior que suas vidas estejam certamente estarão muito distantes de sua realidade. Aliás, a última cena da personagem, inclusive o diálogo que trava com um ex-contratante de seus serviços, mostra o seu conformismo e sua felicidade diante de uma realidade que poucos almejam. Todavia, ela pelo menos teve seu final feliz garantido. Com cara de filme de baixo orçamento, mas ambição de se tornar aquela pequena produção que desponta como um grande sucesso, tanto que foi apresentado na abertura do Festival de Sundance de 2006, o berço dos independentes, Amigas com Dinheiro até que consegue ter seus bons momentos, isso se você curtir o estilo dos seriados já citados e similares que de certa forma marcaram uma geração e fizeram um registro do perfil feminino bem-sucedido dos anos 2000. Procurando aliar entretenimento e conteúdo, é uma pena que Holofcener não teve a ousadia de levar além do convencional à crítica ao vazio emocional da classe média norte-americana que ainda cultiva o sonho de viver em uma bela e grande casa com um jardim florido na entrada, cenário ideal para uma foto em família que transmita toda a sua plasticidade. Como saldo positivo, o longa pelo menos serviu para Aniston acrescentar uma interpretação diferenciada ao seu currículo, uma personagem que apresenta a realidade de milhares de outras pessoas sem ser caricata.

Comédia romântica - 87 min - 2006 - Dê sua opinião abaixo.

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